NOSSA MISSÃO: “Anunciar o Evangelho do Senhor Jesus à todos, transformando-os em soldados de Cristo, através de Sua Palavra.”

Versículo do Dia

Versículo do Dia Por Gospel+ - Biblia Online

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

No Império Do Relativismo Somos Deuses

Toda traição é fruto do egoísmo, do desejo de satisfação pessoal. Não existe amor envolvido em traições. Porque amor implica em considerar primeiro o outro.

Quem trai considera em primeiro lugar a si mesmo. Seu prazer físico e emocional, na experiência de relacionar-se com o objeto da traição, é que conta. Não ama o traído,nem ama o objeto motivador da traição, ama suas próprias sensações. É isso: na traição o outro é sempre objeto - ainda que desejado, por ser fonte de realização, mas objeto.

Aquele que é capaz de trair uma pessoa, é capaz de trair qualquer outra. Quem desconsidera a dignidade de uma pessoa, não pode considerar a dignidade de qualquer outra, além da sua.

No amor o outro é visto com dignidade e tratado com respeito. Quem ama não ousaria macular tal condição, seja lá qual fosse a justificativa que o egoísmo lhe apresentasse.

Obviamente que o traidor há de encontrar justificativas que lhe soem plausíveis para seu ato egoísta. Há de convencer-se que há alguma nobreza em seu gesto sórdido.

É assim que a humanidade distorce valores morais, muda as palavras e seus significados só para inocentar-se de seus próprios crimes - proclamados pela consciência.

Em vez de mudar as atitudes, parece mais fácil mudar as palavras que as qualificam. E assim vamos etiquetando as coisas com outros nomes, para acalmar a consciência. No lugar de IMPULSO EGOÍSTA, escrevemos PAIXÃO INCONTROLÁVEL ou AMOR ARREBATADOR. Então o CULPADO pode ser chamado de VÍTIMA.

Vamos ressignificando as coisas. Não é atoa que POLÍTICOS CORRUPTOS reclamam o título de PERSEGUIDOS POLÍTICOS. O antigo ASSASSINATO DE BEBÊS já pode ser chamado de LIBERDADE DE ESCOLHA DA MÃE.

Por conveniência, cada indivíduo é elevado à condição de deus - um tipo de legislador de um universo que ele considera seu.

Nessa insanidade de nos imaginar senhores do universo, caso optemos por acreditar em algum outro deus, além de nós, façamos um à nossa imagem e semelhança - certamente ele há de aprovar nossos dicionários de valores sintonizado com a nossa época.

E viva à subjetividade, ao relativismo! Viva à degradação e à miséria humanas.

Por:  Noeme Rodrigues De Souza Campos

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O Natal segundo o apóstolo Paulo – Gálatas 4.4-5 (Parte 1/3)

Uma das canções mais amadas dos cristãos cantadas durante a época de Natal é a de William C. Dix, “What child is this?” (“que criança é essa?”). Como poucas canções, a letra dessa composição nos leva a contemplar a identidade, a pessoa e a obra do bebê na manjedoura. Na verdade, ainda que de forma gentil, mas também persistentemente, força-nos a responder à pergunta: essa criança é realmente um bebê santo ou apenas um bebê para feriados e comemorações?
Quando pensamos sobre essa questão, a maioria das nossas reflexões se detêm nos anúncios do nascimento nos Evangelhos de Mateus e de Lucas. Estas passagens certamente têm seu lugar. Nesta série, contudo, vamos considerar o Natal de acordo com o apóstolo Paulo. Sim, até mesmo o apóstolo reflete sobre as maravilhas do nascimento de Jesus, e ele o faz em Gálatas 4.4-5.
(4) vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, (5) para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos.
O apóstolo Paulo nos diz seis coisas extraordinárias sobre Cristo ao nos responder à pergunta que a canção nos propõe. Nessa nossa primeira parte de uma série de três textos, vamos considerar duas dessas verdades.
Em primeiro lugar, perceba que, de acordo com o apóstolo, Jesus é o Filho pelo qual todo o tempo havia esperado. As palavras de Paulo nos levam a refletir sobre o momento da aparição de Cristo no mundo: “vindo, porém, a plenitude do tempo”. O momento em que Jesus veio é dito como o tempo em seu ponto máximo, uma ocasião única em que todas as partes da história que teriam de ocorrer, de fato, ocorreram. Todo e cada detalhe que deveria ter acontecido agora estava em seu lugar. Claramente, Paulo quer que percebamos que o momento do aparecimento histórico do Filho do Pai foi algo acordado e estabelecido entre o Pai e o Filho desde a eternidade. O apóstolo Pedro acrescenta que o momento da chegada do Filho era uma data que os profetas do passado diligentemente investigaram, que lhes fora revelada e predita por eles (1Pedro 1.10-12). Essas palavras, então, geram em nós a percepção de que o momento do nascimento de Cristo foi de acordo com a determinação de Deus, que, desde toda a eternidade, pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, livre e imutavelmente, ordenou tudo o que acontece. Cristo não poderia ter nascido mais cedo, nem mais tarde.
Portanto, se o nascimento de Jesus ocorreu na plenitude do tempo, como é essa plenitude? Podemos resumi-la em quatro características. Foi um tempo de preparação política. O Império Romano trouxera a pax Romana (“paz de Roma”) para o mundo então conhecido e, assim, o mundo se uniu como nunca antes (cf. Lucas 2.1). Foi um tempo de preparação econômica. Os romanos haviam construído um bom sistema de transporte, focado em cinco rodovias principais que saiam de Roma para destinos no mundo antigo (cf. Colossenses 1.23). Foi um tempo de preparação cultural. A língua grega se tornara o meio de comércio, cultura e filosofia (ou seja, a língua franca), e assim era possível que o evangelho e a literatura do evangelho atingissem um público universal. E, finalmente, foi um tempo de preparação religiosa. A fome da alma, individual e social, viera sobre o mundo. O fracasso do paganismo e até mesmo do judaísmo, junto com um renascimento das esperanças messiânicas, caracterizava grande parte do mundo antigo. Assim, em sua frase “vindo a plenitude dos tempos”, o apóstolo Paulo nos aponta para o fato de que, politicamente, economicamente, culturalmente e religiosamente falando, a história fora orquestrada pelo Deus único e verdadeiro. Em particular, pela sua singular soberania e providência, as histórias de Roma e Jerusalém, que figuraram tão proeminentemente na estada do nosso Senhor na terra, convergiram. A data marcada para a chegada do Filho do Pai veio na hora certa.
Quem é esta criança na manjedoura, então? É a criança por quem todo o tempo havia esperado.
Em segundo lugar, as palavras do apóstolo em Gálatas 4.4-5 nos dizem que criança é essa quando ele diz que Jesus é o Filho “nascido de mulher”. Com estas palavras, Paulo começa a refletir sobre as circunstâncias de seu nascimento, que por sua vez dirige nossa atenção para a humilhação do glorioso Filho eterno. Em acordo com profecias como as de Gênesis 3.15 e Isaías 7.14, o Filho nasceu de uma mulher. Ele era, portanto, totalmente humano, bem como plenamente divino, o único Deus-homem. O Filho de Deus foi enviado para ser um conosco em nossa humanidade.
Mas há mais nessa expressão “nascido de mulher”. Veja, o apóstolo conhece a história do nascimento de Jesus. Naquele tempo, era costume falar de “nascer de um homem”, um costume de que as genealogias da época testemunham – exceto a de Jesus. Ele nasceu de uma mulher; na verdade, de uma virgem, como predito pelo profeta Isaías. Esta criança nasceu sem um homem, nascido de uma mulher, o Filho de Deus Pai.
No entanto, “nascido de mulher” nos diz ainda mais sobre esta criança. Ele não foi apenas feito e formado “na mulher”, mas “de mulher”. Isto é, ele nasceu de sua carne e sangue, e participou deles. Essa é a primeira circunstância de seu nascimento a que o apóstolo chama a nossa atenção ao refletir sobre o esvaziamento e grande humilhação do Filho do Pai.
Que criança é essa, então? É o Filho que nasceu de uma mulher, assim como era o filho por quem todo o tempo havia esperado.
Em nossa próxima etapa, examinaremos mais duas verdades que o apóstolo Paulo nos ensina sobre o Natal.

Por: R. Fowler White. © 2016 Ligonier. Original: Christmas According to the Apostle Paul – Gal 4:4-5 (Part 1 of 3)

