NOSSA MISSÃO: “Anunciar o Evangelho do Senhor Jesus à todos, transformando-os em soldados de Cristo, através de Sua Palavra.”

Versículo do Dia

Versículo do Dia Por Gospel+ - Biblia Online

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Se Deus não existe, por que existe tanto bem? – O ateísmo e o problema do bem

Na canção What a Wonderful World, Louis Armstrong belamente declara: “As cores do arco-íris, tão bonitas no céu, estão também nos rostos das pessoas. Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: Como vai você? Eles realmente estão dizendo: Eu te amo! E eu penso comigo, que mundo maravilhoso.”
De fato, o mundo está repleto de beleza, bem e amor. Ao longo da história, cientistas, poetas e artistas de cada cultura e civilização têm demonstrado efetivamente tais realidades, de tal forma que não restam dúvidas de que esses bens são qualidades inerentes à nossa existência. No entanto, qual é sua fonte?
Se, por um lado, o teísta deve lidar com o problema do mal, não restam dúvidas de que o ateu, em contrapartida, deve lidar com o problema do bem. Assim como o ateu indaga: “Se Deus existe, por que existe tanto mal?”, o teísta pode replicar: “Se Deus não existe, por que existe tanto bem?”.
Para responder a isto, o crítico frequentemente apresenta uma explicação reducionista insuficiente baseada em um tipo de darwinismo metafísico[1]. Para explicar esta insuficiência, o filósofo da ciência ateu, Michael Ruse, escreve:
“O conceito do evolucionista moderno […] é que os humanos têm consciência de moralidade […] porque ela é de valor biológico. A moralidade é uma adaptação biológica tanto quanto as mãos, os pés e os dentes… Considerada um conjunto de afirmações racionalmente justificáveis sobre algo objetivo, a ética é ilusória. Acho interessante notar que, quando alguém diz ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’, as pessoas fazem uma referência a algo que está acima e além de si mesmas […] Todavia, […] tal referência não possui qualquer fundamento. A moralidade é simplesmente uma ajuda à sobrevivência e à reprodução […] e qualquer significado mais profundo é ilusório[2]”.
Como acertadamente declara Ruse, em um universo amoral, sem Deus, bem e mal não passam de termos vazios de significado. Nesse contexto, as ações de Madre Teresa de Calcutá são tão irrelevantes e neutras quanto as de Adolf Hitler. Em uma cosmovisão ateísta, não se pode afirmar que a lei da gravidade é malévola por fazer com que aviões caiam ou bondosa por manter prédios em seus devidos lugares. Tudo que existe na natureza simplesmente é como é. Como afirma o festejado ateu de Oxford, Richard Dawkins:
“Os teólogos preocupam-se com o ‘problema do mal’ e um ‘problema do sofrimento’ que lhe é relacionado. […] se o universo fosse constituído apenas por elétrons e genes egoístas, tragédias sem sentido […] seriam exatamente o que esperaríamos, junto com uma boa sorte igualmente destituída de significado. Este universo não teria intenções boas ou más. Não manifestaria qualquer tipo de intenção. Em um universo de forças físicas e replicação genética cegas, algumas pessoas serão machucadas, outras pessoas terão sorte, você não achará qualquer sentido nele, nem qualquer tipo de justiça. O universo que observamos tem precisamente as propriedades que deveríamos esperar se, no fundo, não há projeto, propósito, bem ou mal, nada a não ser uma indiferença cega, impiedosa.”[3]
Como demonstra Dawkins, a verdade nua e crua é que o mal e o bem, na cosmovisão ateísta, não devem ser um problema, já que são uma ilusão. Tudo se reduz a sorte. O universo simplesmente funciona assim. Tudo não passa de uma “indiferença cega, impiedosa”. Problema resolvido. Eis, então, a solução: encarar a realidade com um racionalismo frio e neutro, parando de choramingar por retidão ao acaso. Tornemo-nos todos Srs. Spocks modernos, imunes ao sofrimento e à beleza! Quem, no entanto, consegue viver de maneira tão cínica? Quem conseguiria viver em um mundo onde as ações de Madre Teresa são tão neutras quanto as de Hitler? A resposta é óbvia: nenhum ser humano em sã consciência, em plenas faculdades mentais. Sabemos que viver assim é um absurdo justamente porque sabemos que o bem realmente existe.[4] Sabemos que o trabalho de inúmeras pessoas que contribuem para um mundo melhor lutando pela causa do amor ao próximo, além de ser extremamente nobre, constitui um dever moral.
O que dizer de William Wilberforce, Martin Luther King, Oskar Schindler, Dietrich Bonhoeffer, Desmond Tutu, Desmond Doss e tantos outros que impactaram o mundo positivamente com suas vidas em maior ou menor escala? Fecharemos de fato nossos olhos para a realidade do bem e do amor? Por mais que o mal mostre suas garras de maneira terrível neste mundo, também é verdade que o bem e o amor sobejam.
Sempre iremos à procura de sentido e propósito, mesmo que isso contradiga nossa cosmovisão[5]. Em algum momento, sempre iremos recorrer a um referencial de perfeição moral que está além de nós mesmos a fim de constatarmos que há algo de errado no mundo e que há também algo de muito belo e bom nele. Esse padrão moral que reconhecemos e nos faz concluir que o bem e o mal, o certo e o errado, de fato existem, transcende o mundo natural e nos aponta para Deus.[6]
C. S. Lewis, que foi ateu por muito tempo antes de se converter ao cristianismo, explica isto com muita propriedade:
“Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa ideia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o chamava de injusto? […] Um homem sente o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. É claro que eu poderia ter desistido da minha ideia de justiça dizendo que ela não passava de uma ideia particular minha. Se procedesse assim, porém, meu argumento contra Deus também desmoronaria – pois depende da premissa de que o mundo é realmente injusto, e não de que simplesmente não agrada aos meus caprichos pessoais. Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe – ou, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido –, vi-me forçado a admitir que uma parte da realidade – a saber, minha ideia de justiça – tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido – do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.” (Cf. LEWIS, C. S., Cristianismo puro e simples, São Paulo: Martins Fontes, pp. 51-52).
Portanto, a não ser que se adote uma postura cínica, afirmando que o bem e o mal são uma ilusão, o problema do bem permanece sendo um grande desafio aos críticos: se Deus não existe, por que existe tanto bem?

 Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Deus desceu até nós, isso é Natal!

O nascimento de Jesus foi o acontecimento mais extraordinário da história. Foi planejado na eternidade e anunciado na história. A própria história da humanidade foi uma preparação para esse dia glorioso. A vinda de Jesus ao mundo foi proclamada a nossos pais no Éden. Os patriarcas falaram desse dia. Os profetas descreveram esse dia. O tabernáculo e o templo de Jerusalém apontavam para esse dia. Os sacrifícios e as festas judaicas eram sombras daquele que nasceria nesse dia. Jesus nasceu na plenitude dos tempos. Deus preparou o mundo para a chegada de seu Filho. Através dos gregos, Deus deu ao mundo uma língua universal. Através dos romanos, Deus deu ao mundo uma lei universal. Através dos judeus, Deus deu ao mundo uma revelação sobrenatural. Quando tudo estava pronto, Deus desceu!
O Natal fala da encarnação do Verbo eterno, pessoal e divino. O Natal anuncia que o criador do universo entrou na história e vestiu pele humana. O Natal fala desse glorioso mistério que a mente mais brilhante não pode alcançar: Deus se fez homem, o Rei dos reis se fez servo. O eterno entrou no tempo. O infinito nasceu de uma virgem. Aquele que nem o céu dos céus pode contê-lo foi enfaixado em panos e deitado numa manjedoura.
O Natal traz à lume esse mistério dos mistérios. Jesus sendo Deus esvaziou-se e tornou-se homem sem deixar de ser Deus. Mesmo assumindo um corpo humano, nele residiu toda a plenitude da divindade. Ele veio para nos revelar Deus. Ele é a exata expressão do ser de Deus. Nele está todo o resplendor da glória divina. O Verbo habitou entre nós cheio de graça e de verdade. Quem vê a Jesus vê o próprio Deus, pois ele e o Pai são um.
O Natal é a sublime mensagem de que Deus enviou seu Filho Unigênito e o Filho voluntariamente veio, no poder do Espírito Santo, para dar sua vida em resgate do seu povo. Jesus nasceu não num palácio, cercado de glória e poder, mas numa estrebaria humilde, pois entrou no mundo como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Veio para estabelecer seu reino de graça em nossos corações e preparar-nos para o seu reino de glória. Veio não para brandir a espada da condenação, mas oferecer-nos o presente da salvação.
Quando Deus desceu até nós, os anjos celebraram no céu e os homens se alegraram na terra. Houve glória a Deus no céu e paz na terra entre os homens. O Natal precisa celebrado, pois é uma boa notícia de grande alegria! O Salvador do mundo, o Messias esperado e o Senhor dos senhores veio até nós, como nosso Redentor. Ele é a porta do céu. Ele é o novo e vivo caminho para Deus. Ele o único Mediador entre Deus e os homens. Só em seu nome há salvação. Por meio dele temos livre a acesso à graça e exultamos na esperança da glória.
É tempo de recristianizarmos o Natal e devolvê-lo a seu verdadeiro dono. É tempo de celebrarmos Cristo e não a nós mesmos. É tempo de nos prostrarmos diante dele para adorá-lo, como o fizeram os magos do Oriente e não fazermos festa para nós mesmos. É tempo de nos alegrarmos com grande e intenso júbilo, porque Deus nos amou de tal maneira que nos deu seu próprio Filho Unigênito, para que nele pudéssemos ter a vida eterna. Eis o conteúdo do Natal! Eis o propósito do Natal! Eis a glória do Natal! Deus desceu até nós para nos tirar do império das trevas e da escravidão do pecado. Deus desceu até nós para nos adotar como seus filhos. Deus desceu até nós para nos dar vida e vida em abundância!

