NOSSA MISSÃO: “Anunciar o Evangelho do Senhor Jesus à todos, transformando-os em soldados de Cristo, através de Sua Palavra.”

Versículo do Dia

Versículo do Dia Por Gospel+ - Biblia Online

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Como uma mãe cristã deve orar com os seus filhos descrentes

Muito da rotina diária de uma mãe passa despercebido. Os filhos, especialmente quando são mais jovens, são bastante ingratos e negligenciam muito do que as mães fazem, o que pode ser um grande desencorajamento para as mães. Esse desânimo aumenta na medida em que as mães se encontram sobrecarregadas pelas almas de seus filhos e veem pouquíssimo fruto espiritual a partir de seus esforços.
Aqui está uma palavra de encorajamento para todas as mães cristãs para que prossigam em suas tarefas diárias de serviço às suas famílias; para que permaneçam firmes nas disciplinas espirituais com seus filhos que parecem ter pouco efeito. Essa palavra de encorajamento vem do grande Charles Spurgeon, quando ele reflete sobre o impacto que a sua mãe dedicada à oração teve sobre ele enquanto era um menino não-convertido:
Nas noites de Domingo, enquanto ainda éramos crianças pequenas, era o costume dela ficar em casa conosco. Então, sentávamo-nos ao redor da mesa, líamos versículo a versículo e ela nos explicava as Escrituras… Depois, havia uma oração de mãe, e nunca nos esqueceremos de algumas das palavras daquela oração, mesmo quando o nosso cabelo estiver grisalho. Lembro-me, em uma ocasião, de ela orar assim: “Agora, Senhor, se meus filhos continuarem em seus pecados, não será por ignorância que eles perecem, e minha alma dará um testemunho rápido contra eles no dia do juízo, se eles não se apegarem a Cristo”. Aquele pensamento de minha mãe testemunhar contra mim atingiu a minha consciência e comoveu o meu coração.
Mães, espero que vocês sejam regularmente encorajadas e honradas pelos seus maridos e filhos, pois há muito a ser honrado pelo modo como vocês se sacrificam e cuidam de suas famílias. Contudo, vocês podem não se sentir honradas como queriam. Vocês podem não estar vendo o fruto espiritual que desejam em seus filhos. Tomem essas palavras poderosas de Spurgeon e prossigam nas tarefas diante de vocês nesta semana. Orem por seus filhos. Orem com os seus filhos. Orem de tal forma que comuniquem o seu amor incondicional e a sua aceitação, mas não escondam a preocupação pelas almas deles, que vocês ainda podem sentir se eles estão longe de Cristo. Vocês nunca sabem o quanto as suas palavras de clamor a Deus pela salvação das suas almas podem impactá-los nos próximos anos.
Citação mais recentemente encontrada em The Brokenhearted Evangelist [O Evangelista de Coração Quebrantado], escrito por meu querido amigo, Jeremy Walker.

Brian Croft é o pastor efetivo da Auburndale Baptist Church em Louisville, Kentucky. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