domingo, 11 de dezembro de 2016

A estreita relação entre hipocrisia e desequilíbrio

Na primeira parte desta série, falamos, dentre outras coisas, sobre a aparente pretensão de tratarmos daquilo que chamamos de “o maior problema da igreja atual”. Com tantos problemas, é difícil elencarmos “o maior”, mas, quando vemos o tratamento que existe na Bíblia à hipocrisia, não temos muitas outras opções, senão aprofundarmo-nos mais e mais no que concerne àquela prática. Na verdade, a hipocrisia estaria listada como um vício. Nos moldes aristotélicos, a hypokritês, que designava os atores que “fingiam” seus personagens nos palcos, passa a ser considerada uma falta, um “defeito” da moral, cuja ação virtuosa seria o “meio”, o equilíbrio entre a falta e o excesso. É por isso que, até hoje, falamos em “equilíbrio” das coisas. Como quase todo mundo parece viver desiquilibrado, a importância deste estudo acentua-se.
Ligar a hipocrisia ao desequilíbrio e, mais especificamente, ao aumento do desequilíbrio na atualidade, não é tarefa difícil. Praticamente todo mundo concorda que vivemos uma época de excessos, de polarizações, em que vemos com mais clareza as faltas e os exageros, ou, em outras palavras, os “vícios” de uma sociedade doente. O fingimento nas relações claramente segue este desequilíbrio, posto que parece que os homens tentam fugir cada vez mais dos relacionamentos que constroem.
Não é à toa que se fala muito, atualmente, de relacionamentos frágeis ou líquidos, nos quais a “fluidez” é a palavra da vez. A inconsistência em como vivemos nossas relações, hoje, é reflexo direto de nossa própria inconsistência como seres individuais, antes mesmo de sermos seres sociais. Quando chamados à atenção sobre isto, fugimos existencialmente, não dando ouvidos ao que se nos está sendo cobrado, e fazemos caras de choro, com pena de nós mesmos, no melhor estilo da “geração mimada” em que nos tornamos. E falar sobre este assunto não só tem se tornado um peso, um fardo, como causa extrema insatisfação existencial; o que, sem dúvida, é mais uma prova inequívoca do profundo desequilíbrio social, emocional, psicológico e espiritual que vivemos.
A Bíblia, como um livro de sabedoria que também é, nos ensina quanto aos vícios. Chamando-nos à atenção aos perigos do desequilíbrio moral, adverte-nos: “Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas louco; por que morrerias fora do teu tempo?” – Eclesiastes 7:16-17. Quase como se estivesse dizendo que no “excesso” ou no “exagero” da justiça e da sabedoria se caracteriza exatamente a falta de sabedoria, tal qual na extrema falta de ambas, a saber, na perversidade e na loucura (também em “excesso”), o Livro do Eclesiastes revela um importante conceito hebraico que, bem antes da ética aristotélica, ensina-nos que o equilíbrio é um sentimento que nos livra inclusive da destruição e da morte. Este princípio teórico é asseverado em várias outras partes da Escritura, mostrando-nos sua importância para a sabedoria antiga.
Outro texto bíblico que corrobora o que digo é: “Como cidade derribada, que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio”, Provérbios 25:28. Que melhor definição sinônima de “equilíbrio moral e psicológico” do que “domínio próprio”? A esta característica, atribuímos o bom senso, a prudência, a temperança, a serenidade. O que não nos é muito aparente, por enquanto, é a sua ligação com a hipocrisia, mas isto, prezado internauta, é porque ainda não fizemos o link causa-efeito, ou seja, as implicações sinérgicas entre a hipocrisia e o desequilíbrio.
No texto anterior, dissemos que há “desdobramentos teóricos e práticos” da questão, e procuraremos falar sobre os mesmos, elencando-os à medida em que avançamos em nossa meta, que é a completa exposição da hipocrisia como “o” maior problema da Igreja atual. A falta do domínio próprio, por exemplo, resulta em ações, acerca das quais normalmente nos arrependemos de tê-las praticado. É justamente aí que entram outros aspectos, psicológicos, os quais confirmam a suspeita da vulnerabilidade daquele(a) que assim age, isto é, contra sua própria consciência, tendo que “assassinar” o bom senso, levando-o(a) a mentir, distorcer, ludibriar, afim de que possa-se manter o edifício de (auto) engano que ele(a) próprio(a) erigiu para si.
Ora, quem mente, distorce conceitos e fatos e ludibria o próximo, tendo que viver na mentira e no engano constantemente, para que o que foi dito se sustente. O efeito a longo prazo? A crença naquilo que se diz e no que se criou, na própria ilusão da verdade, muitas vezes nos servindo de subsídio para, infantilmente, transmitirmos aos outros, dentro de frágeis relações, que a forma como transmitimos e compartilhamos como pessoas vale mais do que o quê compartilhamos. Em suma: nas relações atuais, para uma parcela crescente de seres humanos, a forma vale mais e em detrimento do próprio conteúdo, ocasionando um acentuado desequilíbrio nocivo resultante. Esse é o resultado direto e o que proporciona um modus operandi típico da nossa maneira de viver e da forma como nos relacionamos uns com os outros: relacionamentos frágeis e um ambiente mais do que propício para o florescimento da hipocrisia. No próximo texto desta série, aprofundaremos mais as questões práticas espirituais resultantes dos pontos negativos da relação entre equilíbrio e hipocrisia. 

Por Artur Eduardo

sábado, 10 de dezembro de 2016

Isenções fiscais para igrejas podem acabar no Brasil; Entenda

A crise econômica não tem afetado apenas as grandes indústrias e empresas, ela ameaça também as instituições religiosas. A proposta de acabar com a isenção fiscal das igrejas faz parte do conjunto de medidas que partem do governo para combater o déficit nas contas públicas, e tem causado polêmica entre os partidos e lideres religiosos de todo Brasil.
A intenção dos deputados federais é ampliar a discussão sobre a reforma da previdência, para discutir, também, se igrejas, pequenos empresários, produtores rurais e instituições filantrópicas devem ou não continuar isentos de pagar impostos ao governo.
O governo calcula que a soma dessas isenções fiscais equivalem a R$ 65,2 bilhões de reais, cuja arrecadação poderia servir para ajudar cobrir o rombo da previdência, que segundo levantamento da Receita estima-se em R$ 181 bilhões de reais para o próximo ano.
Veja abaixo o gráfico informando a quantia que cada setor deixa de pagar atualmente com a isenção:
Fonte: Receita Federa/Folha
Segundo informações da Folha, além de incluir também as instituições de ensino, como seminários teológicos e faculdades religiosas, os parlamentares também pretendem rever a isenção fiscal de times de futebol, que hoje pagam apenas 5% de todo faturamento obtido com o clube.
Há divergência de opiniões entre os parlamentares, assim como na população, em se tratando das entidades religiosas e filantrópicas, uma vez que tais organizações prestam serviços essenciais à comunidade, muitos dos quais como forma de suprir as deficiências do próprio Estado.
“A isenção não é um benefício, mas uma contrapartida por aquilo que as entidades filantrópicas realizam no lugar do Estado”, declarou o Deputado Federal da bancada evangélica, João Campos (PRB-GO), a reportagem da Folha de São Paulo.
Por outro lado, o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), declarou que a Previdência estará falida em 2024 se nenhuma medida for tomada, defendendo a necessidade da reforma. Maia disse a Folha receber com surpresa a notícia de que nenhum clube de futebol no Brasil paga a Previdência Social, justificando seu posicionamento.
Na prática, portanto, a intenção do governo ao rever as isenções fiscais é captar recursos para cobrir o rombo da previdência, mesmo que para isso seja necessário rever as de entidades, empresas e pessoas que através de suas ações prestam serviço ao Estado. Essa é, sem dúvida, mais uma medida polêmica que vai gerar muita discussão, acirrando também os ânimos no Planalto em 2017.

Fonte: gospelmais

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Não adianta esconder: Jesus sabe!

De acordo com o site Mundo dos Animais1, “os animais de estimação, também conhecidos como animais domésticos, de companhia ou simplesmente pets, são animais domesticados e mantidos geralmente dentro de casa, sob a responsabilidade dos seus donos (ou protetores)”. Esses animais também – quando são escolhidos por bons donos – são muito paparicados e bem cuidados.
Assim como acontece com os animais, o pecado também é escolhido, cuidado e mimado por muitas pessoas. É alimentado diariamente, como se fosse algo normal. Às vezes, guardado num dos esconderijos da alma, permanece ali, sendo cevado e amado como um animal de estimação o é.
Conquanto nós ajamos assim em determinado tempo de nossa vida, não é do agrado de Deus permanecermos “criando” o pecado em nossa casa terrena (corpo). Brincar com o pecado no quintal do nosso coração é suicídio espiritual. É fantasiar imergidos numa realidade carnal e diabólica. Assim estava o jovem rico.
Tentando dissimular com bajuladoras palavras, um jovem rico aproximou-se de Jesus e disse-lhe: “Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?” (Mt 19.16). Ao que ouviu de Jesus: “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” (v. 17). A chaleirice do homem foi em vão. Jesus não se deixou levar por blandícias.
Após responder positivamente, achando-se justo diante de Deus, e dizendo que guardava os mandamentos, o jovem rico ouviu o que jamais queria ouvir da boca de alguém: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me” (v. 21). Então, entristecido por Jesus ter descoberto sua avareza, o rapaz retirou-se da presença do Senhor, porque era dono de muitas propriedades e não queria perdê-las.
Jesus descobriu o pecado de estimação daquele jovem – o amor às riquezas. A avareza na vida daquele abastado era mimada todos os dias. Era bem cuidada. A avareza não podia reclamar do seu dono, pois era um dono exemplar, uma pessoa que lhe amava acima de todas as coisas.
O Senhor sabe quem nutre um pecado de estimação. Nada foge aos seus olhos. Ele vê tudo. Ele revela tudo. Portanto, se você está “criando” um pecado de estimação, Jesus sabe!
Sua salvação pode estar em risco!

Por João Paulo Souza

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Independência e morte

“Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque ‘Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes’. Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido” (1 Pedro 5:5-6)
O grito do nosso “libertador” ecoa nas veias de seus súditos. Um povo se ergue para exigir sua independência – e se torna mais preso do que nunca. Atualmente, palavras muito similares são sussurradas diariamente a nossos ouvidos. O homem pós-moderno foi criado sob o paradigma da autonomia como uma meta desejável – senão inegociável – e, na ânsia por um viver libertador, se viu mais preso que nunca.
Não se pode negar, no âmbito do desenvolvimento humano, a importância da independência, mas é igualmente inegável a supervalorização da mesma na contemporaneidade. O mito do homem autônomo o tornou adorador de si mesmo, incapaz, muitas vezes, de praticar a disciplina da submissão.
O homem superindependente sente-se agredido quando confrontado; questiona constantemente seus superiores; desconstrói e relativiza regras. Gradativamente, a imagem que projeta de si mesmo faz sombra àqueles que o cercam, tenham eles autoridade reconhecida socialmente ou não. O homem pós-moderno regrediu à forma do primeiro homem: o Adão autônomo.
O projeto de autonomia de Adão nos trouxe todas as mazelas que conhecemos – principalmente a morte. E o mesmo projeto é reproduzido fielmente nos corações de homens e mulheres de hoje. Faz-se necessário pôr à terra as estátuas de autoidolatria que erguemos, além de lembrar que da mesma terra somos formados.
Jesus nos convida constantemente a reconhecer nossa própria pó-breza: nos lembra que não temos controle sobre as circunstâncias que nos envolvem e nos desafia a diariamente sacrificar nosso ego em favor de uma vontade maior. Enquanto não compreendermos a exata dimensão de nossa fragilidade, não seremos capazes de estar do lado humilhante de uma relação de submissão.
Um hábito que deriva dessa premissa é o discipulado, do qual temos inúmeros exemplos nos textos bíblicos. A relação mestre-discípulo está presenta nas histórias de Elias e Eliseu, Barnabé e Paulo, Jesus e os doze, entre tantas outras. O discípulo devia acolher as palavras e exemplos do mestre, não obstante a dificuldade; ir onde quer que o mestre fosse; obedecer a tudo que o mestre ordenasse.
Se a relação de submissão se dá em parâmetros saudáveis, perceberemos o que acontece em todas as histórias já citadas: o discípulo desenvolve autonomia suficiente para tornar-se eventualmente mestre sem ser consumido pela egolatria. Ao contrário do projeto de autonomia de Adão, a submissão saudável – embora inicialmente um ato de dependência – desenvolve todo o potencial do ser humano, gera vida.
Como mencionado, o discípulo deve reproduzir o mais fielmente possível os passos do mestre. E nosso mestre supremo foi, acima de tudo, submisso. Nas palavras de Paulo, Jesus “embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!”. A nós, o pedido é simples: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus”.
Resta-nos escolher: dependência e vida; ou independência e morte.
  • Levi Agreste, 25 anos, graduado em Letras pela Unicamp, leciona em três escolas da região metropolitana de Campinas, faz parte da coordenação da ONG Soprar e escreve no blog umanovaviagem.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Não somos perfeitos

Não sei se você já teve esta sensação: diante de alguém que fala mal de algo que você ama você fica sem reação porque, no fundo do seu coração, você sabe que a pessoa está certa e, por mais que te machuque, você não pode fazer nada, pois concordar com os fatos é mais forte do que sua própria vontade.

Tive esta sensação ao ler Salvos da Perfeição, de Elienai Cabral Júnior. Ele, filho de pastores, cresceu “na fé” e conhece a igreja por dentro. Porém, não fala de bastidores sujos, mas de uma realidade ainda pior: a igreja falhou.