Por Hernandes Dias Lopes

domingo, 24 de dezembro de 2017

A relação entre a desconstrução dos valores cristãos e o natal

Vivemos dias extremamente complicados onde de forma acintosa a chamada Nova Ordem Mundial tem tentado desconstruir os valores judaicos-cristãos. Nessa perspectiva tem sido comum encontrarmos na sociedade ocidental uma forte pressão para erradicar das famílias conceitos que até outrora eram inegociáveis. 

Um exemplo claro disso tem sido a desconstrução das chamadas festas cristãs,  e o motivo é obvio: Se a sociedade tem retirado de si os marcos que delineiam suas práticas e comportamentos, automaticamente desconstrói-se a reboque os conceitos oriundos de uma cosmovisão cristã. 

Ora, isso tem sido feito com o NATAL e o pior que alguns crentes tem se deixado levar pela a ideia de que a festa que relembra o nascimento de Cristo, deve ser extinta, contudo, o que esses cristãos não percebem, é que ao agirem dessa maneira, acabam sendo usados como massa de manobra por um sistema absorto em malignidade que tem por objetivo final ERRADICAR tudo aquilo que lembra Cristo e o Cristianismo. 

Querendo ou não, os que odeiam o Natal, precisam entender que ela é uma festa cristã (para ler mais sobre o assunto, clique aqui) e como já escrevi anteriormente o Natal nos oferece uma oportunidade impar em proclamar as verdades eternas de que um "menino nos nasceu..." Ademais, acredito também  que como portadores da Verdade Eterna, devemos aproveitar toda e qualquer oportunidade pra semear na terra árida dos corações a semente da esperança. Jesus é esta semente! Ele é a vida eterna! O Filho de Deus, que nasceu, morreu e ressuscitou por cada um de nós. A missão de pregar o Evangelho nos foi dada, e com certeza, cada um de nós deve fazer do natal uma estratégia de proclamação e evangelização.

Pense nisso!

Renato Vargens

sábado, 23 de dezembro de 2017

O relato do Evangelho muda a maneira de ler outras histórias

A história de Natal não é ficção, mas, ainda assim, eu diria que ela muda de uma maneira maravilhosa como interpretamos a ficção.
Pouco antes do lançamento do primeiro O senhor dos anéis, dirigido por Peter Jackson, uma série de artigos de críticos literários e de outras elites culturais lamentaram o apelo popular de fantasias, mitos e lendas, muitos dos quais (no modo de entender deles) promoviam pontos de vista retrógrados. Espera-se de pessoas modernas que sejam mais realistas. Deveríamos compreender que nada é preto e branco, mas cinza, que os finais felizes são cruéis, porque a vida não é assim. Na revista The New Yorker, Anthony Lane escreveu acerca do romance de Tolkien: “É um livro cheio de bravatas, e, no entanto, entregar-se a ele — sucumbir a ele [gostar de verdade dele], como muitos de nós fizemos em uma primeira leitura — revela […] uma relutância em enfrentar as nuances mais sutis da vida que beira a covardia”.[1] No entanto, Hollywood continua reciclando contos de fadas sob várias formas porque as pessoas têm fome deles.
Os grandes contos de fadas e lendas — A Bela e a Fera, A Bela Adormecida, O rei Artur, Fausto — não aconteceram de verdade, claro. Não são fatos reais. Contudo, parecem suprir um conjunto de anseios do coração humano que a ficção realista nunca é capaz de alcançar ou satisfazer. Isso acontece porque no fundo do coração humano existem esses desejos — de experimentar o sobrenatural, de fugir da morte, de conhecer um amor que jamais podemos perder, de não envelhecer, e sim viver o suficiente para concretizar nossos sonhos criativos, de voar, de nos comunicar com seres inumanos, de triunfar sobre o mal. Se as histórias fantásticas forem bem contadas, nós as consideraremos incrivelmente emocionantes e satisfatórias. Por quê? Pelo fato de, mesmo sabendo que na realidade essas histórias não aconteceram, nosso coração anseia por essas habilidades e conquistas, e porque uma história bem contada satisfaz momentaneamente nossos desejos, aliviando um pouco esse incrível anseio.
A Bela e a Fera nos fala da existência de um amor capaz de nos resgatar da brutalidade que criamos para nós mesmos. A Bela Adormecida nos conta que nos encontramos em uma espécie de feitiço do sono e que existe um príncipe imponente capaz de vir quebrá-lo. Ouvimos essas histórias e elas mexem conosco, pois no fundo do coração nós cremos, ou queremos crer, que esses fenômenos são verdadeiros. A morte não deveria ser o fim. Nós não deveríamos perder nossos entes queridos. O mal não deveria triunfar. O coração sente que, embora as histórias em si não sejam verdadeiras, as realidades por trás delas são de alguma forma verdadeiras ou deveriam ser. Mas a mente diz não, e os críticos dizem não. Insistem em que, quando você se entrega a contos de fadas e acredita de fato em absolutos morais, no sobrenatural e na ideia de que viveremos para sempre, nada disso tem relação com a realidade. É uma covardia entregar-se a esse tipo de ideia.
Chegamos então à narrativa do Natal. À primeira vista, ela se parece muito com outras lendas. Aqui está um relato sobre alguém de um mundo diferente que ingressa no nosso, alguém que tem poderes miraculosos, consegue acalmar a tempestade, curar e ressuscitar pessoas. Até que seus inimigos o entregam, ele é condenado à morte e parece que toda esperança se acabou, mas por fim ele ressuscita dos mortos e salva todo o mundo. Lemos isso e pensamos: “Mais um grande conto de fadas!”. De fato, parece que a história do Natal é mais um relato apontando para essas realidades subjacentes.
No entanto, o Evangelho de Mateus nega essa ideia ao fundamentar Jesus na história, não em um “Era uma vez”. Diz que isso não tem nada de conto de fadas. Jesus Cristo não é mais uma história adorável apontando para essas realidades subjacentes — ele é a realidade subjacente para a qual todas as histórias apontam.
Jesus Cristo veio do mundo eterno e sobrenatural que sentimos existir, que nosso coração sabe que existe, embora a cabeça diga que não. No Natal, ele abriu uma passagem entre ideal e real, eterno e temporário e ingressou em nosso mundo. Isso significa, se Mateus estiver certo, que existe uma bruxa má neste mundo, e que estamos debaixo de um feitiço, e que existe um príncipe imponente que quebrou o feitiço, e que existe um amor do qual jamais seremos separados. E voaremos de verdade um dia, derrotaremos a morte, e neste mundo, hoje “[vermelho] nas presas e garras”, um dia até as árvores dançarão e cantarão (veja Sl 65.13; 96.11-13).[2]
Em outras palavras, embora os contos de fadas não sejam fatos reais, a verdade de Jesus significa que todas as histórias que amamos não são de modo nenhum um escapismo. De certa forma, elas (ou as realidades sobrenaturais para as quais apontam) se tornarão realidade nele.
Para o cristão, é difícil saber o que dizer à criança que lê um livro e diz: “Eu queria que existisse um príncipe que nos salvasse do dragão. Eu queria que o Super-Homem fosse de verdade. Eu queria que pudéssemos voar. Eu queria que pudéssemos viver para sempre”. Você não pode simplesmente falar sem pensar: “Existe! Faremos tudo isso!”. No filme Hook a volta do capitão Gancho, Maggie Smith faz o papel de uma Wendy já idosa, da história de Peter Pan. Há uma cena em que ela conversa com Robin Williams, um Peter Pan adulto sofrendo de amnésia. Ele se diverte com as histórias que Wendy conta a seus filhos, mas em determinado momento ela o encara e diz: “Peter, essas histórias são reais”. Se o Natal de fato aconteceu, isso significa que a raça humana inteira sofre de amnésia, mas as histórias que mais amamos não são na verdade apenas um entretenimento escapista. O evangelho, por ser uma história real, significa que todas as melhores histórias demonstrarão, em última análise, ser verdadeiras.