O nascimento virginal de Cristo

Juntamente com o grande teólogo e filósofo Anselmo da Cantuária, fazemos a pergunta Cur deus homo? Por que o Deus-homem? Quando olhamos para a resposta bíblica a essa pergunta, vemos que o propósito por trás da encarnação de Cristo é cumprir a sua obra como o Mediador designado por Deus. É dito em 1 Timóteo 2.5: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu…”. Agora, a Bíblia fala sobre muitos mediadores com um “m” pequeno ou minúsculo. Um mediador é um agente que se interpõe entre duas partes que estão distantes e necessitam de reconciliação. Mas quando Paulo escreve a Timóteo sobre um Mediador solitário, um Mediador único, com um “M” maiúsculo, ele está se referindo a esse Mediador que é o intercessor supremo entre Deus e a humanidade caída. Este Mediador, Jesus Cristo, é de fato o Deus-homem.
Nos primeiros séculos da Igreja, com o ofício de mediador e o ministério da reconciliação em vista, a igreja precisou lidar com movimentos heréticos que perturbariam o equilíbrio desse caráter mediador de Cristo. Nosso único Mediador, que permanece como um agente para reconciliar Deus e o homem, é aquele que participa tanto na divindade como na humanidade. No Evangelho de João, lemos que foi o eterno Logos, o Verbo, que se fez carne e habitou entre nós. Foi a segunda pessoa da Trindade que tomou sobre si uma natureza humana para operar a nossa redenção. No século V, no Concílio de Calcedônia, em 451, a igreja precisou lutar contra um ensino estranho chamado de heresia monofisita. O termo monofisita é derivado do prefixo mono, que significa “um”, e da raiz phusis, que significa “natureza” ou “essência”. O herético Êutico ensinou que Cristo, na encarnação, tinha uma única natureza, que ele chamou de “natureza teantrópica”. Essa natureza teantrópica (que combina a palavra theos, que significa “Deus”, e anthropos, que significa “homem”) nos dá um Salvador que é um híbrido, mas sob cuidadoso exame seria visto como aquele que não era Deus nem homem. A heresia monofisita obscureceu a distinção entre Deus e o homem, dando-nos uma humanidade deificada ou uma deidade humanizada. Foi contra o pano de fundo dessa heresia que o Credo de Calcedônia insistiu que Cristo possui duas naturezas distintas: divina e humana. Ele é vere homo (verdadeiramente humano) e vere Deus (verdadeiramente divino, ou verdadeiramente Deus). Essas duas naturezas estão unidas no mistério da encarnação, mas é importante de acordo com a ortodoxia cristã que entendamos que a natureza divina de Cristo é plenamente Deus e a natureza humana é plenamente humana. Assim, essa pessoa que tinha duas naturezas, divina e humana, era perfeitamente adequada para ser nosso Mediador entre Deus e os homens. Um concílio anterior da igreja, o Concílio de Nicea em 325, declarou que Cristo veio “para nós homens e para a nossa salvação”. Ou seja, a sua missão era preencher a lacuna que existia entre Deus e a humanidade.
É importante observar que, para Cristo ser nosso Mediador perfeito, a encarnação não foi uma união entre Deus e um anjo, ou entre Deus e uma criatura inferior como um elefante ou um chimpanzé. A reconciliação necessária era entre Deus e os seres humanos. Em seu papel como Mediador e o Deus-homem, Jesus assumiu o ofício de segundo Adão, ou o que a Bíblia chama de último Adão. Ele entrou em uma solidariedade corporativa com a nossa humanidade, sendo um representante como Adão em sua representação. Paulo, por exemplo, em sua carta aos Romanos faz um contraste entre o Adão original e Jesus como o segundo Adão. Em Romanos 5, versículo 15, ele diz: “…porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos”. Aqui observamos o contraste entre a tragédia que veio sobre a raça humana por causa da desobediência do Adão original e a glória que vem aos crentes por causa da obediência de Cristo. Paulo continua a dizer no versículo 19: “Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”. Adão tinha a função de mediador, e ele falhou miseravelmente em sua tarefa. Esse fracasso foi corrigido pelo sucesso perfeito de Cristo, o Deus-homem. Lemos depois, na carta de Paulo aos Coríntios, estas palavras: “Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual. O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial” (1Cor 15.45-49).
Vemos então o propósito do primeiro advento de Cristo. O Logos tomou sobre si uma natureza humana, o Vebo se fez carne para realizar a nossa redenção cumprindo o papel de perfeito Mediador entre Deus e o homem. O novo Adão é nosso campeão, nosso representante, que satisfaz as exigências da lei de Deus e obtém para nós a bênção que Deus prometeu às suas criaturas se obedecêssemos a sua lei. Como Adão, não conseguimos obedecer à lei, mas o novo Adão, nosso Mediador, cumpriu perfeitamente a lei por nós e obteve para nós a coroa da redenção. Esse é o fundamento para a alegria do Natal.


Por: R.C. Sproul. © Ligonier Ministries. Website: ligonier.org. Traduzido com permissão. Fonte: Born of the Virgin Mary.
Original: O nascimento virginal de Cristo. © Ministério Fiel. Website: MinisterioFiel.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Camila Rebeca Teixeira. Revisão: William Teixeira.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Quais são 10 recursos práticos ao fazer visita em um hospital?