A igreja falhou em sua missão de alimentar os famintos, curar os enfermos, dar liberdade aos cativos.

Mas por que ela errou? Por nossa causa. Nós, que não fomos atentos à palavra de Deus e à força da sua vontade. Não entendemos o que ele nos dizia e criamos uma imagem de Deus diferente do que ele é de verdade. E o autor deste livro entende que fizemos isso.

Sua crítica é concisa e objetiva. Cáustica por vezes, contudo sempre sólida e consistente, o que faz com que seja ainda mais dolorida. O livro é contemporâneo, falando de como os nossos problemas pessoais influem em nossa visão de Deus e em nossa interação com a instituição igreja. Elienai nos mostra o quanto falhamos conosco mesmos enquanto não entendemos que não somos perfeitos, e sim humanos cheios de falhas, e que, exatamente por isso, Deus nos ama mais que tudo.

Jesus, para o autor, não é apenas um interventor de Deus no meio da humanidade. Ele é a própria humanidade de um Deus perfeito, que se faz imperfeito para se assemelhar a nós e nos levar de volta até ele.

Não é leitura fácil. Elienai desconstrói a igreja, Deus, Jesus e, por fim, nós, que pensamos na perfeição como sendo a nossa meta. Desconstrução é um processo longo, árduo e apenas permitido aos que têm a capacidade de olhar a vida por diferentes ângulos, sem preconceitos e abertos a novos paradigmas e pontos de vista.

Para mim, a leitura foi um parto. Um parto de uma nova visão de igreja, mais próxima do que Deus definiu que ela seria. Mais próxima de cumprir seu papel de diminuir o sofrimento na terra. Mais próxima da felicidade.


• João Thiago da Cunha Netto, casado com Fernanda, é jornalista e escreve no blog www.webbencao.blogspot.com e no site www.jornallivrearbitrio.com. Escreveu o blog-livro www.larinterior.blogspot.com. Atua como evangelista na Igreja Apostólica Batista Projeto Céu, em Santos, SP.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Neoevangélicos: raízes podres e indigestas

Os surtos neoevangélicos recentes são certamente contaminados por uma estruturação clara em torno de um poder religioso especializado, econômico, restrito, hierárquico, autoritário, objetivo, moderno. Os fiéis tramitam essencialmente no ambiente urbano marcado pelo anonimato, por relações indiretas, pela massificação dos costumes, sem expressão de comunhão e de comunidade, em reação estrondosa às condições sociais e econômicas. Imaginam-se no mundo pré-histórico? Nunca. São muito modernos, capitalistas “in essentia”, como coreografia de mitos ancestrais manipulados convenientemente.

A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, na antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais (em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não) e a religião nunca se dissociam dos meios de produção econômica (João Décio Passos). Narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o transcendente. Estão na religião. Este é um ponto. O outro refere-se à institucionalização da religião, quando vão se racionalizar origens e fins. Atualizemos o surto contemporâneo da religião de mercado.

Pensemos no céu noturno, em forma de cúpula, com estrelas cadentes. Debaixo dele as pessoas armavam tendas. Como seria intrigante a marcha regular das estrelas, os céus cruzados periodicamente por tochas de fogo em alta velocidade, estrelas cadentes, grandes rios lácteos correndo pelo céu, tapetes gigantescos de estrelas estendidos nas noites limpas... Criaturas poderosas deveriam viver no firmamento... Nasce a religião! Magos, videntes, curandeiros e feiticeiros conheciam esses mistérios. Tinham, portanto, as chaves dos lugares sagrados, dos santuários, dos altares onde se fariam sacrifícios. Podiam manipular a religião por causa de seus atributos e competências. A Bíblia Hebraica, contudo, não esquece nenhum detalhe a respeito dessa religiosidade: condena-a. O homem bíblico não é diferente dos outros: denuncia-a imediatamente. A guinada na direção da religião revelada ocorrerá gradativamente.

A religiosidade comum a todos os homens pode ser esboçada assim. Contudo, a experiência de religião encontrada no Antigo Testamento vai fugir do comum. O ambiente mesopotâmico e depois cananita enseja uma abordagem diferenciada, notável. O povo bíblico crê numa religião revelada. Deus é espontâneo, revela-se porque quer. Não crê na religião natural, fenomenológica, calcada em sentimentos diante do fascinante mundo ao redor. No segundo caso, os fenômenos físicos ditam o ritmo dos acontecimentos. E agora, o deus econômicus neoevangélico, dita novas regras?

A aflição sobre fenômenos sobre os quais não se possui nenhum controle, vida nômade debaixo de céus estrelados contrapostos às tempestades noturnas, medonhas, céus lampejados vivamente por raios intensos, exigiram uma resposta do homem. Imaginemos uma árvore despedaçada por um raio, como acontece ainda hoje em áreas rurais, na madeira carbonizada e exposta (terror que converteu Lutero!). Acrescentemos a observação de ciclones, furacões, maremotos. Como explicar um vulcão em erupção, extensões de terra abaladas, tremendo, e em seguida rachadas em grandes distâncias, num mundo limitado ao que as pessoas conheciam? Hoje, o otimismo evangélico econômico, em trono da prosperidade, passa ao largo dessas questões.

Deus, aqui, além de assemelhar-se ao “deus ex machina” da teatrologia da Grécia Antiga, é bem brasileiro. Deus é um serviçal, “deus-quebra-galho”, como num receituário doméstico. Todas as soluções possíveis para alguém se dar bem na vida. O crente ora e ordena à divindade imprensada na parede, depois das ofertas compulsórias: ”Fiz a minha parte, agora faças a tua”. Estamos na iminência de um “deus demitido do trono da graça”. Perdeu-se a essência bíblica que convoca à ética, solidariedade, compaixão e misericórdia. A graça de Deus custa muito caro no mundo neoevangélico carismático.

Derval Dasilio É pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância" (2013) e "O Dragão que Habita em Nós” (2010).

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Abstenham-se da imoralidade sexual

O Portal Ultimato disponibiliza a todos os leitores um dos artigos de capa desta edição 358 da revista Ultimato. O título “Abstenham-se da imoralidade sexual” é direto e franco, mas não simplista. Significa tomar a decisão de privar-se de práticas que deturpam o sentido da sexualidade que Deus nos deu como dádiva e para o nosso bem. Confira.

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Abstenham-se da imoralidade sexual

Precisamos oferecer resistência à inveja, ao egoísmo, à ira, à vingança, à ansiedade, à profanação do nome do Senhor, à apropriação indébita, à soberba e a qualquer outra coisa que prejudica a nossa comunhão com Deus e com o próximo. A pergunta agora é: é necessário oferecer resistência também à imoralidade sexual?

Além de abundante, a resposta é muito simples. Na relação das obras da carne ou das coisas que a natureza humana produz, a primeira que Paulo menciona é a “imoralidade sexual”. As duas seguintes são como comportamentos sinônimos: “impureza” e “ações indecentes” (Gl 5.19). Jesus, por sua vez, na relação das coisas que saem do coração e fazem com que a pessoa peque, não se esquece das “imoralidades sexuais” (Mt 15.19).

Paulo também fala sobre o assunto, primeiro quando escreve aos romanos: “Vivamos decentemente, como pessoas que vivem na luz do dia [e, portanto,] nada de farras ou bebedeiras, nem imoralidade ou indecência, nem brigas ou ciúmes” (Rm 13.13). E, depois, quando escreve aos coríntios: “Receio ainda que na minha próxima visita o meu Deus me humilhe diante de vocês e que eu tenha de chorar por muitos de vocês que continuam a cometer os mesmos pecados que cometiam no passado e não se arrependeram da sua imoralidade sexual, nem das relações sexuais proibidas, nem de outras coisas indecentes que faziam” (2Co 12.21). No caso de Corinto, a situação é muito grave porque, antes da conversão, eles viviam de acordo com a cultura da cidade, extremamente liberal na questão do sexo. Ao conhecerem o evangelho por ocasião da segunda viagem de Paulo, eles foram lavados de todos os pecados, inclusive da área do sexo (1Co 6.11). Agora, o apóstolo receia que eles tenham voltado à mesma má conduta anterior.

Nem todas as versões da Bíblia traduzem a palavra do original grego (porneia) como “imoralidade sexual”, o que é bom, porque, assim, podemos enxergar melhor o significado da expressão. Além disso, ela nunca vem sozinha. Sua abrangência é enorme: adultério, concubinato, devassidão, fornicação, homossexualismo, indecência, impudicícia, impureza, imundícia, incontinência, infidelidade, lascívia, libertinagem, luxúria, prostituição e relações sexuais ilícitas. Tudo isso está debaixo da chamada imoralidade sexual.

Na primeira carta aos Tessalonicenses, Paulo escreve: “Não há necessidade de lhes escrever a respeito do amor pelos irmãos na fé, pois o próprio Deus lhes ensinou que vocês devem amar uns aos outros” (1Ts 4.9). A capacidade de amar entre eles era notável. Mas o mesmo não se pode dizer da conduta sexual. Daí as exortações do apóstolo (1Ts 4.3-8, NVI):

1. Abstenham-se da imoralidade sexual.
2. Cada um saiba controlar o seu próprio corpo de maneira santa e honrosa, não dominada pela paixão de desejos desenfreados (ou não com paixões sexuais baixas).
3. Deus não os chamou para a impureza (ou para viverem na imoralidade).

A santidade requer vigilância e disciplina não só no que diz respeito à ira, à inveja, à presunção etc., mas também (não especialmente) no que diz respeito à indisciplina sexual.