 Trecho extraído da obra “O Natal Escondido: A surpreendente verdade por trás do nascimento de Cristo“, de Timothy Keller, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2017, pp. 40-44. Traduzido por Jurandy Bravo. Publicado no site Tuporém com permissão.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Cuidado para não julgar as pessoas

500 Anos da Reforma  |  Por Martinho Lutero
Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. [Mateus 7.1-2]

Perdão dos pecados e tolerância às outras pessoas são indispensáveis à vida cristã. Nós devemos suportar uns aos outros e nos perdoar mutuamente. Como Paulo ensinou, “Nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos” (Rm 15.1). Foi isso que Cristo quis comunicar quando disse: “Não julguem”.
Alguns cristãos possuem dons maiores e melhores do que outros. Isso é necessário, principalmente para os pregadores. Ninguém deve agir com superioridade nem pensar em si próprio como melhor do que aqueles que não têm tais dons. Entre os cristãos, ninguém deve tentar dominar os outros. Externamente, existem diferenças entre as pessoas. Um príncipe, por exemplo, tem uma posição mais elevada do que um fazendeiro. Um pregador tem mais educação do que um trabalhador comum. Mas, em seus corações, os cristãos devem ter uma só mente apesar das suas diferentes posições na sociedade. Eles devem desconsiderar as diferenças externas.
Como cristão, você deve aceitar os outros, fazendo concessões ao seu próximo, mesmo se este ocupar uma posição inferior na sociedade e tiver menos coisas do que você. Você deve respeitar o trabalho de um servo que cuida dos cavalos tanto quanto respeita o seu próprio trabalho, seja governando, seja pregando. O seu trabalho pode até parecer ter um impacto maior do que o do seu próximo, mas você não deve julgá-lo pelas aparências. Lembre-se sempre que o seu próximo tem a mesma fé e o mesmo Cristo que você. O seu próximo recebe tanta graça de Deus quanto você. Há um Deus que criou a todos e concede a cada um de nós os nossos próprios dons. Deus se agrada tanto do menor quanto do maior.
Em 2017, Ultimato vai relembrar e celebrar os 500 anos da Reforma Protestante. O Blog publica, sempre às segundas-feiras, uma devocional do reformador Martinho Lutero, retirado do seu Somente a Fé – Um Ano com Lutero.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Resoluções de Ano-Novo

Este ano vai ser diferente. Vai ser o “ano do poder”. Este vai ser o meu ano de avivamento espiritual. De ti, Senhor, não quero pouco; quero é tudo! Quero aquele batismo que arrebenta a boca do balão; quero “dunamis”. Poder para romper os cercos do inimigo, para derrubar muralhas, para matar gigantes a pedrada, para encher panelas de viúvas, para ressuscitar lázaros, para invadir casas de valentes, para declarar a vitória do Senhor sobre a morte, o mal, a doença, a velhice, a pobreza, a opressão e tudo o mais que, desavisado, atravessar o meu caminho.

Chega de pobreza! Chega de impotência diante da vida. Chega de empregos medíocres, de patrões medíocres. Chega de depressão, de filhos desanimados, de esposa rixosa e iracunda, de idosos ranzinzas e amargurados, de irmãos apáticos e interesseiros…

Este vai ser o ano da contrição, do joelho dobrado e do coração quebrantado. Vai ser o ano em que buscarei me despir de todos os “poderes” que penso ter e dos recursos que amealhei na vida, como a educação, o dinheiro, a esperteza, a influência, os amigos poderosos, o prestígio, o cargo público etc. Será o ano da mão estendida, que pede misericórdia, que se condói por si e pelos outros; da alma que chora e se assenta à mesa da comunhão para ser consolada.

Com o tempo, tomei as rédeas da vida nas mãos. Resolvi meu futuro com uma boa poupança, minha insegurança com um financiamento da Caixa e minha solidão com um cargo proeminente na igreja. Afastei os chatos com uma aparência de “muito ocupado” ou de indiferença. Livrei-me de culpas, contribuindo para instituições filantrópicas. Apoiei meus filhos e minha esposa, financiando-lhes um analista.

Mas eu quero outro tipo de poder. Quero poder para aprender quando admoestado. Quero um encontro sério com meus temores e fraquezas. Quero gente comum se metendo na minha vida; quero o último recurso do fraco: a oração.

Este ano serei menor. Se possível, o menor de todos. Vou voltar para casa, mesmo que isso me custe o emprego ou me prejudique nos negócios. Vou me encontrar com minha esposa e ficar muito tempo com ela e com os meus filhos. Vou redescobrir a alegria de ouvir os meus pais, até que se cansem de falar. E se houver outros pais os ouvirei também. Nesse tempo juntos, vamos renovar nossa aliança e retomar nossa amizade. Entre uma cambalhota e outra, vamos abrir a Palavra e lê-la juntos. Muito. Sobre ela, vamos falar de nós mesmos. De coisas íntimas e caras. De coisas sobre as quais já não falamos porque não interessam. Vamos nos confessar uns aos outros, abrindo-nos as vidas para que nelas entre luz do céu (eu pretendo chorar muito, já vou avisando). E vamos orar, contritos por não sermos o que nele poderíamos ser. Pediremos poder para matar esses gigantes.

Quero voltar para a minha igreja. Chega de proximidade de ano-luz. Já não quero essa armadura que vesti para tornar-me invulnerável ao ataque fraterno. Descobri que com ela fiz-me também impenetrável ao seu amor. Buscarei um retorno à amizade espiritual, com irmãos com quem possa abrir a minha alma. Sem medo de parecer menos homem por isso. Quero tempo para aqueles que riam à toa comigo e se alegrem na singeleza de um corinho ou de uma boa pizza com guaraná (celebrados por nós como pão e vinho). Com eles, quero voltar a pisar em terra santa: tirar as sandálias ao encontrar-me com Deus no espaço de corações hospitaleiros, sinceros e amorosos. Cantaremos juntos. Um cântico novo. Um canto de liberdade.

Senhor, este ano eu gostaria de ser “mais que vencedor”, um leão. Mesmo que, por olhos globalizados, eu seja visto como uma ovelha para o matadouro (Rm 8.36, 37).

Nota: Texto publicado originalmente na seção Ponto Final da edição 274 da revista Ultimato. 


Autor de, entre outros, Fábrica de Missionários, Louvor, Adoração e Liturgia, Meta-História, Icabode e Ponto Final, Rubem Martins Amorese é consultor legislativo (aposentado) no Senado Federal e presbítero emérito na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Foi professor na Faculdade Teológica Batista de Brasília (FTBB) por vinte anos e presidente do Diretório Regional – DF da Sociedade Bíblica do Brasil. Foi diretor de informática no Centro de Informática e Processamento de Dados do Senado Federal (Prodasen) e integrou a Comissão de Inquérito que desvendou a violação do painel eletrônico do Senado Federal.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Como reconciliar rupturas na família

Quando pensamos em uma reconciliação pressupomos que antes deva ter ocorrido uma ruptura relacional. E é dentro da família onde as rupturas são mais fáceis de acontecer, pois é o espaço onde a convivência é maior.