Ontem, eu dei uma aula no Seminário Teológico Batista do Sul sobre visitação hospitalar. Lembrei-lhes como a visita pastoral se tornou uma arte perdida na geração mais jovem de pastores e que o medo está entre as muitas razões para a negligência desse ministério. A visita pastoral, especialmente nos hospitais, aumenta esse medo ainda mais. Há o temor de ser exposto à doença. Há o temor de “O que dizer? O que fazer? Como fazer? E se eu ver algo que me faz desmaiar?”. Se esse for você, permita que estes 10 recursos práticos o capacitem para essa tarefa e ajudem a minimizar qualquer medo que possa ter afastado você dessa tarefa tão nobre e importante.
1) Faça perguntas. Antes de ir, prepare as perguntas que deseja fazer. Faça perguntas que o informem sobre a doença e o tratamento deles e que possam levar a conversas mais espirituais.
2) Leia as Escrituras. Quando você não sabe o que dizer ou fazer, é sempre bom e útil pegar a sua Bíblia e ler as Escrituras. Certifique-se de levar uma para o hospital com você.
3) Ore o evangelho. Quando o evangelho é orado, o evangelho é ouvido. Esta é sempre uma boa maneira de orar tanto pelo crente como pelo descrente no quarto. Deus, Homem, Cristo, Resposta.
4) Declare o caráter e as promessas de Deus. Primeiramente, declare quem Deus é para os doentes, e depois lhes anuncie as promessas desse Deus.
5) Confie no plano de Deus. Deus trabalhará quando você sair em fé e ir. Deus trabalhará em você e através de você e lhe dará as palavras a serem ditas no momento certo.
6) Deixe um recado. Se você não conseguir ver as pessoas que foi visitar, deixe um recado para elas. Isso lhes permite saber que você veio e fornece algo para encorajá-los muito tempo depois que você se for.
7) Ouça bem. Resista à tentação de resolver problemas. Simpatize, não racionalize. Apenas ouça, não resolva.
8) Toque com discernimento. O toque físico pode ser uma forma muito eficaz de quebrar as barreiras da insegurança que o paciente sente, mas faça-o sábia e adequadamente.
9) Olhe-os nos olhos. Um bom contato visual comunica interesse, cuidado e um espírito confortável, algo que uma pessoa doente precisa sentir de seu visitante.
10) Prepare o seu coração. Prepare-se para o que você pode experimentar e que esteja indo por amor e não pelo dever. Pessoas doentes no hospital têm muita intuição sobre se você realmente deseja estar lá, ou não.

Para leitura adicional: Visite o Doente.
Por: Brian Croft. © Practical Shepherding, Inc. Website: practicalshepherding.com. Traduzido com permissão. Fonte: What are 10 practical tools to hospital visitation?

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Superstições: amuletos trazem sorte?

Quando eu era Coordenador Geral de Inspeções [Brasil e Exterior], do Banco Real, um colega me procurou e disse: "Quando você for enviar sua equipe para auditar as Unidades nos Estados Unidos, por favor, peça a um deles para me trazer uma nota [cédula] de dois dólares americanos para que eu sempre a tenha, como amuleto, na carteira, pois ‘chama’ mais dinheiro, muito dinheiro!"

Pensei com os meus botões: "se isso não passasse de superstição, mera crendice popular, não haveria pobres no mundo, sequer classe média, pois pouco custa andar com uma cédula, de pequeno valor, a mais no bolso".

Nesta semana, recebi, por uma rede social, de três pessoas diferentes, uma borboleta azul com os dizeres: "Diz a lenda que se você enviar uma borboleta para os amigos tudo de bom ‘volta’ em dobro. Aceite, é de coração" (sic). Dei boas risadas [em dobro].

Tive asma dos dois aos vinte e um anos e fui vítima de várias "simpatias" que as "comadres" receitavam; uma vez, lembro-me, cortaram as minhas unhas, colocaram em um saquinho de pano, furaram um buraco no tronco de uma frondosa árvore, após medirem a minha altura; colocaram o embrulhinho lá, fecharam-no com a própria lasca que fora tirada antes: "quando eu passasse daquela altura, ficaria curado" (sic) – por muitos anos eu dava boas risadas, logo após às crises asmáticas, e dizia: "por certo, eu ainda não cresci!"

Nós, cinco irmãos, e toda a criançada da vila na qual morávamos, tivemos caxumba na mesma semana; vizinhas chamaram uma "benzedeira" que, com agulha e linha, cosia um pequeno saquinho de pano branco [igual ao das unhas] e dizia: "O quê que eu corto?", e as crianças tinham que responder: "caxumba" – na minha vez, eu dei uma risada e respondi "macumba" e saí correndo para brincar.