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domingo, 4 de dezembro de 2016

Para quem tem vontade de tirar a própria vida

Já passou pela sua cabeça o pensamento de que “a vida seria mais fácil se, de repente, eu morresse”? Outra de nossas leitoras compartilhou com a gente seu testemunho sobre como superou esse momento. Com o relato, ela espera encorajar outras pessoas a não desistirem da própria vida. Se você passa por essa luta ou conhece alguém que vivencia isso, também esperamos que essas palavras possam te ajudar:

“Estou sentada no chão, meus braços envolvem as minhas pernas com força e as lágrimas escorrem no meu rosto. O único barulho que escuto é o meu soluçar. Eu sinto frio, não o frio que provavelmente você pensou quando leu essa palavra, mas o frio de não ter ninguém por perto – mesmo que na verdade tenha -, e dentro de mim há um vazio que me corrói e me mata de dentro pra fora. Fecho os olhos desesperançada e simplesmente não sei o que fazer.
Uma ideia sussurra ao meu ouvido: há uma maneira de acabar com tudo isso, há uma maneira de não magoar novamente as pessoas que eu amo, há uma maneira de deixá-las mais felizes. E isso é tudo o que eu mais quero. E só penso: como? Como pode ser possível? O sussurro lança sua ideia, de que eu ponha um ponto final nessa história, na minha história.
Algo dentro de mim se revira, fica me revolvendo, tentando buscar no meu interior algum amor à vida e até o encontra. Mas a ideia de não magoar ninguém, nunca mais, parecia tão boa e tão convincente, parecia uma ótima solução. Isso me faz ir até a cozinha e escolher uma faca. Sinto o frio do metal na pele do meu antebraço, mas não consigo fazer nada, minha mente dialoga com o sussurro.
E o sussurro é muito convincente e me leva a usar a imaginação, ele me faz imaginar os meus amores todos felizes. Eu retruco dizendo que eles iriam ficar tristes no meu enterro. Ah! Mas o sussurro é muito bom nisso, e me diz que será uma tristeza passageira, que depois de um tempo será como se eu nunca tivesse nascido, e isso será maravilhoso para todos eles. E ainda me pergunta: não é isso que você deseja, às vezes? Eu meneio a cabeça, porque já pensei dessa forma antes.
Eu sinto como se tivessem sugado toda minha alegria e meu ânimo.
Nesse momento, minha mãe vai até a cozinha beber água, e mesmo estando muito decepcionada comigo, ela não deixa que eu siga em frente com o plano sugerido pelo sussurro.
No dia seguinte, uma amiga na escola conta que sonhou comigo, que nele eu estava muito triste e então ela me fala de Jesus. O que aconteceu depois, de uma forma resumida, é que comecei a frequentar a igreja com ela, e aos poucos fui sendo transformada pela Verdade. Apesar disso, se Deus existia, nunca entendi porque Ele tinha me deixado chegar ao estado no qual eu cheguei.
Até que um dia eu tive uma experiência com Deus que mudou toda a minha vida. Eu tive uma visão sobre o dia em que eu pensei em tirar minha própria vida.
Ali naquele momento sombrio, doloroso, vergonhoso e sujo, que nem as pessoas mais próximas sequer imaginam que eu já passei, ali estava Ele, o cordeiro, o Emanuel, o príncipe da paz, na minha frente, olhando pra mim. E como se não bastasse todo esse paradoxo, Ele estava ali, me vendo naquela cena vergonha em que eu segurava uma faca acima do meu pulso, e Ele chorava.
Chorava pela minha solidão, que não me fazia enxergar que Ele poderia estar comigo todos os momentos da minha vida se eu O aceitasse, chorava por saber que eu sentia como se ninguém me amasse, chorava por ver todas as mentiras acerca da minha identidade nas quais eu estava acreditando, chorava pela minha ignorância acerca da mensagem da cruz.
Eu desisti daquela ideia de uma vez por todas e aos poucos o amor dEle me salvou e me transformou de uma forma que nunca imaginei.
A descoberta do sacrifício dEle naquela cruz por amor a mim é o motivo pelo qual meu coração ainda pulsa, é o motivo pelo qual hoje consigo sorrir, pelo qual hoje consigo sonhar.
Compreender que não sou um erro, mas fui planejada por Ele nos mínimos detalhes me fez encontrar um novo lugar no mundo, como filha do meu Abba Pai, e coloca em meu coração uma convicção e um desejo ardente de que outros filhos não caiam em armadilhas criadas por mentiras acerca de suas identidades.
Espero de coração que se você ou alguém que você conhece já pensou ou pensa em tirar a própria vida, que venha, assim como eu, a ter uma revelação do amor de Deus e que isso mude toda a sua vida. Que você venha a entender o quanto Ele nos ama, mesmo sem merecermos.”

Se você passou por algo parecido e deseja contar sua história para encorajar quem está lidando com essas questões, escreva pra gente: juventudes@ultimato.com.br. Garantimos o anonimato.

Fonte: Ultimato

sábado, 3 de dezembro de 2016

Religião rima com violência?

Tenho um coração pela África. Amei cada viagem que fiz a esse hospitaleiro continente, um lugar com gente especial, que também enfrenta temas complexos. Em poucos dias voltarei a visitá-lo, dessa vez na Nigéria. Além de servir ao que talvez seja o maior movimento estudantil cristão do mundo, NIFES (afiliado a IFES, movimento irmão da ABU), terei o prazer de me encontrar com aqueles que supervisionam a obra nos países de língua inglesa e portuguesa da região. Terei uma oportunidade única de buscar entender melhor os desafios que muitos países enfrentam; intolerância e violência infelizmente são parte dessas agendas.

Uma tragédia recente compõe esse cenário. Dos até então 148 mortos no ataque à universidade de Garissa, no Quênia, 22 eram parte do grupo local de FOCUS (também afiliado a IFES) que se reuniam em oração no momento da tragédia. Ficou evidente que o lugar em que se reuniam foi um dos primeiros alvos, e que houve em todo o episódio uma certa triagem, quando ser cristão era uma desvantagem mortal.

Se a fé é usada como uma “razão” para a violência, o que devemos fazer a esse respeito? Podemos concordar com as análises que associam uma, a religião, indelevelmente à outra, a violência? Como entender melhor e que caminhos de solução, sem cair em tentações simplistas, podem ser tentados adiante?

A religião é ambivalente. Sim, ela pode e tem sido usada na história como uma poderosa força de identificação para “justificar” a manifestação violenta de indivíduos, de grupos e mesmo de estados. Ainda assim, me parece que não seria correto nem justo associar religião com violência. Há fartos exemplos na história, possivelmente bem mais do que os episódios de terrorismo ou de violência organizada, que demostram o poder da fé: estimulando a resistência ao autoritarismo, fortalecendo movimentos democráticos e de direitos humanos ou ajudando a aliviar o sofrimento de muitos.

Digo religião em um sentido bem mais amplo, e não explicitamente a minha própria fé cristã, consciente de que para muitos é fácil identificar a sua própria fé como positiva e pacífica, e a do outro como intolerante e violenta. Na verdade, é bem mais difícil encontrar confissões de fé que sejam radicalmente pacifistas, aquelas que não ficam só na teoria mas que assim se revelam através da práxis de seus membros.

Voltando ao tema da religião ser usada para justificar atos de crueldade. Apenas comecei a ler trechos do que parece ser um excelente livro, “Rethinking religion and world affairs”1. Meu interesse em agora voltar a lê-lo com calma e detalhe se baseia na busca por entender algumas das posições aí defendidas. Alguns dos autores, ainda que cuidadosos em não associar de maneira definitiva a religião com o terrorismo ou com as guerras civis, apresentam dados que confrontam minhas percepções prévias de que não seria adequado associar a fé com a intolerância violenta.

Nunca apreciei que se associasse, por exemplo, o terrorismo com a fé islâmica. Sempre me pareceu injusto, perigoso e suscetível a compor uma agenda de dominação ideológica ou religiosa por parte de outro grupo (muitas vezes o meu próprio), os cristãos. Também não aprecio que se ignorem outros fatores que se escondem por detrás da violência, sejam culturais em um sentido mais amplo, étnicos, socioeconômicos, geográficos, políticos, onde a luta pelo poder se conduz mais facilmente através de máscaras religiosas que costumam ser úteis para esconder outras razões, além de ser bem eficazes para motivar as massas.

Chegando à leitura com essas minhas reservas, fui confrontado por estudos que apontam a ideologia islâmica como um fator motivador da violência contemporânea de maneira mais frequente que outras tradições religiosas. Isso deveria nos levar, a todos, a algum tipo de reflexão. Há que se buscar entender melhor as razões para isso, seja com humildade por aqueles dentro da própria comunidade islâmica, seja com sensibilidade e também sem arrogância por parte daqueles que não fazem parte dela.

Algumas dessas conclusões (sobre associação entre o Islã e a violência) seriam motivo para que eu estereotipe e seja intolerante ou até mesmo violento com os adeptos da fé islâmica? Para mim a resposta é um óbvio não, ainda mais porque quando se usa a religião como motivo para a agressividade, sem importar de que lado você está, a partir de uma ou outra religião ou ainda desde um secularismo ideológico, o resultado costuma ser pior ou mais intratável que outros tipos de violência.

Cento e quarenta e oito mortes violentas em uma universidade, sejam as vítimas cristãs, muçulmanas, agnósticas ou ateias, desvelam uma tragédia inominável e totalmente repudiável. Chorar juntos e ser solidários são respostas iniciais importantes. Mas é preciso seguir além e buscar entender conjunturas mais amplas, dialogar, construir ordens nacionais e internacionais mais justas.

Quando regressar da visita solidária a meus queridos irmãos na África espero voltar com ideias adicionais para essa reflexão. Estou mais que disposto a aprender e a atesourar as lições que eles estão aprendendo através desses tristes episódios. Quem sabe, se aprendermos bem, podemos tentar evitar aqui entre nós a omissão ou a incoerência em nossos próprios caminhos. Estereotipar ou simplificar as causas dos nossos problemas não nos ajudará. Violência não se resolverá com mais violência. A vida de todos, independentemente de sua religião, idade, condição social ou identidade, é um dom precioso que merece ser bem protegido. Cada um de nós deveria sempre, sem duvidar, defender a vida.

Por Ricardo Wesley Morais Borges
É casado com Ruth e pai de Ana Júlia e Carolina. Integra o corpo pastoral da Igreja Metodista Livre da Saúde, em São Paulo (SP), e serve como secretário regional associado para a América Latina da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE-IFES)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

De quem é a “Terra Santa”?

Nas últimas semanas tem sido quase impossível ler jornais ou ouvir notícias na televisão sem se deparar com a violenta situação envolvendo palestinos e judeus e, mais especificamente, com a luta ferrenha envolvendo os islamitas do Hamas e o exército israelense. Este problema tem enormes consequências políticas e sociais não só para o Oriente Médio, mas para todo o mundo e poderia se transformar facilmente no estopim de uma grande guerra mundial. Para entendê-lo precisamos, inevitavelmente, entender um pouco da história do conflito.

Para nós, cristãos, o problema também tem uma dimensão teológica que, dependendo do nosso posicionamento, afetará a maneira como interpretamos essa situação e, consequentemente, nossa práxis missionária. Será que o que está acontecendo na “Terra Santa” é parte do cumprimento das profecias e promessas do Antigo Testamento e, portanto, os palestinos não têm nenhum direito de demandar uma parte do território? Será que a criação do estado de Israel é um dos indícios de que a segunda vinda de Cristo está próxima? Espero que, depois de ler atentamente a perspectiva histórica e teológica, você possa fazer suas próprias conclusões e atuar em conformidade com elas.

1. Perspectiva Histórica1

Nossa retrospectiva começa entre os séculos 20 e 18 a.C., com a promessa de Deus para Abraão e seus descendentes. Essa promessa, ou seja, a conquista da Palestina, foi cumprida somente séculos mais tarde, ao redor do ano 1240 a.C., sob a liderança de Josué. Por volta do ano 1000 a.C. David estabeleceu seu reino em Jerusalém. Mas, em 586 a.C. o Reino do Sul deixou de existir e os judeus foram levados para o cativeiro.