Filhos que se sentem injustiçados, cônjuges que se sentem colocados em um segundo plano, pais que se sentem desrespeitados, irmãos que entram em escalonamento de disputa pelo afeto parental, avós que querem interferir no sistema da família nuclear dos filhos, etc., são algumas coisas que promovem rupturas no seio da família.

>>> Acontece nas Melhores Famílias <<< 
Um exemplo nos evangelhos é a disputa entre as irmãs Marta e Maria quando recebem uma visita de Jesus (Lucas 10: 38-42). Haviam tarefas a serem realizadas, gente para ser alimentada, muita gente, e Marta trabalhava exaustivamente para dar conta, enquanto sua irmã, tranquilamente, sentava-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. Será que Maria não se dá conta da situação? Não, deduziu Marta: “Ela está é fazendo ‘corpo mole’ e eu aqui me matando de trabalhar”.

Sim, quando não entendemos o comportamento do outro sempre tendemos a encontrar uma explicação que seja plausível dentro de nossos esquemas mentais – na maioria das vezes culpabilizando o outro. Segundo Laura Holcroft, citando São Bento, afirma que “Marta havia perdido a alegria e estava ansiosa (...) porque só praticava a mortificação externa do trabalho e se esqueceu de ‘ruminar’ sem cessar a Palavra de Jesus. Maria, pelo contrário, ruminava na Palavra sem cessar... havia elegido a única coisa necessária”.

Na ansiedade e exaustão das tarefas (mortificação externa), Marta tem uma reação de ruptura relacional (queixa) em relação à sua irmã, Maria, e leva esta queixa a Jesus, que lhe indica o caminho da reconciliação. Como se Jesus lhe dissesse: “Marta, tarefas são importantes, mas te deixam ansiosa e tua ansiedade te faz perceber a atitude de tua irmã de uma forma limitada. Veja, ela escolheu algo que não se desorganizará com a chegada das próximas visitas, algo que ela poderá guardar como um tesouro que não acaba ao final da hospedagem. Talvez, Marta, você precise refletir mais e de forma menos ansiosa (mortificação interna) e verá que essa é a melhor parte”!

>>> Famílias em Crise <<<
O episódio nos indica algumas coisas importantes no processo de reconciliação dentro da família. Em primeiro lugar, devemos sempre nos perguntar se a mossa percepção é a única e possível explicação para o ocorrido ou se existem outras possibilidades de explicação que, em virtude de minhas emoções alteradas, eu resisto perceber. Na maioria das vezes, não enxergamos a realidade como ela é, mas sim como nós somos!

Se essa análise é muito difícil no momento de agito emocional, uma segunda iniciativa pode ser tentada, que é levar a sua percepção até Jesus e ouvir – com coração disponível – o que ele tem a nos dizer sobre nossa percepção. Talvez, como fez com Marta, ele nos revele que há coisas mais significativas que disputas por tarefas domésticas.

Em terceiro lugar, é preciso “buscar a melhor parte”, que é a leitura e meditação contínua na palavra de Deus. Então poderemos nos recordar que “no que depender de vós, tende paz com todos” (Romanos 12:18); e também que se meu irmão fez algo contra mim, devo buscar a reconciliação com ele, antes de buscar o culto a Deus (Mateus 5:23-25). Por fim, meditar também que Deus reconciliou consigo todas as coisas e nos torna “ministros de reconciliação” (II Cor. 5:18), ou seja, devemos ser as primícias de exemplo na busca de reconciliação, principalmente nas rupturas que ocorrem dentro de nossas famílias!

• Carlos “Catito”, psicólogo e terapeuta de casais e de família. É autor de Pais Santos, Filhos Nem Tanto.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O Cristo abstrato

"O Cristo abstrato até se assemelha com o Cristo da vida, pois tentar ser uma bela pintura de sua face, mas a verdade é que ainda continua sendo apenas um retrato, e no retrato não há vida, há saudades, mas não abraços, lembranças, mas não esperança, essas só encontramos no Cristo vivo."

Esta reflexão tem ocupado um grande espaço em minha construção teológica. Não tenho dúvidas quanto a nossa capacidade em teologizar no Brasil, entretanto, parece-me haver uma grande dificuldade do encontro entre o que teologizamos e a vida, não experimentamos a teologia que tanto advogamos, há um abismo entre teologia e vida. Não temos dificuldade para compreendermos a centralidade do Cristo, nossa teologia está muito afinada quanto a tudo isso, conseguimos sistematizar o Cristo em uma cristologia refinada, impecável, mas que nada é além de uma sistematização. Isso é muito bom, desde que não se submeta simplesmente a transmitir um objeto de análise, mas um Cristo vivo em nós também. O que mais me parece atualmente é que cada vez mais o Cristo tem se tornado um objeto abstrato, ou seja, existe um desenvolvimento intelectual em sua direção, mas o objeto da reflexão (o Cristo) está isolado de fatores que comumente são relacionados à realidade, concebemos a imagem mental do Cristo, mas não sabemos como viver nossa vida com Ele, como parte viva, então o reduzimos a rituais e formalidades.

A concepção da imagem do Cristo, não salva, não liberta e não transforma. O Cristo é para ser experimentado no cotidiano, entre o nascer e pôr do sol, entre uma respiração e outra, entre um oi e um tchau, entre o início e o fim da jornada de trabalho. É nessa perspectiva que o Cristo ganha forma em nós e crescemos em sua direção para que possamos nos tornar semelhantes a Ele. O Cristo abstrato até se assemelha com o Cristo da vida, pois tentar ser uma bela pintura de sua face, mas a verdade é que ainda continua sendo apenas um retrato, e no retrato não há vida, há saudades, mas não abraços, lembranças, mas não esperança, essas só encontramos no Cristo vivo. É Nele, que encontramos as respostas para os anseios de nossas almas. Mas o que fizemos Dele? O reduzimos a conceitos teológicos, reduzimos o seu poder salvífico a aceitarmos um apelo, o seu amor a meritocracia, à sua adoração em erguermos as nossas mãos, o seu culto a um momento, o reduzimos a uma teologia sistemática, nós o tornamos em um Cristo abstrato. Mas esse não é o Seu propósito e muito menos Seu lugar, a tinta vermelha das escrituras apontam para o centro da nossa vida, dos nossos corações, do nosso ser, esse é o Seu lugar, entronizado em nós, aonde talvez ainda não se tenha uma imagem perfeita Dele, mas há sua presença, amor e graça.

Que haja teologia, mas que haja vida no Cristo da teologia!


Sao Carlos - SP

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Meu Pai Me Ensinou a Como Morrer

Será que nos atreveríamos a pensar na morte como uma vocação? O autor de Eclesiastes fez esta declaração:


Tudo tem o seu tempo determinado, e há o tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer.” (Ec. 3.1, 2a) 

Da mesma forma, o escritor de Hebreus diz:

E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois, o juízo.” (Hb 9.27)

A Escritura fala da morte em termos de um “propósito debaixo do céu” e de “ordenamento”. A morte é um ordenamento divino. É parte do propósito de Deus em nossas vidas. Deus chama pessoas para morrer. Ele é soberano sobre tudo da vida, incluindo a experiência final de vida. 

Estou ciente de que há professores nos dizendo que Deus não tem nada a ver com a morte. A morte é vista estritamente como um dispositivo demoníaco do Diabo. Toda dor, doença, sofrimento e tragédia são atribuídos ao Maligno. Deus é absolvido de qualquer responsabilidade. Essa visão é formulada para se certificar de que Deus seja absolvido da culpa por qualquer coisa que dê errado neste mundo. “Deus sempre deseja curar”, nos é dito. Se essa cura não acontece, então a culpa recai sobre Satanás - ou a nós mesmos. A morte, eles dizem, não é o plano de Deus. Ela representa a vitória de Satanás sobre o Reino de Deus.

Tais visões podem trazer alívio temporário para o aflito. Mas elas não são verdadeiras. Elas não têm nada a ver com o cristianismo bíblico. Em um esforço para absolver Deus de qualquer culpa, eles fazem isso à custa da soberania de Deus.

Sim, existe um Diabo. Ele é o nosso arqui-inimigo. Ele fará qualquer coisa ao seu alcance para trazer miséria para as nossas vidas. Mas Satanás não é soberano. Satanás não guarda as chaves da morte. 