Todos nós ficamos curados, no tempo certo da doença, inclusive eu que, desde a primeira infância, não gostava dessas crendices populares; na época eu não sabia, hoje sei, que "é Deus quem sara todas as nossas enfermidades" (Sl. 103 3).

A Palavra de Deus nos afirma, nos dá segurança, e nos alerta, pela pena do Apóstolo Paulo:

"Ora, o Espírito [Santo] diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos (...) Se você transmitir essas instruções aos irmãos, será um bom ministro de Cristo Jesus, nutrido com as verdades da fé e da boa doutrina que tem seguido. Rejeite, porém, as fábulas profanas e tolas, e exercite-se na piedade" (1 Tm. 4 1-2, 6-7).

Diz, ainda, a Escritura Sagrada: "Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina [como hoje]; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os MITOS (1 Tm. 4 3-4).

O mundo atual prefere viver no "engano", nas superstições, nas "simpatias", na fé em objetos de pau, de gesso, de pedra, de bronze, etc., e a Palavra de Deus é clara sobre isso:

"Os ídolos deles, de prata e ouro, são feitos por mãos humanas. Têm boca, mas não podem falar, olhos, mas não podem ver; têm ouvidos, mas não podem apalpar, pés, mas não podem andar; e não emitem som algum com a garganta. Tornem-se como eles aqueles que os fazem e todos os que neles confiam" (Sl. 115 11).

É abominação, é afronta a Deus depositar a fé na matéria, nas lendas, nas fábulas, nas superstições, nas "simpatias", quando Ele já fez, para nós, TUDO o que é necessário para a vida, para a salvação, para a cura, para a libertação, para uma vida digna diante d’Ele e da humanidade.

Ele ENTREGOU o seu Filho unigênito [sem pecado algum] para DAR a sua própria vida em nosso lugar – os pecadores, os injustos, os incréus somos nós [e eu sei que sou o pior], mas foi ELE e tão somente Ele quem morreu e ressuscitou para que a humanidade só receba o bem, o consolo, o conforto, a salvação, a misericórdia, que "se renova toda manhã", conforme diz a Bíblia:

"Lembro-me da minha aflição e do meu delírio, da minha amargura e do meu pesar. Lembro-me bem disso tudo, e a minha alma desfalece dentro de mim. Todavia, lembro-me também do que me pode dar esperança: graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se a cada manhã; grande é a sua fidelidade" (Lm. 3 19-23).

Se o Senhor Jesus já deu a sua vida por nós para quê [e por quê} recorrer a crendices populares, sem fundamento?

Em assim fazendo anulamos o que já recebemos [a salvação pela graça, mediante a fé em Cristo]; crucificamos o Senhor Jesus, novamente, a cada ato [esotérico] como esses (Hb. 6 4-6).

Pense nisto!


São Paulo - SP

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Cruz, sofrimento e espiritualidade

“...Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios.” (1Co 1.23).

Vivemos numa sociedade que abomina a realidade do sofrimento. Por todos os meios tenta negar a sua existência. Muitos são os meios empregados, desde a alienação das drogas lícitas e ilícitas, às técnicas psicológicas e às indústrias do cosmético e entretenimento. Também religiões tradicionais falam do absurdo do sofrimento como uma contradição da existência humana em face de seu propósito em ser feliz.

A cultura contemporânea acusa o Cristianismo de ter glorificado o sofrimento, dizem que não faz bem para a alma ser confrontada, por meio da cruz, com os lados desagradáveis da vida. Por isso, infelizmente, no contexto cristão, ou pelo menos, que se faz passar por cristão, não poucas expressões eclesiásticas também anatematizam o sofrimento e a imagem da cruz. Reputam o sofrimento sempre como uma ação demoníaca, ou na maioria das vezes, oprimem os fieis reputando à falta de fé e de obediência à Deus o sofrimento experimentado. Claro, os demônios tem poder limitado e limitada liberdade para impingir certos tipos de sofrimentos. A incredulidade e a desobediência também trazem consigo os sofrimentos que lhes são próprios. Mas, o fato é que, o sofrimento faz parte da contingência humana.

Todos seremos acometidos pelo “absurdo” do sofrimento, da contradição unilateral dos elementos desta existência que escapam à nossa vontade ou controle. Se o sofrimento fosse apenas uma simples questão de falta de fé ou desobediência, o que teríamos a dizer de Paulo, Estêvão, Pedro e todos os mártires que regaram o chão da Igreja com o seu sangue?