Mesmo com o regresso parcial dos judeus a Jerusalém anos mais tarde, sob o comando de Esdras, a realidade é que a partir de 586 a.C. até o ano 638 d.C. (ou seja, mais de mil anos) a “Terra Prometida”, a não ser por breves intervalos de tempo, não voltou a estar sob o domínio judeu, e esteve sob o controle dos Impérios Babilônico, Persa, Grego ou Romano. No ano 70 d.C. Jerusalém, que naquele tempo então estava sob o domínio do Império Romano, foi destruída e em 135 d.C. os judeus foram expulsos da cidade e passaram a viver em diferentes partes da região.

A Palestina passou a estar sob o domínio dos muçulmanos a partir do ano 638, quando Omar era o califa. Este domínio permaneceu até o ano 1918, exceto por alguns anos durante as Cruzadas, o que representa cerca de 1280 anos sob o domínio muçulmano. Foi a partir de então que a região passou a estar sob o Protetorado Britânico.

De 1880 em diante o número de judeus que se estabeleceram na Palestina, fugindo da perseguição antissemítica que estava havendo na Europa, começou a aumentar significativamente. Nessa época, 5% da população era composta por judeus e 95% por árabes palestinos. Quando os árabes perceberam as intenções a longo prazo dos judeus, passaram a ter uma atitude mais violenta.

Em 1917, na Inglaterra, foi assinada a Declaração de Belfour, em que se reconhecia o direito dos judeus a terem sua própria pátria, com a ressalva de que em nenhum momento os árabes palestinos poderiam ser prejudicados pelas concessões feitas aos judeus.

A violência entre os dois grupos continuou em aumento até que, em 1947, a Organização das Nações Unidas aprovou um plano que dava 52% das terras para os judeus (que então representavam 31% da população e possuíam legalmente apenas 6% das terras) e 48% para os árabes (que representavam 69% da população).

Em 1948 o Estado Judeu foi estabelecido. Os árabes, inconformados com o que eles entendiam ser uma grande injustiça, se levantaram contra os judeus, foram derrotados e, no processo, perderam ainda mais território. Como resultado desta situação, ainda hoje há 3,5 milhões de palestinos refugiados em diferentes países do Oriente Médio.

Este acontecimento foi visto por muitos cristãos como o “início do fim” e o cumprimento de promessas bíblicas. O povo judeu precisava de um território próprio, depois de sofrer intensamente o holocausto levado a cabo pelos nazistas. O problema era que a Palestina já era habitada pelos árabes palestinos há mais de mil anos, ou seja, há muito mais tempo do que o Brasil foi descoberto! (Podem imaginar os brasileiros atuais sendo expulsos de suas casas e do Brasil, para que os habitantes originais regressem às suas terras?). O mundo tinha sido compreensivelmente simpático aos judeus que sofreram terrivelmente, mas ignorou os direitos e o clamor do povo Palestino, que vivia naquele lugar há vários séculos.

Seiscentos e cinquenta mil muçulmanos e 55 mil cristãos palestinos foram expulsos de suas casas. O novo governo de Israel destruiu mais de 400 povoados palestinos. Desde então milhares, principalmente palestinos, morreram em meio às intermináveis batalhas. Milhares de árabes (muçulmanos e cristãos) continuam sem uma casa, sem uma pátria. Anos atrás conversei com um cristão palestino, que vive na cidade de Belém, onde Jesus nasceu, e ele me contava os sofrimentos dele e da sua família para a sobrevivência diária.

Os milhões de muçulmanos em todo o mundo olham esta situação e se perguntam: por que os governos ocidentais (que são considerados pelos muçulmanos como governos cristãos) não fazem algo para solucionar esta injustiça? Por que durante a Guerra do Golfo as potências mundiais reagiram rapidamente para liberar o Kuwait (país que possui muito petróleo e, portanto, o mundo tem muitos interesses comerciais ali) e há 50 anos não resolvem o problema entre Israel e o povo Palestino? É claro que o povo e as autoridades palestinas cometeram erros, e parte da responsabilidade pela situação atual recai sobre eles. No entanto, eu não tenho nenhuma dúvida de que os atentados terroristas que são frequentemente perpetrados no Ocidente e a situação tensa que perdura no Iraque, Paquistão, Afeganistão, Irã e Gaza estão intimamente relacionados com esta situação.

2. Perspectiva Teológica


De acordo com Chapman, quando o tema está relacionado ao conflito Judeu-Palestino, todos os cristãos se encaixam em uma de duas categorias: os dispensacionalistas/“restauracionistas” e os que defendem a Teologia do Pacto.

No primeiro grupo estão aqueles que acreditam que a restauração da terra aos judeus é parte do plano de Deus, um cumprimento das profecias e promessas do Antigo Testamento. A promessa feita a Abraão ainda é válida e deve ser interpretada literalmente. Os judeus são detentores do direito, dado por Deus, de possuir a terra e a criação do Estado de Israel com o retorno dos judeus à terra prometida mostra que a Segunda Vinda de Cristo é iminente. Sob este ponto de vista tudo o que está acontecendo hoje naquela região do mundo é parte do plano de Deus de abençoar seu povo, que culminará com um grande conflito e a Segunda Vinda.

Já os que defendem a Teologia do Pacto crêem que

"O Pacto com Abraão e todas as promessas e profecias do Antigo Testamento devem ser interpretadas sob a luz da chegada do Reino de Deus em Jesus; o Antigo Testamento deve ser lido através das lentes do Novo Testamento. Devido ao fato de que as profecias e promessas do Antigo Testamento foram cumpridas na chegada do reino em Jesus, o regresso dos judeus à Terra Prometida e o estabelecimento do Estado de Israel não tem nenhum significado teológico especial.2"

Em prol dos que defendem esta posição Chapman3 argumenta que Jesus teve pouco, ou nada, a dizer sobre a restauração de um reino terrestre, e que não há nada no Novo Testamento que sugira que os discípulos e apóstolos, depois da ressurreição e ascensão de Cristo, tenham tido outra expectativa que não fosse "uma herança reservada nos céus”4, ou a “Jerusalém celestial”5, ou ainda a falta de necessidade de um templo em Jerusalém para que houvesse adoração verdadeira.6

Alguns dos que se identificam com o primeiro grupo muitas vezes concluem que, como o que está acontecendo é parte do plano de Deus, os Palestinos devem ser vistos como inimigos, sem nenhum direito à Terra Prometida e, por isso, a mão de Deus está pesando sobre eles. Ao fim e ao cabo, além de palestinos, eles são muçulmanos (esquecendo-se que uma minoria importante de árabes palestinos é de cristãos)!

Já os que se identificam com a segunda posição concluem que tanto os palestinos como os judeus erraram e, portanto, “carecem da glória de Deus”. Consequentemente, como cristãos, o que resta a ser feito é denunciar as injustiças de ambos os lados e apresentar-lhes o Evangelho da Reconciliação.

“Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um... E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto... Assim já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da familia de Deus...” Efésios 2.14-19.


• Marcos Amado é Diretor do Movimento de Lausanne para a América Latina, Missionário da Sepal e recentemente criou o Centro de Reflexão Missiológica Martureo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Quem é o joio?

Estava conversando com um amigo sobre o sermão que ele havia pregado a partir da parábola do trigo e do joio. A parábola em que Jesus diz que Deus semeou as pessoas boas e o Diabo semeou as pessoas más. Significando que há seres humanos que, na vida, se aliam a Deus para fazer o bem, enquanto outros se aliam ao Diabo para fazer o mal.

Os que são tidos como joio, são os que vivem de maldade em maldade sem nenhuma reserva moral. Segundo Cristo este grupo de pessoas continuará o seu caminho e só será separado no final, no dia do grande juízo, isto porque não é tão fácil distingui-los, eles podem se parecer com o trigo por boa parte do tempo.

Começamos a nos perguntar quem seria o joio? E, enquanto analisávamos as várias possibilidades, o caso de barbárie cometida contra o menino João Hélio invadiu nossa conversa e se impôs, afinal, estamos diante do mais profundo significado do que seria a maldade, a barbárie.

Quem seria o joio nesse caso tão brutal?
Um grupo de jovens sai munido de revolveres de brinquedo para conseguir dinheiro para o consumo de drogas, e acabam por provocar uma tragédia que comove toda a nação.

Gente que sai munido de arma de brinquedo, por acaso sai premeditando um desastre, uma tragédia, uma barbárie? Parece-me difícil pensar que sim. Causa mais a impressão de que as coisas saíram de controle e, então, a barbárie.

Não há desculpas, eles precisam ser responsabilizados. Mas quem é o joio? Quem está provocando esse estado de coisas que cria a pressão necessária para um ato dessa natureza?

Por que esses moços estão nas drogas? A quem devem? Por que tanto desespero? O que parece ter-lhes tirado toda a sensibilidade? O medo do linchamento? A conclusão de que se fossem alcançados seriam mortos sem misericórdia? Teriam chegado à conclusão terrível de que eram eles ou o menino? No que esses rapazes estão inseridos?

Quem é o joio? Como eles se tornaram viciados? Quem lhes levou à droga? A quem estariam devendo ao ponto do desespero? E quem trouxe a droga ao seu fornecedor? Como esse comércio se mantém inabalável? Como conseguem trazer os produtos que vendem? Por que não adianta prendê-los? Eles continuam a gerir os seus negócios de dentro das prisões. Aliás, as prisões se tornaram quartéis generais de grupos cada vez mais organizados? Como um estado paralelo consegue se desenvolver sem a conivência do estado oficial?

Quem é o joio?
É sempre mais fácil apelar para as soluções que parecem mais simples. Afinal, temos os responsáveis, eles confessaram. Mas, isso é assim tão simples? Executá-los seja de que forma for resolverá o problema? A violência de que são responsáveis reside neles mesmos, de modo que basta pará-los? Ou serão eles apenas a ponta de uma complexa máquina de maldades fomentada pelo lucro fácil, por um estado conivente e por toda sorte de corrupção da máquina pública?

Quem é o joio? Mais uma vez fala-se sobre a diminuição da idade para a responsabilização criminal. Então, a idéia é encher as cadeias de meninos e meninas menores de dezoito anos? Certamente não é para diminuirmos os crimes. Nossas instituições prisionais estão abarrotadas, não há espaço. Há um considerável número de condenados que simplesmente não podem ser presos por falta de lugar. Celas para quatro pessoas abrigam mais de uma centena. Ouvi que o juiz, que está cuidando do caso, proporá que os menores devem ser reclusos por cinco anos ao invés de três anos, como reza a lei. A justificava dele é que serão melhor recuperados pelas medidas sócio-educativas de que serão alvo nesse tempo. De que medidas sócio-educativas ele está falando? Do que acontece nos institutos de reclusão de menores, como na antiga Febem, em São Paulo, agora chamada de Casa? Como se mudar o nome de uma anomalia a tornasse menos anômala.