Quando Jesus apareceu em uma visão a João na ilha de Patmos, ele se identificou com estas palavras:

Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.” (Ap. 1.17, 18)

Jesus segura as chaves da morte. Satanás não pode apanhar essas chaves de suas mãos. O pulso de Cristo é firme. Ele segura as chaves, porque são propriedades dele. Toda a autoridade no céu e na terra foi dada a ele. Essa autoridade inclui toda a autoridade sobre a vida e toda a autoridade sobre a morte. O anjo da morte está à disposição e chamado dele. 

Acima de todo sofrimento e da morte está o Senhor crucificado e ressurreto. Ele derrotou o último inimigo da vida. Ele venceu o poder da morte. Ele nos chama para morrer, mas esse chamado é um chamado à obediência para a transição final da vida. Por causa de Cristo, a morte não é o final. É uma passagem de um mundo para o outro. 

Eu nunca esquecerei as últimas palavras que o meu pai disse para mim. Estávamos sentados juntos no sofá da sala. O seu corpo havia sido arruinado por três derrames. Um lado do seu rosto estava distorcido pela paralisia. Seu olho e lábio do lado esquerdo pendiam de maneira incontrolável. Ele falou comigo com uma pronúncia pesada. Suas palavras eram difíceis de entender, mas o seu significado estava muito claro. Ele proferiu estas palavras: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”.

Essas foram as últimas palavras que ele me falou. Horas mais tarde, ele sofreu a sua última hemorragia cerebral. Encontrei-o caído no chão, um fio de sangue escorrendo no canto da sua boca. Ele estava em coma. Misericordiosamente, ele morreu um dia e meio depois, sem recuperar a consciência. 

Enquanto as suas últimas palavras para mim foram heroicas, minhas últimas palavras para ele foram covardes. Eu protestei suas palavras premonitórias. Eu disse de forma rude: “Não diga isso, pai”. 

Há várias coisas que eu disse em minha vida que desejo desesperadamente que não tivesse dito. Nenhuma das minhas palavras é mais vergonhosa para mim do que essa. Mas as palavras não podem ser trazidas de volta, assim como uma flecha acelerando após a corda do arco ter vibrado em lançamento pleno. 

Minhas palavras foram repreensão a ele. Eu me recusei a lhe permitir a dignidade de um último testemunho para mim. Ele sabia que estava morrendo. Eu me recusei a aceitar o que ele já havia aceitado graciosamente. 

Eu tinha 17 anos. Não sabia nada sobre a morte. Não foi um ano muito bom. Eu vi meu pai morrer um pouco de cada vez durante um período de três anos. Eu nunca o vi reclamar. Nunca o ouvi protestar. Ele sentava na mesma cadeira dia após dia, semana após semana, ano após ano. Ele lia a Bíblia com uma lupa enorme. Eu estava cego para as ansiedades que deve tê-lo atormentado. Ele não podia trabalhar. Não havia renda nenhuma. Nenhum seguro por invalidez. Ele sentava lá, esperando morrer, observando as suas economias da vida esvaírem-se juntamente com a sua própria vida. 

Eu estava zangado com Deus. Meu pai não estava zangado com ninguém. Ele viveu os seus últimos dias fiel à sua vocação. Ele combateu o bom combate. Um bom combate é um combate travado sem hostilidade, sem amargura, sem autopiedade. Eu nunca havia estado em um combate assim. 

Quando meu pai morreu, eu não era cristão. A fé era algo além da minha experiência e além da minha compreensão. Quando ele disse, “guardei a fé”, não me dei conta do peso de suas palavras. Eu me fechei para elas. Eu não tinha ideia de que ele estava citando a última mensagem do apóstolo Paulo para o seu discípulo amado, Timóteo. O seu testemunho eloquente foi desperdiçado comigo naquele momento. Mas não agora. Agora eu compreendo. Agora eu quero perseverar como ele perseverou. Quero completar a carreira e terminar o percurso como ele fez antes de mim. Não tenho nenhum desejo de sofrer como ele sofreu. Mas quero guardar a fé como ele guardou. 

Se meu pai ensinou alguma coisa, foi a como morrer. Meu pai completou a carreira porque Deus o chamou a completa-la. Ele terminou o percurso porque Deus estava com ele ao passar por cada obstáculo. Ele guardou a fé porque a fé o guardou. 
***
Autor: R. C. Sproul

domingo, 17 de dezembro de 2017

Portas Abertas levará à ONU petição em favor dos cristãos perseguidos

Existe futuro para os cristãos no Oriente Médio? A resposta depende, em parte, das providências que as autoridades mundiais tomarão em relação à perseguição dos cristãos nessa região.

Para que as vozes dessas pessoas sejam ouvidas e seu futuro seja garantido, a organização Portas Abertas, junto com diversos parceiros, está colhendo assinaturas para uma petição que será apresentada ao secretário-geral das Nações Unidas, em dezembro deste ano. A petição é uma maneira prática de apoiar os cristãos na Síria e no Iraque, por isso está sendo levada a diferentes pessoas e organizações que têm influência sobre cada uma das recomendações da campanha.

Além de pedir a garantia da estrutura atual e futura da Síria e do Iraque, promoção e proteção dos direitos de igualdade e inalienabilidade de todos os cidadãos de maneira completa, independentemente de raça, religião ou status, a campanha solicita que seja assegurada a dignidade e contínuo progresso das condições de vida de todos os cidadãos, em especial aos refugiados e deslocados internos que estão retornando aos seus países – fornecendo a eles moradia adequada, educação e emprego; e que sejam identificados e equipados líderes e organizações cristãs para desempenhar um papel central na reconstrução das sociedades síria e iraquiana.

>>> Os cinquenta países onde é mais difícil ser cristão <<<
Uma iniciativa semelhante já foi realizada por Portas Abertas em 2013. Mais de 300 mil pessoas em todo o mundo assinaram a petição Apoie Síria, um apelo para que as Nações Unidas reconhecessem que os cristãos são uma minoria particularmente vulnerável dentro da crise síria. Graças à campanha, o sofrimento dos cristãos na Síria e no Iraque se tornou um assunto muito conhecido no mundo todo.

De acordo com a organização, campanhas como essas mostram que falar pelos cristãos perseguidos em ações institucionais podem fazer uma real diferença.

Para saber mais informações e assinar a petição, clique aqui:

sábado, 16 de dezembro de 2017

A Bíblia e a história do Natal


Para entendermos a história do Natal, precisamos voltar no tempo. Não voltar apenas alguns milhares de anos até o nascimento de Jesus, mas precisamos fazer todo caminho de volta, até os nossos primeiros pais, Adão e Eva. Deus os colocou no exuberante e perfeito jardim do Éden. Eles tinham tudo o que precisavam. Era perfeito. Então, eles pecaram. Como consequência, Deus os baniu. Agora, Adão e Eva viviam sob a maldição. Mas, enquanto Deus pronunciou a maldição, trovejando desde o céu, Ele também lhes deu uma promessa.
Deus deu a Adão e Eva a promessa de uma Semente, uma Semente que nasceria de uma mulher. Aquela Semente retificaria tudo o que estava errado. Ela tonaria íntegro tudo o que havia sido quebrado. Essa Semente traria paz e harmonia onde discórdia e conflitos assolavam como um mar agitado pela tempestade.
No Antigo Testamento, o terceiro capítulo do primeiro livro, Gênesis, fala sobre conflito e inimizade. Adão e Eva, que conheciam apenas a experiência da tranquilidade, agora estariam presos em conflito amargo. Até mesmo o solo se tornaria um desafio. O ser afligido pelos espinhos seria o lembrete constante. Como dizem os poetas: “a natureza é vermelha no dente e na garra”[1]. Mesmo a Semente prometida entraria nesse conflito, lutando contra a Serpente, o grande arruinador. Mas Gênesis 3 promete que a Semente venceria a Serpente, assegurando a vitória final e inaugurando a paz contínua.
A Semente, no entanto, demoraria a vir.
Adão e Eva tiveram Caim e Abel, e nenhum destes era a Semente. Quando Caim matou Abel, Deus deu Sete a Adão e Eva, um pouco de graça em um mundo muito atribulado. Mas Sete não era a Semente. Seguiram-se mais filhos. Gerações vieram e gerações passaram.
Depois, Abraão surgiu no palco do mundo. Deus chamou esse homem nos tempos antigos para fazer dele e de sua esposa, Sara, uma grande nova nação que seria um farol de luz para um mundo perdido e sem esperança. Novamente, Deus fez uma promessa a esse casal de uma Semente, um filho. Eles pensaram que era Isaque. Mas Isaque morreu.
Essa história repetiu-se de geração em geração, antecipando aquele que viria, o qual retificaria todas as coisas e traria a paz. Até uma viúva chamada Noemi e sua nora também viúva, Rute, entraram nessa história. Elas estavam em circunstâncias desesperadas. Não havia redes sociais para registrar o declínio de tais pessoas marginalizadas no mundo antigo.
Sem maridos e filhos, sem direitos e recursos, as viúvas viviam de refeição em refeição. Elas viviam por um fio de esperança. Então, veio Boaz e a história clássica do mocinho que encontra a mocinha. Boaz conheceu Rute e eles se casaram. Em pouco tempo, assim como a cortina caiu sobre a história bíblica de Rute, um filho, uma semente, nasceu para Rute. Esse filho seria um restaurador da vida, um redentor. Mas ele era apenas uma sombra da Semente por vir. Ele também morreu.
O filho nascido de Rute e Boaz recebeu o nome de Obede, que teve um filho chamado Jessé. Jessé teve muitos filhos, e um deles era pastor. Uma vez esse pastor pegou um punhado de pedras e derrubou um gigante. Ele enfrentou leões. Ele também era um músico. Para surpresa de todos, até mesmo de seu pai, esse filho de Jessé, bisneto de Rute e Boaz, foi ungido rei de Israel.
Enquanto Davi estava no trono, Deus deu outra promessa diretamente a ele. Esta era outra promessa sobre um filho. Deus disse que o filho de Davi seria rei para sempre e que o seu reino não teria fim. Essa era a promessa de Deus.

#1 Uma referência ao mundo natural às vezes violento, em que os animais predadores cobrem os dentes e as garras com o sangue da sua presa enquanto os matam e devoram. – N.T.
Por: Stephen Nichols. © Ligonier Ministries.Website: ligonier.org. Traduzido com permissão. Fonte: Tracing the Story of Christmas.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mulher, por que choras?

Ovelha, estamos no final de mais um ano e todas estamos com as forças extenuadas nesta época em que muitas atividades são finalizadas e os prazos são apertados e cobrados. Temos inúmeras comemorações e encontros extraordinários, o que acaba espremendo ainda mais o nosso já limitado tempo.
Esta semana, soube de alguém que realmente estava esgotada, ela não conseguia parar de chorar enquanto me falava de todo o esforço para realizar sua agenda dentro das datas previstas, mas, além disso, ela está realmente passando por um período de significativa dor na alma.
Após dez longos anos de relacionamento afetivo, ela finalmente se casou, e sabe o que precede um casamento sonhado, não sabe? Muitas decisões importantes, como, por exemplo, encontrar onde morar, solucionar tensões e pequenos desacordos, organizar a vida financeira que será conjunta, planejar novas aquisições e planos a dois para toda uma vida juntos, entre outras coisas. Mas não foi bem assim que aconteceu com essa amiga. Após um mês casados, ele, o marido, achou que aquilo, o casamento, não era para ele e partiu.
Partiu o coração dessa mulher em infinitos pedaços cor-de-rosa. Com sua alma verdadeiramente estilhaçada, seu coração sem forças para reagir, tudo o que ela tem feito é regado por lágrimas, e ela mal pode enxergar seu futuro enquanto se esforça por estancar o choro. A vida planejada e almejada naufragou.

O que fazemos com a dor?

É bem difícil caminhar junto com uma pessoa que está em meio à dor e ao sofrimento, o sentimento de impotência é real e gigantesco. Mas foi assim, em meio aos soluços, sem palavras para explicar ou para consolar aquela dor intensa, que segurei nas mãos desta amiga, olhei em seus olhos vermelhos e orei a Deus. Supliquei ao Senhor que nos dirigisse e que sua graça nos ensinasse aquilo de que precisávamos para sermos resgatadas do fundo escuro do poço da dor.
Eu não sei qual é a sua dor hoje. Pode ser que seus olhos estejam lendo estas linhas através das lágrimas que insistem em brotar de seu coração, mas se você ainda está aí insistindo em ler este texto, talvez isto seja para você.

Olhando firmemente para o autor e consumador de nossa fé, Jesus[1]

Quando o nosso Senhor nos revelou suas promessas, ele fez delas o farol iluminado que nos resgata nos naufrágios. Ler e orar as promessas de Deus nas escrituras nos asseguram que podemos naufragar nas grandes tempestades sem nos afogarmos na dor.
Muitas vezes, seremos levadas para locais turbulentos, onde não poderemos confiar em nossas próprias forças nem em nenhuma outra força humana, então restará apenas a força sobrenatural do Espírito Santo que nos sustentará. O Deus que sustenta o mundo com o poder de sua palavra[2] não será capaz de sustentar nossa alma em meio ao inferno da dor?
Nestes dias de escuridão e dor intensa, Deus está nos preparando, está nos moldando à imagem de Jesus Cristo, que sofreu por nós na cruz, derramou todo o seu sangue para que tivéssemos vida. Vida, ovelha, vida em abundância. Eu sei que quando a alma dói, a mente não consegue pensar com clareza e nosso corpo fica indolente, tudo adoece em nós. Quem nos consolará? Quem nos entenderá? Quem?
É necessário lembrar-se de que, em tempos de crise, Deus está conosco e a nossa dor não paralisa a vida do espírito em nós. Enquanto andamos no caminho, enquanto estamos vivendo o cotidiano da vida, Deus está operando transformações em nossa alma eterna, ele não para de trabalhar em nós. Transformações estão acontecendo em você por meio de seu sofrimento. Jesus conhece como sofremos porque ele mesmo sofreu nossas dores[3], ele também foi rejeitado, humilhado, envergonhado, passou pela dor e solidão, por isso veio como homem, para provar e conhecer nossas dores e tentações[4]. Jesus foi o primogênito entre os irmãos a entrar no céu e preparar lugar para nós.

Qual a dimensão da sua dor?

Eu não conheço o comprimento, a largura, a altura e a profundidade da sua dor, mas o Senhor conhece, ele tem um tempo determinado[5] para sua dor cessar, e há tempo para ser humilhado e para ser exaltado[6]. Em tudo isso Deus está cuidando de você.
O sofrimento vai fazer de você alguém que provou o poder de Deus, e essa experiência é única e pessoal, somente entre você e o seu Senhor. Provada e renovada, você será uma mulher capacitada a amar e a consolar com a autoridade de quem foi depurada pelo fogo.
Avante, ovelha!
Talvez o tempo de hoje seja o seu momento de entregar-se aos cuidados de Deus e esperar.
A dor vai acabar, ovelha, você apenas está sendo purificada pelas mãos do Ourives.
Salmo 30
Eu te exaltarei, ó SENHOR, porque tu me livraste e não permitiste que os meus inimigos se regozijassem contra mim. SENHOR, meu Deus, clamei a ti por socorro, e tu me saraste. SENHOR, da cova fizeste subir a minha alma; preservaste-me a vida para que não descesse à sepultura. Salmodiai ao SENHOR, vós que sois seus santos, e dai graças ao seu santo nome. Porque não passa de um momento a sua ira; o seu favor dura a vida inteira. Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã. Quanto a mim, dizia eu na minha prosperidade: jamais serei abalado. Tu, SENHOR, por teu favor fizeste permanecer forte a minha montanha; apenas voltaste o rosto, fiquei logo conturbado. Por ti, SENHOR, clamei, ao Senhor implorei. Que proveito obterás no meu sangue, quando baixo à cova? Louvar-te-á, porventura, o pó? Declarará ele a tua verdade? Ouve, SENHOR, e tem compaixão de mim; sê tu, SENHOR, o meu auxílio. Converteste o meu pranto em folguedos; tiraste o meu pano de saco e me cingiste de alegria, para que o meu espírito te cante louvores e não se cale. SENHOR, Deus meu, graças te darei para sempre.