Precisamos redescobrir a espiritualidade da cruz como linguagem para entender e integrar o sofrimento como parte essencial na formação de nosso caráter, mas também como marca de genuinidade de nossa fé vivida na contramão dos valores e das medidas deste mundo. Os cristãos antigos perguntavam menos pela razão do sofrimento. Para eles, fazia parte de sua existência no mundo. Mas eles viam na cruz uma ajuda para passar pelo sofrimento sem perecer. A cruz os fortalecia e lhes dava a esperança de que não haveria sofrimento definitivo.

Ainda que a cruz termine na morte, ela aponta para a ressurreição, para a transformação do pior sofrimento possível em nova vida, em vida indestrutível. Assim entendemos que o sofrimento entendido na perspectiva da cruz de Cristo é a realidade que cruza e contraria diariamente nosso caminho e nossa vida para quebrar as ideias erradas que construímos em relação a nós mesmos, corroborando assim para a nossa maior identificação com Cristo. É aquela nova criação para a qual valem outras medidas, que não as de uma existência puramente mundana, que precisa se orientar pelas leis desumanas deste mundo caído.

O mundo, com suas medidas e seus parâmetros de desempenho, reconhecimento e felicidade, já não tem poder sobre nós. O sofrimento recebido na sabedoria da cruz é um sinal da graça de Deus e um protesto contra as nossas tentativas de redimir-nos a nós mesmos e de comprar a nossa salvação com o desempenho próprio. O sofrimento nos coloca em nosso lugar: criaturas incapazes que dependem da Graça de Deus. Se não fossem as contradições da vida e se tudo fosse só sucesso, facilmente nos idolatraríamos a nós mesmos, como tantos fazem por aí, como “Narcisos” incensando a própria vaidade.

Por mais absurdo que possa soar aos nossos ouvidos aburguesados, a espiritualidade da cruz é a chave para a verdadeira vida. Longe de nós desejarmos o sofrimento, ou atraí-lo, ou produzi-lo gratuitamente (isto seria uma blasfêmia e negaria a própria verdade e utilidade da cruz no gracioso plano redentor do Pai). Mas longe de nós também negar ou não acolher a realidade do sofrimento, categorizando-o como absurdo.

Aprendamos dos antigos cristãos:

“Teu Senhor não foi pregado no poste da cruz? Tu deves imitar o teu Senhor! Se amas teu Senhor, então morre a mesma morte que ele e faze o caminho do apóstolo: ‘O mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo.’ (Gl 6.4). Por mundo entenda: elogio humano, poder e sucesso exterior, fama, riqueza, luxúria, bebedices e glutonerias, fofocas e maledicências...Crucifica-te para estas coisas” (João Crisóstomo).

“E, assim, quando sofrer, que seja por fazer o bem, ou, para te fazer bem” (Tertuliano).

Não existe Cristo sem crucificação. Não existe cristão sem Cruz!

Nos laços da cruz gloriosa,


É ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira (SP) e professor de Teologia Pastoral e Bioética no Seminário Presbiteriano do Sul, de Filosofia na Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITREF) e de História das Missões no Perspectivas Brasil.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Carisma e caráter na Igreja

É possível que quando pensamos em uma igreja viva associamos a uma igreja dinâmica, engajada, repleta de atividades, programações e oportunidades a todas as faixas etárias, que tenha uma liderança visionária, que mobilize e motive as pessoas. Por outro lado, pela influência de uma tradição carismática e pentecostal, muitas vezes se pensa numa igreja viva aquela em que os cultos são fervorosos, a palavra seja pregada com poder e haja manifestações especiais do Espírito Santo. Realmente, essas podem ser descrições de igreja viva, pelo menos no que se refere à sua organização, funcionamento, atividades e culto.

Mas é nisso que se resume a ideia de igreja viva? Uma igreja genuína, autêntica e cheia de vida é a mesma coisa que uma organização dinâmica, eficaz e engajada? É possível identificar traços de uma igreja viva?

Os reformadores do século 16 e a teologia reformada até os dias de hoje falam de uma igreja verdadeira e a definem como igreja onde se prega a Palavra verdadeira, os Sacramentos são administrados fielmente e a disciplina é exercida com eficácia. À medida que o movimento reformado se estabelecia como movimento religioso e eclesiástico independente da igreja romana da época, e muitos outros movimentos de reforma iam surgindo, alguns defendendo uma ruptura mais radical com as práticas e formas da igreja medieval, foi preciso os reformadores estabelecer os parâmetros de uma verdadeira igreja.