Quem é o joio?
Estamos todos de luto, sem dúvida! Mas, já não deveríamos ter vestido luto quando meros trabalhadores foram incinerados dentro dos veículos que são obrigados a utilizar para se deslocarem? Como esses pobres seres humanos se chamavam? Alguém se lembra? Já não deveríamos ter feito passeatas por eles? Os responsáveis por esses crimes contra os trabalhadores pobres não saíram com armas de brinquedo, eram tão ou mais jovens dos que os responsáveis pela barbárie que nos escandalizou. Eles estavam sob comando, haviam recebido uma ordem cruel, e encheram a cabeça com toda sorte de alucinógenos para poder cumpri-la. Quem deu a ordem? Por que não foram responsabilizados? Os criminosos devem ser plenamente responsabilizados, mas não é tão simples reunir todos os criminosos. É mais fácil punir os mais próximos, e eles devem ser punidos, mas não importa quão rigorosa seja a punição que recebam, não será esta punição que interromperá a violência.

Tenho ouvido de muitos, sobre esse caso: os próprios presos darão um jeito neles, eles vão ver só. Como não há pena capital no país, aceita-se a punição paralela, impetrada pelos próprios reclusos como execução da justiça, sancionando-se, assim, a existência do estado paralelo. Estamos de luto! Mas já deveríamos estar trajando o negro há muito tempo. Principalmente, pela sociedade que temos construído nesse país; pelo sistema econômico que temos implantado; pelo nível de injustiça social com que convivemos sem crise. Pelo comportamento de nossos governantes em todas as esferas do Estado. Pelo nível de corrupção da máquina estatal.

Certamente, temos uma boa idéia sobre quem ou o que seja o joio. Caçar o joio, entretanto, não parece ser nada simples. E com que armas se caça o joio? Podemos começar por um projeto educacional sério. Um grande colégio em São Paulo colocou uma extensão de sua unidade na favela próxima às suas instalações, de modo a, de alguma maneira, beneficiar aquela comunidade carente, as crianças desta teriam os mesmos professores e matérias que os membros da elite, que freqüentam a grande escola. É prática dessa instituição promover uma maratona de matemática entres os alunos de suas várias unidades, e a extensão na comunidade carente foi incluída. E, para espanto geral, foi um de seus alunos, um jovem da raça negra, quem mais se destacou obtendo o segundo lugar no certame, que reuniu as mentes mais privilegiadas. Quantos gênios estão escondidos nas comunidades carentes? Quantos teriam suas vidas mudadas se, simplesmente, fossem apresentados à aventura do estudo, ao extraordinário mundo dos livros.

Os alemães e os italianos acabaram com os grupos terroristas niilistas (termo que vem da palavra latina Nihil, que significa Nada). Esse novo terrorismo sem propósito político, que campeia nos tempos atuais, teve como precursores dois grupos: o alemão, Baader Meinhof e o italiano Brigada Vermelha. As respectivas polícias conseguiram sem desrespeito à lei, erradicá-los. Por que a nossa polícia não conseguiria erradicar esses grupos para-estatais em nosso território? Essa máquina deve e pode ser destruída. Os italianos conseguiram, também, enfraquecer de forma impressionante o crime organizado, que entre eles já fazia parte do folclore sobre o que significava ser italiano. Por que nosso aparato policial não o conseguiria. É certo que na Itália eles contaram com um judiciário incorruptível, muitos juizes perderam a vida para curar a sociedade italiana desse câncer. Por que o nosso judiciário não o faria? É verdade que a vitória, tanto dos italianos como dos alemães, foi conquistada por uma polícia marcada pela inteligência, pela seriedade e pela incorruptibilidade. Por que nossa policia não o conseguiria? A repressão inteligente e séria ao crime organizado é forma eficaz de erradicar o joio.

A questão do combate à violência passa pela redução da maioridade legal ou pela repressão eficaz às maiorias que aliciam os menores?

E que dizer de termos um projeto sério de redistribuição de renda? Como convencer adolescentes de que eles, sem oportunidades, devem se contentar em repetir a história de seus pais, que trabalham como poucos trabalhadores das nações modernas, para ver, no final do mês, o seu parco salário ser insuficiente para pagar suas irrisórias contas? Por que não lutamos por um programa sério de recuperação salarial? Por que não enfrentamos a realidade de um país com um dos menores índices demográficos, isto é, com um número pequeno de habitantes por quilometro quadrado, mas a maior concentração urbana do planeta. Cerca de oitenta e cinco por cento dos habitantes do Brasil moram em cidades. Como se explica isso num país com tanta extensão de terra? Basta lembrar que temos cerca de cento e oitenta milhões de habitantes num território maior que o território da Índia, que tem mais de um bilhão de habitantes.

Por que não temos um programa sério de reforma agrária? E que dizer do enorme número de gente sem teto em nossas cidades, quando há prédios totalmente vazios em nossas cidades; e terrenos ociosos por conta da especulação imobiliária? Por que não temos um programa habitacional que se possa ao menos chamar de sério? Há hoje no país uma febre pelo crescimento econômico. Você sabia que o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo no século passado? De que crescimento estamos falando? Qual o crescimento de que realmente precisamos?

Será que a resposta à possibilidade da barbárie é reduzirmos a maioridade legal, ou termos o crescimento que fomente a justiça, de modo que nossas crianças possam, de fato, crescer?

Há um joio na sociedade brasileira, porém, é um joio diferente do que Cristo descreveu em sua parábola. O joio de que Jesus Cristo falou só poderá ser colhido, arrancado do campo da vida no juízo final. O joio de que estamos tratando nessa terra varonil pode ser exterminado agora. Contudo, essa erva daninha não pode ser extinta jogando sobre os seus peões o peso de sua existência. Não é caçando jovens que erradicaremos a violência. Temos uma máquina complexa para desmontar, ela se parece com um polvo, seus tentáculos visitam todas as atividades da sociedade; sua cabeça habita nos palácios, e movimenta milhões de reais. Para erradicá-la é preciso destruir suas fontes de abastecimento. Ela se abastece da pobreza, da miséria; da injustiça social; da falta de programas educacionais eficazes e abrangentes; da ineficácia do Estado, assim como de sua fragilidade frente a possibilidade da corrupção; da concentração de renda, e de terras e de tetos, e de possibilidades.

Estamos de luto! E por razão mais do que justa. Como não ficar indignado frente a tal violência? Como não ficar indignado frente a um sofrimento estúpido como o infringido a esta criança inocente? E como não se desesperar frente a capacidade humana de perpetrar o mal? Entretanto, como diz a Bíblia: “A ira do homem não produz a justiça de Deus.” Em nossa ira sofremos a tentação de desejar que os bandidos, que estão na mesma cadeia dos rapazes, os matem. Em nossa ira começamos a falar de punir os nossos jovens com mais rigor, quando deveríamos falar em salvá-los desse monstro que temos deixado crescer por cerca de quinhentos anos. Assim não se faz justiça, apenas se dá lugar à vingança. E com vingança não se constrói nação alguma. A vingança faz o trigo se igualar ao joio.

Que a morte desse inocente se torne o motor de uma tomada de consciência que nos leve a consertar a nossa nação. Que nos leve a repudiar toda a sorte de desperdício, e de corrupção. Que nos leve a não tolerar mais a pobreza; e o analfabetismo; e o crime organizado; e a ineficiência do Estado; e a irresponsabilidade de nossos políticos. Até quando seremos uma nação que quando começa a falar em crescimento, começa a dizer da necessidade de destruir parte de nossas florestas e de prejudicar indígenas e quilombolas? Que quando começa a falar de justiça começa a falar em punir jovens, reconhecendo que já que os condenamos a ser bandidos que os prendamos o mais cedo possível? Que nos levantemos contra a máquina que trucida esses peões e erradiquemos as fontes de suprimento desse monstro, antes que tenhamos de concluir que o joio somos nós.

• Ariovaldo Ramos é pastor, bacharel em filosofia pela USP e presidente da Visão Mundial.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como lidar com quem fez ou pensa em fazer um aborto

“Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados…” (Lucas 7.47)
Recentemente, senti necessidade de ler um dos meus livros favoritos de Francine Rivers, “Atonement Child” [A Criança da Reparação]. É uma obra de ficção que conta a dramática história de uma jovem mulher cristã que descobre que está grávida depois de ter sido horrivelmente estuprada. Conta sobre sua luta com a pressão para interromper sua gravidez. No desenrolar da história, revela-se que tanto sua mãe quanto sua avó, por razões muito diferentes, fizeram abortos. O que nós temos são três mulheres através de gerações lidando com a questão do aborto e os efeitos trágicos em suas vidas e fé cristã. Eu li esse livro várias vezes porque me lembra da minha vida antes de Cristo e da sua maravilhosa misericórdia.
Uma coisa que realmente me impressiona é a forma como Rivers se concentra no trauma que essas mulheres sofrem. Elas foram devastadas pela escolha que fizeram. Ela pinta um quadro que me é muito familiar de mulheres que foram traumatizadas pela vida e atormentadas pelo remorso por suas escolhas. Infelizmente, há mulheres em nossas congregações que fizeram abortos e que podem estar aterrorizadas para falar a respeito por causa da vergonha, culpa e medo da recriminação. Nós podemos descobrir muitos fatos a respeito do número de mulheres fazendo abortos no Reino Unido e nos Estados Unidos, mas isso não é verdade quando se trata das mulheres em nossas igrejas. Eu suspeito que o número seja maior do que imaginamos ou que queremos admitir.
Nós sabemos que a Escócia tem a segunda maior porcentagem de abortos na adolescência do mundo (Cuba tendo a mais alta). As estatísticas estão começando a mostrar uma tendência perturbadora para o aborto no schemes. Um estudo em 2012 mostrou que na Escócia a taxa de abortos está, claramente, vinculada a altos níveis de pobreza, onde, de fato, a taxa pode ser o dobro de outras áreas. Mais uma vez, tragicamente, quase um terço das mulheres que fazem um aborto na Escócia afirma ter feito outro anteriormente.
Para as mulheres que querem trabalhar no schemes escocês, esta é uma questão muito delicada e difícil. Muitas mulheres com as quais estamos trabalhando fizeram ou estão considerando fazer um aborto. Eu acredito, absolutamente, que a partir do momento da concepção, o bebê é uma criança, tem vida, tem sido entrelaçado no ventre da sua mãe pelo Senhor – eu sou firmemente pró-vida. No entanto, mesmo quando não concordamos com a escolha delas, essas mulheres precisam de cuidado e graça para serem capazes de lidar com o trauma, a culpa, o medo e a dor com que muitas se deparam.
A mentira do mundo é que o aborto é a interrupção indolor de tecido. No entanto, não há nada indolor sobre esse procedimento, nem de longe. De fato, há muitas evidências que sugerem que existe uma clara correlação entre abortos e os efeitos negativos na saúde mental das mulheres. Não há facilidade alguma relacionada a tirar uma vida. Para muitas, isso corrói as suas próprias almas. Como podemos ajudar tais mulheres que vivem e adoram entre nós, como povo de Deus?
Onde começamos com aquelas que fizeram ou estão considerando um aborto?
Para as mulheres que não são salvas, eu acredito que precisamos falar, com compaixão e sem medo, a verdade bíblica e a esperança do evangelho de Jesus para as suas vidas. Há muitas razões que fazem uma mulher considerar o aborto como a única opção: medo, abuso, dinheiro e até mesmo como contracepção. Ela pode esperar que nós a condenemos instantaneamente, chamando- a de assassina e batendo com alguns versículos bíblicos bem escolhidos. Na verdade, pode haver um ponto onde ela sinta o peso da palavra de Deus. Mas a verdade bíblica falada com sabedoria e gentileza irá, espera-se, garantir que tenhamos mais do que uma discussão de 20 segundos. Nós devemos estar constantemente procurando trazer o evangelho para o centro do nosso aconselhamento quando lidamos com um assunto tão doloroso.
 Eu muito raramente falo sobre esse assunto por muitas razões. Principalmente, por ter sido uma dessas mulheres que tem vivido com medo, aterrorizada que as pessoas (os cristãos) descobrirão a verdade. Infelizmente, houve observações maldosas, comentários cruéis e absurdos inúteis e anti-bíblicos despejados sobre mim. Mesmo agora, quando eu compartilho o meu testemunho eu encontro maneiras de contá-lo sem realmente dizer as palavras. No entanto, apesar da seriedade do meu pecado, eu compreendi a imensa misericórdia e amor de Cristo e sou tão grata por Romanos 8.1: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”
Como podemos ajudar os cristãos na dor, como igreja?
 1. Precisamos reconhecer que esse pode ser um problema para algumas das nossas mulheres. Há muitas mulheres que não estão vivendo na graça libertadora que nos foi dada e estão ouvindo a mentira de que seus pecados não foram apagados ou nunca poderão ser perdoados. Devemos ajudar a entender as boas novas de que há perdão vindo de Deus, mesmo para esse pecado.
 2. Uma boa prestação de contas vai, com o tempo, proporcionar-lhes uma pessoa segura, alguém em que elas realmente confiem para dar o salto e dizer a verdade. Quando esse momento acontecer, por favor, lembre-se de aconselhar gentilmente com compaixão e graça. Contudo, fale a verdade bíblica claramente. Provérbios 27.6: “Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos”.
 3. Lembre as mulheres sobre o evangelho e a graça maravilhosa que lhes foi dada, a liberdade que há em Cristo. Nós todos carecemos da glória de Deus e felizmente, através de Cristo, podemos ser restaurados. Lembre-as que isso é um processo que levará tempo. Não há respostas fáceis ou atalhos. Duras verdades terão de ser enfrentadas, mas crescimento e libertação pode e irá acontecer em Jesus.
 4. Nós precisamos ajudar as mulheres a chorar por seus filhos (eu sei que isso pode soar estranho, porque elas fizeram uma escolha ativa, mas acredite em mim, há muitas mulheres em luto por esses bebês secretos em terrível silêncio). Isso faz parte do processo de cura.
Eu não estou dizendo que nós devemos deixar de lado, em qualquer momento, nossas convicções pró-vida, tolerar o pecado ou abafar a verdade bíblica. Porém, estou sugerindo que deveríamos considerar todas as vidas que o aborto pode afetar. Eu reconheço que isso tudo foi a respeito das mulheres (eu tenho uma leve inclinação a isto). No entanto, para todos os milhares de mulheres que lidam com a questão do aborto, há também milhares de homens. Eu ouço o tempo todo que é “direito das mulheres escolher”, mas e o pai? Ele pode nem saber até que tenha sido feito. Não há escolha para ele. Como ele lamenta? Como ele pode perdoar e lidar com sua dor? Será que ele se importa? É uma questão tão complicada. Por isso que essa não é a palavra final, mas só o começo da caminhada com as nossas ovelhas feridas.
É por isso que a única esperança é, finalmente, a esperança do evangelho.
“… o Senhor ungiu-me para levar boas notícias… Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes…” (Isaías 61.1-2).
Que o Senhor nos ajude a ajudar o seu povo, especialmente, nessa questão.

Por: Sharon Dickens. © 2015 20Schemes. Original: How Should Our Churches Deal With The After Effects Of Abortion?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A Origem do Mal

1. A ORIGEM DO MAL (TEODICÉIA)

“Procurei o que era a maldade [o mal] e não encontrei uma substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema – de Vós, ò Deus – e tendendo para as coisas baixas: vontade que derrama as suas entranhas e se levanta com intumescência. (Agostinho, Aurélio. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 190).

1.1 INTRODUÇÃO
O tema do presente estudo, apesar de receber um nome pouco conhecido, traz à tona uma questão notória e que inquieta a todos: o problema do mal, de onde ele se originou e, principalmente, o que Deus tem a ver com ele.
Por que o mal existe? Qual a razão de Deus tolerá-lo? Tais perguntas fizeram parte da vida e dos pensamentos de todos os homens que creram e dos que crêem em um “Deus soberanamente bom e justo”. A própria Bíblia traz exemplos de homens de Deus que O questionaram sobre esse tema:
“Tu [Deus] és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?” (Habacuque 1.13)
“Mas Gideão lhe respondeu: Ai, Senhor meu, se o SENHOR é conosco, por que tudo isto [mal, adversidade] nos sobreveio? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém agora o SENHOR nos desamparou, e nos deu nas mãos dos midianitas.” (Juízes 6.13)

1.2 A ABORDAGEM FILOSÓFICO-CIENTÍFICA

Teodicéia foi uma palavra criada nos meados do sec. XVI, pelo filósofo e jurista alemão Gottfried Wilhelm Leibniz.
Essa palavra deriva do grego Théos = Deus + Diké = Justiça, que por aglutinação formaram o vocábulo “teodicéia”, cujo significado literal é “Justiça de Deus”, ou como foi utilizado pelo filósofo alemão Leibniz: “estudo da justificação de Deus frente à existência do mal”.
Na obra desse filósofo, que aborda o assunto da existência do mal, chamada Escritos de uma Teodicéia, ele apresenta sua visão de Deus, muito parecida com a visão moral (que viria a ser formulada por Kant, um século depois), conforme abaixo:
“As perfeições de Deus são aquelas de nossas almas, mas, Ele as possui em ilimitada medida; Ele é um Oceano, do qual apenas gotas nos são concedidas; há, em nós, algum poder, algum conhecimento, alguma bondade, mas, em Deus estão em sua inteireza. Ordem, proporções, harmonia nos encantam; (…) Deus é todo ordem; Ele sempre mantém a verdade das proporções, Ele torna a harmonia universal; toda beleza é uma efusão de Seus raios.”
Diante de tal posicionamento, nota-se claramente que Leibniz “não colocava o problema do mal em Deus”, mas apenas fazia referência que seria impossível determinar, de uma maneira completa e lógica como e por quê o mal existe, assim como é impossível à uma única estrela determinar a imensidão do universo do qual ela faz parte.
Ou seja, a estrela (exemplo) faz parte do universo, contudo não expressa a completude do universo, logo, a explicação do mal e sua relação com Deus é possível de ser efetuada satisfatoriamente, e é verdadeira, porém incompleta, da mesma forma que a estrela é apenas uma parte de um infinito universo, que no caso são os mistérios de Deus.
Continuando suas explicações sobre a teodicéia, Leibniz afirma:
“Ora, essa suprema sabedoria [de Deus], aliada a uma bondade que é infinita, não pode escolher exceto o melhor. Pois, tal como um mal menos é um tipo de bem, também um bem menos é um tipo de mal se é um obstáculo a um bem superior; e haveria algo a corrigir nas ações de Deus se fosse possível fazer melhor. Como nas matemáticas, quando não há máximo nem mínimo, em resumo, nada haveria a distinguir, tudo é feito de modo igual; ou quando aquilo não é possível, nada é feito: então, pode-se afirmar o mesmo com respeito à sabedoria divina (que não é menos ordenada que as matemáticas) que se não houvesse o melhor (optimum) entre todos os mundos possíveis, Deus não teria produzido.”
Em resumo, para Leibniz, Deus criou o mundo da forma como ele é, porque este é “o melhor dos mundos”. Entretanto essa é uma visão racionalista, isto é, que parte apenas dos pressupostos lógicos para a formulação do conceito de “melhor possível”, levando-se em conta que como Deus é o “melhor moral”, Ele criou o mundo tal como é por ser ele (o mundo) o melhor possível, ou seja, que Deus não poderia ter feito outro mundo melhor que não fosse esse (vinculação).
Contudo, a visão de Leibniz está invertida, como disse o Dr. W. Gary Crampton:
“Leibniz tem uma visão invertida. Deus não escolheu este mundo porque ele é o melhor; ao invés, ele é o melhor porque Deus o escolheu.”
Logo, apenas a visão filosófica e racional não é capaz de explicar e aquietar o homem acerca da questão da existência do mal, portanto é necessária uma teodicéia com bases bíblicas para responder plenamente sobre a existência do mal.

1.3 TEORIAS A RESPEITO DO MAL
Muitas teorias têm apontado que o mal no mundo é fruto da concorrência de dois deuses finitos (maniqueísmo), outros negam totalmente a existência do mal e ainda outros propõe a existência de um deus finito.
Entretanto, citando mais uma vez o Dr. W. Gary Crampton:
“Estas teorias, é claro, estão longe de ser uma teodicéia bíblica. A Bíblia deixa muito claro que o mal não é ilusório. O pecado é real; provocou a queda do homem e a maldição de Deus sobre todo o cosmos (Gn. 3). Também Deus não deve ser visto como menos que uma divindade onipotente e onisciente. Ele é o Criador ex nihilo do universo (Gn. 1:1 e Hb. 1.1-3). Mais ainda, o fato de Deus ser o Criador e Sustentador de todas as coisas vai de encontro a qualquer forma de dualismo. Deus não sofre nenhuma concorrência (Jó. 33.13).”
Explicação:
  1. ex nihilodo latim, que significa do inexistente, do nada.
Portanto, se não há possibilidade da existência de dois deuses (um bom e outro mal, que duelam em nível de igualdade), nem de Deus ser finito, e se o mal realmente existe, deve haver uma explicação para o mal existir, e de que Deus não é seu autor, nem com ele concorda.

1.4 A TEODICÉIA CRISTÃ
1.4.1 A VISÃO DO MAL COMO ELEMENTO DE CONSTRUÇÃO DO CARÁTER

Um dos Pais da Igreja, chamado Ireneu de Lion (130 – 202), ao tratar da existência do mal, apontou que este era necessário para o aperfeiçoamento de todos os homens. Assim, o mal seria algo que contribuiria para o crescimento, fortalecimento e amadurecimento do homem no mundo, sendo este um “vale onde as almas são forjadas”.
Essa idéia é bastante interessante, principalmente para aqueles cristãos que descobriram a graça e o amor de Deus em maior profundidade, justamente nos momentos de aflição ou de sofrimento pelos quais passaram.
Contudo, essa visão não concilia a existência do mal com a também existência de um Deus de amor, que é onipotente e poderia perfeitamente amadurecer o homem sem que este necessitasse ser submetido a um contato com o mal.
E ainda, conforme ensina o Dr. Alister E. McGrath “essa abordagem parece apenas encorajar uma aquiescência [aceitação] em relação à presença do mal no mundo, sem apresentar nenhum direcionamento ou estímulo moral para que o homem resista ao mal ou o supere”, o que é ensinado em Romanos 12.21.