Leituras que podem ajudar:
Deus é Soberano, de A. W. Pink, Editora Fiel
Se você não sabe quem Deus é não pode saber o que ele é capaz de fazer em sua vida, leia esse livro. Saber que Deus é soberano e, o tempo todo, governa todas as coisas vai fazer você descansar nos cuidados dele.
Bom Demais para Ser Verdade – Encontrando Esperança num Mundo de Ilusões, de Michael Horton, Editora Fiel
O autor nos mostra que temos que viver pela fé, crendo que as promessas de Deus para nós não falham e cooperam para nos transformar em verdadeiros cristãos.
Um Coração Inabalável – Experimentando o consolo de Deus nas tempestades da vida, de Elyse Fitzpatrick, Editora Fiel
Caminhando com Deus em Meio à Dor e ao Sofrimento, Timothy Keller, Vida Nova
Este livro responde a quatro perguntas sobre sofrimento. Keller tem um olhar distinto que surpreende e encanta o leitor.

[1] Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia. Hebreus 12.2
[2] Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder. Hebreus 1.3
[3] Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Isaías 53.3-4
[4] Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados. Hebreus 2.17-18
[5] Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. Eclesiastes 3.1-8
[6] Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. 1 Pedro 5.6-7

Por: Renata Gandolfo. © Voltemos Ao Evangelho. Website: VoltemosAoeEangelho.com. Todos os direitos reservados. Revisor: Renata Cavalcanti. Original: Mulher, por que choras?

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

As bases bíblicas dos direitos humanos

Os cristãos têm algo de diferente a acrescentar ao debate?

É importante que os cristãos se perguntem se eles têm algo de diferente a acrescentar a esse debate. Alguns cristãos negam todo o conceito dos direitos humanos, crendo que nós temos apenas responsabilidades e deveres referentes uns aos outros. Outros estão preocupados com o fato de o conceito de os direitos humanos estar se tornando tão dominante que as responsabilidades humanas estão diminuindo. Outros ainda acreditam que a ideia atual de direitos humanos contém, dentro de sim, um componente cristão essencial que é dever da igreja preservar, bem como a missão de propagar. Para avaliar essa discussão, precisamos fazer algumas perguntas fundamentais. De onde vêm os direitos humanos? Do que eles consistem? Se os cristãos têm algo diferente para contribuir com ele, o que é?
Será bom começar a dar as nossas respostas com Thomas Paine. Embora ele seja deísta, e, portanto, longe de ser um cristão ortodoxo, seu pai era quacre, e sua mãe, anglicana, de modo que ele teve suficiente instrução cristã para saber que os direitos do homem remontam à criação do homem. Ele escreveu em 1791:
O erro daqueles que raciocinam por meio de precedentes tirados da antiguidade, com respeito aos direitos do homem, é que eles não vão longe o bastante. Eles não fazem todo o caminho. Param em algum dos estágios intermediários de cem ou mil anos […] Porém, se continuarmos, devemos chegar ao lugar certo; chegaremos ao tempo em que o homem veio da mão do seu Criador. O que ele era na época? Homem. Homem era o seu elevado e único título e um maior não lhe pode ser dado.

A origem dos direitos humanos Thomas Paine está certo. A origem dos direitos humanos é a criação. Os seres humanos nunca os “adquiriram”, nem algum governo ou outra autoridade os conferiu. Nós os temos desde o princípio. Nós os recebemos junto com nossa vida da mão do nosso Criador. Eles são inerentes à nossa criação. Eles foram concedidos a nós por aquele nos fez.
Esse é um princípio importante a ser compreendido, pois a cosmovisão relativista e secular da nossa era pós-moderna ameaça deixar a tradicional comunidade dos direitos humanos com pouca base em seu apoio aos direitos humanos. Gary Haugen, ex-diretor das Nações Unidas para investigação do genocídio em Ruanda e que já foi presidente da International Justice Mission [Missão Justiça Internacional], resume o problema dizendo que o movimento dos direitos humanos está enraizado na cosmovisão judeu-cristã e em seu compromisso com os absolutos éticos. Com a chegada do pós-modernismo e do relativismo cultural, esse compromisso está à deriva. Ele comenta:

Desde a Segunda Guerra Mundial, a tradicional comunidade dos direitos humanos assumiu uma corajosa plataforma pela justiça devido a uma intuição moral ardente que está alicerçada, conscientemente ou não, no compromisso judeu-cristão com os absolutos éticos. Os ativistas dos direitos humanos dos anos 1990, contudo, são os filhos de uma filosofia secular de relativismo moral, multiculturalismo e pluralismo radical. Consequentemente, quando a pressão estiver para explodir no novo mundo desordenado do próximo século, o movimento dos direitos humanos internacional pode achar cada vez mais difícil continuar a navegar sem uma bússola moral, para evitar a confusão moral ou para evitar ser capturado pela moda política da época.
Michael Ignatieff, professor Carr de Direitos Humanos na Universidade de Harvard, concorda com isso: “Os direitos humanos têm se tornado o principal artigo de fé de uma cultura secular que teme não crer em nada mais. Eles se tornaram a língua franca do pensamento atual, como o inglês se tornou a língua franca da economia global”.
A preocupação de Ignatieff é que, na ausência de absolutos morais, os direitos humanos possam se tornar um tipo de religião secular, a estrutura de referência última para os problemas morais na esfera global. No início de um artigo sobre direitos humanos como idolatria, ele comenta:
Devo argumentar que os direitos humanos são mal interpretados, se forem vistos como uma religião secular. Eles não são um credo; não são metafísica. Transformá-los nisso é torná-los uma espécie de idolatria: o humanismo cultuando a si mesmo. Elevar as alegações morais e metafísicas feitas em favor dos direitos humanos pode ter a intenção de aumentar seu apelo universal. De fato, isso resulta no efeito contrário, gerando dúvidas entre grupos religiosos e não ocidentais, os quais não estão precisando de credos seculares ocidentais.
Assim, aquelas pessoas que têm uma fé religiosa procurarão em seus ensinos religiosos fundamentais os pontos de vista sobre os direitos humanos, sejam esses ensinos encontrados no Corão ou na Bíblia, por exemplo. Essa é uma das razões pelas quais os muçulmanos têm tido, às vezes, problemas com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Para alguns deles, não há nada universal na linguagem da Declaração. Ela está enraizada na linguagem e na filosofia do Ocidente, e sua ênfase no individualismo e na autonomia humana. Realmente, quando a Declaração Universal estava sendo preparada, em 1947, a delegação da Arábia Saudita levantou uma objeção em particular ao artigo 16 sobre escolha livre de casamento e ao artigo 18, relativo à liberdade de religião. Esse tipo de crítica ainda é encontrado de vez em quando na relação entre o islamismo e os direitos humanos ocidentais.
Desejar ser protegido de abusos ou ter acesso a socorro legal ou à instrução não implica que você necessite se tornar ocidental no seu modo de se vestir, na sua maneira de falar ou na sua atitude. Michael Igniatieff diz a esse respeito:
As mulheres em Kabul que procuram os escritórios ocidentais de direitos humanos em busca de proteção contra as milícias do Taliban não querem deixar de ser mães e esposas muçulmanas; elas querem associar o respeito às suas tradições com instrução e cuidados médicos profissionais proporcionados por uma mulher. Elas esperam que essas organizações as livrem de serem espancadas e perseguidas por reivindicar tais direitos.

Uma linguagem moral e uma linguagem política

É importante, então, sermos interculturais na nossa discussão dos direitos humanos. Por um lado, não podemos sucumbir ao relativismo cultural que pode permitir a uma nação fugir dos seus compromissos relativos aos direitos humanos sob a alegação de ter uma cultura diferente. Mas, por outro lado, não podemos impor os valores da nossa própria cultura ocidental ao restante do mundo. O que o Ocidente pensa como universal, o restante do mundo pode pensar como ocidental e pode se sentir muito livre para criticar.
A linguagem dos direitos humanos é uma linguagem moral no sentido de ser uma tentativa de descrever o certo e o bom. Mas também é uma linguagem política. Apelar para os direitos humanos não põe fim a uma discussão. Na maioria das vezes, dá início a uma. Os direitos humanos não representam um trunfo moral. Além dos direitos humanos, há a necessidade de alguma estrutura moral da qual eles possam tirar sua autoridade e que forneça seu fundamento. Sem essa estrutura, eles existem num vácuo moral e correm o risco de se tornarem autorreferentes.
A natureza dos direitos humanos depende do nosso conceito do que significa ser humano. Por que as pessoas não devem ser torturadas? Por que nos preocupamos em que as pessoas sejam alimentadas e instruídas? O que há de especial em sermos humanos que exige a nossa atenção sempre que vemos outros vivendo em sofrimento? Porém, no século 21, os direitos humanos não apenas são colocados em destaque quando pessoas são ameaçadas ou lhes são negados os meios de vida com uma qualidade adequada. Eles devem ser entendidos essencialmente quando nos propomos a criar a vida humana. Por essa razão, os direitos humanos também estão no centro dos debates sobre clonagem e engenharia genética. Uma vez que a Bíblia focaliza no propósito divino para os seres humanos, ela tem muito a dizer sobre esse tema. Três palavras parecem resumir o que ela tem a dizer: “dignidade”, “igualdade” e “responsabilidade”.
• Trecho retirado do livro Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos (Editora Ultimato).

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Lembretes para o cotidiano

“Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial, e a todas chama pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão imensa a sua força, que nenhuma delas deixa de comparecer!”
(Is 40.25-26)

Deus nos convoca para algo que, com freqüência, cai no esquecimento: “Ergam os olhos e olhem”. O que temos visto? Dependendo de onde moramos, podemos dizer que só vemos poluição, trânsito congestionado, violência e injustiça.

Olhar como resposta a um convite divino pode nos dar perspectivas mais sensíveis e se desdobrar em relações e posturas diferenciadas. Mesmo quando ao redor há destruição, prova de nosso descuido, conseqüência de nosso egoísmo, podemos melhor nos conscientizar sobre as mortes que o pecado gera. Podemos nos voltar a Deus humildemente, saboreando sua graça, a redenção em Jesus, e nos inspirar a criar com espontaneidade, com formosura e com a alegria de quem tudo começou -- o Criador.

Nem sempre separamos tempo para contemplar a criação, para nos tornar verdadeiros adoradores. E, quando não adoramos o Criador, acabamos por adorar falsos ídolos.

Eugene Peterson, em seu livro “A Maldição do Cristo Genérico”, nos alerta: “Nada nessa criação existe meramente para ser estudado, analisado, entendido; cada elemento, a ‘obra’ de cada dia, existe, antes de tudo, para ser recebida como uma ‘nota’ integrante e coerente dos ritmos totalmente abrangentes do oratório da criação, na qual respiramos o mesmo ar que Deus soprou sobre o abismo; e, do mais profundo de nossos pulmões -- nossa vida --, cantamos e dançamos para a glória de Deus”.

Parece que nos tornamos mais técnicos que celebrantes. Acumulamos informações, discutimos acadêmica ou teologicamente, mas talvez o comentário de Jesus para nós não seria diferente daquele dirigido aos samaritanos: “Vocês adoram o que não conhecem” (Jo 4.22). Em nosso dia-a-dia, vivemos como seres fragmentados, continuamos a pregar Jesus na cruz (com os pregos da nossa ignorância), sem desfrutarmos do significado de sua morte e ressurreição -- uma vida nova, livre e abundante, cuja inteireza cativa outros. Como diz Franky Schaeffer, em “Viciados em Mediocridade”: “Na maior parte do tempo os cristãos vivem na tensão entre suas atividades espirituais e o resto da sua vida. Entretanto, o cristianismo deveria ser uma experiência libertadora que abre nosso entendimento para apreciar mais do mundo de Deus. Somos aqueles que foram libertos para ver o mundo como realmente é, desfrutando e nos divertindo com a diversidade e a beleza da criação”.

A campanha do vencedor das eleições americanas, Barack Obama, teve como “slogan” principal: “Sim, nós podemos”. Será que podemos viver um ano novo no novo ano? Podemos, efetivamente, fazer diferente? Toda boa mudança, toda diferença geradora de vida só pode ser realizada a partir de Deus. Ele nos muda, para que possamos agir de maneira diferente. Tudo vem do Pai das luzes (Tg 1.17). Nele podemos viver um dia de cada vez, com reverência à vida.

Se Deus é pessoal até com as estrelas, que ele chama pelo nome, quanto mais conosco! Saibamos, pois, ouvir sua voz, que é cheia de majestade, faz dar cria às corças e desnuda os bosques (Sl 29.4, 9). Que o Espírito de Deus nos ajude a parar, contemplar, adorar e proclamar as maravilhas do Criador, cuidando da criação, cultivando espaços de silêncio e reflexão.


Tais Machado, paulistana, é psicóloga clínica e professora em seminários teológicos. É secretária nacional de capacitação da Aliança Bíblica Universitária do Brasil.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Ódio, zombaria e perseguição!

Através de uma das redes sociais, recebi um vídeo que narra uma estorinha interessante: - um vagalume sendo sempre perseguido por uma serpente; em uma dessas situações, ele para e diz para a cobra: "Senhora serpente posso lhe fazer três perguntas? Depois pode me devorar à vontade!"; diante da anuência da perseguidora, perguntou ele:

1 – Por acaso, senhora cobra, eu faço parte da sua cadeia alimentar?" e ela respondeu "não";

2 – "então, senhora serpente, diga-me, já lhe fiz alguma maldade?" e ouviu o segundo "não";

3 – perguntou ele, finalmente, "por que, então, a senhora me persegue?" e ouviu dela: "porque você brilha!"

Isso me remete a uma afirmação do Senhor Jesus a nosso [seus seguidores] respeito: "VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO" (Mt. 5 14); todavia ele não nos deu um atestado de imunidade contra problemas e deixou isso claro:

"No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo" (Jo. 16 33).

Quanta aflição passou aquele vagalume! Mas, ele, embora não humano e nem cristão, teve bom ânimo ao enfrentar a sua perseguidora.

Voltando à "estorinha do vagalume" complementou o narrador: "Se estão lhe perseguindo, se estão falando de você, se estão lhe criticando é porque você está no caminho certo, é porque você está brilhando, é porque você é uma pessoa de Deus; então não ligue porque o bem sempre vence o mal; nunca se esqueça disso: o bem sempre vence o mal."

O Senhor Jesus disse isso aos seus discípulos: "Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo" (Mt. 10 22). Ele, também, nos falou, no Sermão do Monte, uma palavra abençoadora:

"Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós" (Mt. 5 10-12).

Em seguida o Senhor Jesus disse: "Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (v. 44) – sempre que cito este versículo, eu comento que "pela graça de Deus eu não tenho inimigos e nem perseguidores."

Mas, nem por isso eu devo deixar de amar ao próximo, pois o Mestre Jesus ensinou: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento.

O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas" (Mt. 22 37-40).

Ainda a respeito do amor ao próximo diz-nos a Palavra de Deus: "Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão [ao próximo] a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão" (1 Jo 4 20-21).

É considerado, por nós cristãos, o "versículo chave" da Palavra de Deus o seguinte dizer do Senhor Jesus: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo. 3 16).

Eu encontro, na primeira carta de João, a palavra gêmea deste texto: "Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos" (1 Jo. 3 16).

Assim, devemos prosseguir em nossa jornada de fé, no cumprimento da missão do "IDE fazer discípulos, ensinando-os a guardar todas as coisas que o Senhor Jesus ordenou" (Mt. 28 19-20); "pregando o evangelho a toda criatura" (Mc 16 15), e sendo "testemunhas de Cristo até aos confins do mundo" (At. 1 8).

Temos que fazer assim, sem a preocupação com o julgamento que o mundo faz dos nossos atos, ou com a sua indiferença; sem querer, também, pagar a crítica, a zombaria, o ódio e a perseguição com a mesma moeda.

O apóstolo Pedro e os demais Apóstolos, em seu julgamento, perante o Sinédrio, porque ensinavam sobre o Senhor Jesus, e foram proibidos, afirmaram: "Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens" (At. 5 29).

Temos que agir, visando a salvação do próximo, conforme o Apóstolo Paulo recomendou a seu discípulo Timóteo:

"Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, QUER SEJA OPORTUNO, QUER NÃO, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina" (2 Tm. 4 1-2).

– [outra versão, a "Tradução Revista e Corrigida", diz "A TEMPO E FORA DE TEMPO."]

Pense nisto!

São Paulo - SP

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