1.4.2 O MAL ORIGINADO DA CRIATURA E NÃO DO CRIADOR
Outra abordagem sobre o assunto trouxe Aurélio Agostinho (354 – 430), que ele formulou através de suas lutas contra o sistema gnóstico e sua evolução: o maniqueísmo. Esse cristão fervoroso cria convictamente que tanto a criação, quanto a redenção eram obras do mesmo Deus, desta maneira, seria loucura pensar que o mal teria sido criado junto com as demais obras de Deus, pois isso colocaria em Deus a raiz do mal.
Conforme Agostinho o mundo fora criado por Deus em uma condição de perfeição absoluta, entretanto, o homem, por fazer mal uso de sua liberdade, condenou a si mesmo e ao mundo à corrupção pelo mal.
È o que ele diz em sua obra Confissões, nas seguintes passagens:
“Quem há mais inocente que Vós [Deus], pois são as próprias obras que prejudicam os pecadores? (…) mas que repouso seguro há fora do Senhor?”
“Assim que a alma peca, quando se aparta e busca fora de Vós o que não pode encontrar puro e transparente, a não ser regressando a Vós de novo.”
Contudo, para que o homem pudesse fazer mal uso de sua liberdade e escolher o mal, este “mal” deveria existir precipuamente [anteriormente] à humanidade. Agostinho apontou que o “mal anterior”, foi a tentação realizada por Satanás sobre Eva e Adão, logo, Deus não poderia ser considerado o responsável pelo mal.
De onde, então, veio Satanás, posto que é uma criatura de Deus, e se Deus cria todas as coisas boas, por indução não poderia ter criado um Diabo?
Agostinho aponta que Deus criou Satanás como um anjo perfeito e sem traço de maldade, mas esse anjo quis se tornar semelhante a Deus, e dele veio a rebelião na qual hoje se encontra o mundo.
A pergunta que viria em seguida seria: Como um anjo, criado bom e perfeito, poderia ter se tornado mal? Segundo o Dr. Alister E. McGrath “Agostinho parece ter se calado em relação a esse ponto”.

1.4.3 O MAL ORIGINADO PELO PECADO

João Calvino (1509 – 1564), o reformador europeu, em sua obra Institutas ou Tratado da Religião Cristã, também aborda a existência do mal, e o expõe de maneira clara, como sendo ele gerado totalmente pelo pecado, primeiro de Lúcifer, depois do homem.
Segundo Calvino, nenhuma ligação pode ser engendrada [realizada] entre a existência do mal na natureza, e Deus como criador dessa natureza, ser também o “criador do mal”, conforme expõe nas Institutas:
“Portanto, lembremo-nos de que nossa ruína deve ser imputada à depravação de nossa natureza, não à natureza em si, em sua condição original, para que não lancemos a acusação contra o próprio Deus, como sendo o autor dessa natureza.”
“Portanto, afirmamos que o homem está corrompido por depravação natural, contudo ela não se originou da própria naturezaque foi criada perfeita por Deus. Negamos que essa depravação tenha se originado da própria natureza como tal, para que deixemos claro que ela é antes uma qualidade adventícia que sobreveio ao homem, e não uma propriedade substancial que tenha sido congênita desde o princípio.(..) Nem o fazemos sem um patrono, porque, pela mesma causa, o Apóstolo ensina que somos todos por natureza filhos da ira [Ef. 2.3].”
Explicação:
  1. depravação natural isto é, que veio de sua escolha pelo mal.
  2. da própria naturezaque foi criada perfeita por Deus.
  3. propriedade substancialaquilo que constitui a base de algo, a origem.
  4. congênitagerado simultaneamente com a Criação.
Por não ser Deus o criador do mal, concluiu Calvino que:
“Como poderia Deus, a quem uma a uma comprazem suas mínimas obras, ser inimigo da mais nobre de todas as criaturas [o homem]? Deus, porém, é antes inimigo da corrupção de sua obra, e não da própria obra.”
Desta maneira, é ensinado que o problema do mal não reside em Deus, mas na corrupção que sofreu a natureza, sendo que esta corrupção foi efetuada, primeiramente por Satanás e, posteriormente, através da sedução de Satanás, pelo homem, que foi criado perfeito.

1.4.3.1 A ORIGEM DO MAL EM SATANÁS

Como havia pensado anteriormente Agostinho, Calvino localizou a origem do mal no mundo como proveniente de Lúcifer que, pecando, tornou-se Satanás, segundo o próprio Calvino ensina:
“Como, porém, o Diabo foi criado por Deus, lembremo-nos de que esta malignificência que atribuímos à sua natureza não procede da criação, mas da depravação. Tudo quanto, pois, tem ele de condenável, sobre si evocou por sua defecção e queda. Pois visto que a Escritura nos adverte, para que não venhamos, crendo que ele recebeu de Deus exatamente o que é agora, a atribuir ao próprio Deus o que lhe é absolutamente estranho. Por esta razão, Cristo declara [Jo. 8.44] que Satanás, quando profere a mentira, fala do que é próprio à sua natureza, e apresenta a causa: ‘porque não permaneceu na verdade’.
De fato, quando estatui que Satanás não persistiu na verdade, implica em que outrora ele estivera nela; e quando o faz pai da mentira, lhe exime isto: que não se impute a Deus a falta da qual ele mesmo foi a causa.”
Explicação:
  1. não procede da criação, mas da depravaçãoDeus criou a Lúcifer, que em grego significa “portador da luz”, contudo este se degenerou, ao querer ser semelhante a Deus, pecando, e se tornando Satanás, que em hebraico significa “adversário”.
  2. De fato, quando estatui que Satanás não persistiu na verdade, implica em que outrora ele estivera nelaou seja, em princípio ele fora um ser bom e perfeito, que por decisão própria se afastou de Deus.
Assim, o mal possui uma origem, não em Deus, mas em uma de suas criaturas perfeitas, que intentou tornar-se maior que seu criador, o que Deus não admite (Is. 42.8).

1.4.3.2 A ORIGEM DO MAL NO HOMEM E SUA EXTENSÃO A TODA CRIAÇÃO

Satanás havia pecado e, consequentemente, foi expulso da presença de Deus e de suas santas atribuições (Is. 14). Um novo mundo havia sido recriado, e nele um novo ser fora feito: o homem, sendo que o primeiro foi chamado por Deus de Adão.
Adão fora criado em perfeição material e espiritual, possuindo em estado completo o livre-arbítrio, e ainda mais: possuindo a inclinação natural para o bem. Deus lhe colocou no Éden e, para tornar válido seu livre-arbítrio, lhe impôs que da “árvore do conhecimento do bem e do mal” não comesse, pois quando o fizesse, “certamente morreria” (Gn. 2.9, 16-17).
Nesse ponto Calvino diz:
“Deve-se, portanto, mirar mais alto, visto que a proibição da árvore do conhecimento do bem e do mal foi um teste de obediência; de modo que, ao obedecer, Adão podia provar que se sujeitava à autoridade de Deus, de livre e deliberada vontade. Com efeito, o próprio nome da árvore evidencia que o propósito do preceito não era outro senão que, contente com sua sorte, o homem não se alçasse mais alto, movido de ímpia cobiça.”
“Portanto, Adão podia manter-se [o livre-arbítrio], se o quisesse, visto que não caiu senão de sua própria vontade. Entretanto, já que sua perseverança era flexível, por isso veio tão facilmente a cair. Contudo, a escolha do bem e do mal lhe era livre. Não só isso, mas ainda suma retidão havia em sua mente e em sua vontade, e todas as partes orgânicas estavam adequadamente ajustadas à sua obediência, até que, perdendo-se a si próprio, corrompeu todo o bem que nele havia.”
Já conhecemos a história, Eva e Adão comeram do fruto proibido e atraíram sobre si a mesma maldição do pecado que estava sobre o tentador, Satanás.
Mais uma vez Calvino explica que:
“Entretanto, ao mesmo tempo é preciso notar que o primeiro homem se alijou [afastou] da soberania de Deus, porque não só se fez presa aos engodos de Satanás, mas ainda, desprezando a verdade, se desviou para a mentira. E de fato, desprezada a palavra de Deus, quebrantada lhe é toda reverência, pois não se preserva de outra maneira sua majestade entre nós, nem seu culto é mantido íntegro, a não ser enquanto atenciosamente ouvirmos sua voz. Conseqüentemente, a raiz da queda foi a falta de fidelidade.”
Logo, a culpa do pecado, e a consequente existência do mal está totalmente atrelada aos atos do homem, que no desejo de ser como Deus (Gn. 3:4-6), Dele se afastou, e por esse afastamento trouxe sobre toda a Terra o efeito devastador do mal, através do pecado (Gn. 3.17).

1.5 HARMONIZANDO AS TEORIAS E APONTANDO PARA UMA TEODICÉIA BÍBLICA

Agora, posto que já pudemos ver, basicamente, as três mais imponentes teodicéias cristãs, é necessário concluirmos e respondermos: afinal de onde o mal veio, e qual o seu propósito no mundo?
Com absoluta certeza, se olharmos para a vida prática, o mal contribui para o aperfeiçoamento do caráter dos cristãos que o suportam e vencem, pois assim a Bíblia ensina em diversas passagens (Sl. 116.15, Tg. 5.10-11, 1Pe. 4.19).
Também, pensando como Agostinho e Calvino, de maneira alguma podemos atribuir a Deus a criação do mal, mas este é decorrência exclusiva da atitude do homem de escolher – quando assim podia fazer livremente – pelo caminho do pecado e não da fidelidade à Deus, mesmo que tenha sido tentado pelo Diabo, visto que possuía completa capacidade de resisti-lo – não o fazendo por livre escolha.
Assim, podemos concluir, sem sombra de dúvidas, que a origem do mal é o afastamento e desobediência à vontade de Deus. Pode parecer muito simplista essa afirmação, mas Aquele que possui Nele mesmo todas as coisas e no qual habita toda a plenitude, assim determinou em sua soberana vontade (Is. 43.13).
Logo, a busca da independência de Deus, primeiramente de Lúcifer, e depois do homem, levou o mundo, que era perfeito, ao atual estado de perversidade e sofrimento (Ec. 7.9).
Entretanto, podemos ter certeza que todas as coisas, sejam boas, sejam más, estão contribuindo para o propósito de Deus (Rm. 8.28-30), expresso em Cristo Jesus (Rm. 5.18-21), que não podemos distinguir claramente agora (Dt. 29.29), mas em breve, quando Ele vier, nós compreenderemos perfeitamente (1Co. 13.12).
Assim, se da existência do mal, deriva mais glória a Deus – pois o mal acentua ainda mais a completa bondade, perfeição, justiça e santidade de Deus – cumpre aos cristãos, com todo temor (Hb. 12.25), se alegrarem por terem sido alcançados e feitos participantes da vocação celestial (Hb. 3:1).

Fonte: Igreja Aliança do Calvário

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