Hoje, diante da multiplicação de igrejas, movimentos, comunidades e grupos religiosos cristãos evangélicos, muitos dos quais com grande projeção nas mídias, arrojo de ações e imagens, fortalecimento institucional, e outros indo na contramão dessas tendências, optando por informalidade e valorização das relações em vez das estruturas, é preciso refletir sobre a igreja viva.

Rick Warren (A igreja com propósito) e Christian Schwarz (O desenvolvimento natural da igreja) entendem que a igreja cresce naturalmente e se não está crescendo há algo de errado, por isso, todo pastor deve perguntar não “como fazer a igreja crescer?”, mas “o que está impedindo a igreja de crescer?”. Essa visão demonstra uma ideia de que a igreja é organismo vivo e se não cresce é porque ela está enferma. No entanto, revela também um conceito de crescimento principalmente numérico. Mas essa visão de crescimento foi desafiada muitos anos atrás por autores latino-americanos, dentre os quais Orlando Costas, que defendia um crescimento mais holístico da igreja pelas dimensões numérica, orgânica, conceitual e diaconal. Desse modo, os sinais de uma igreja viva não podem ser constatados somente pelo crescimento numérico e pelo seu funcionamento.

Na realidade, pelos conceitos atuais de crescimento e revitalização de igreja, um dos requisitos essenciais de uma igreja é sua visão, missão e uma liderança qualificada. No entanto, o conceito bíblico de igreja viva e saudável está mais na ação e evidência do Espírito Santo na vida das pessoas. Mas, mesmo quando se fala de ação e presença do Espírito Santo na igreja, nossas tradições eclesiásticas e doutrinárias divergem quanto ao modo de entender presença do Espírito.

A passagem de Atos 2.42-47 é frequentemente usada para ilustrar e fundamentar a igreja saudável. Os primeiros convertidos perseveravam na doutrina, partiam o pão, na reunião para comunhão, oração e adoração, na manifestação do poder pelos sinais e prodígios, na assistência aos necessitados por meio da partilha dos bens e do serviço diaconal, e cresciam em número.

Os ensinos de Paulo em Romanos, 1 Coríntios e Efésios sobre os dons espirituais são também usados para descrever uma igreja viva. Nessa igreja, cada membro exerce o seu dom ou ministério para a edificação do corpo. Mas como vemos na carta aos Coríntios, aquela igreja demonstrava a presença de diversos dons, porém, ela possuía também diversas fraquezas, problemas e divisões. Por isso, não é só a presença do carisma que revela a presença do Espírito e a essência de uma igreja viva. Paulo insiste muito na unidade e no discernimento do corpo.

Mas uma igreja viva não é só aquela que realiza o ministério por obra do Espírito Santo. É também a igreja cujos membros andam no Espírito e demonstram o fruto do Espírito em suas vidas. Se, assim como John Stott que sonha com uma igreja bíblica, adoradora, acolhedora, que sirva e que espera, eu puder sonhar e desejar uma igreja viva, eu gostaria de ver mais amor, alegria, paz, bondade, benignidade, longanimidade, fidelidade, mansidão e domínio próprio – o fruto do Espírito – na vida dos membros, nas estruturas, ações, pregações e ministérios da igreja. Uma igreja que equilibra o carisma com o caráter.


Pastor presbiteriano, doutor em Antigo Testamento e diretor acadêmico da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina (PR).

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Sem vergonha de ser cristão, honesto e feliz

“Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias.” (Sl 34.13)

“Faz escuro, mas eu canto.” (Lutero)

No coração do evangelho vemos a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus. Um sentimento de alegria que gera festa: é o pastor que reencontra a ovelha perdida; é a mulher que exulta quando a moeda perdida é encontrada; é o pai que vai ao encontro do filho perdido para homenageá-lo com a graça, em festa e grande alegria; alegrai-vos comigo, diz Jesus a cada feito. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz” (Gonzaguinha). Poetas e cantores proclamam a alegria de viver. Saint-Exupéry dizia: “O maior prazer é o prazer de conviver com os outros”. A ética do cuidado começa e finaliza, portanto, na alegria do bem, na felicidade e no prazer de participar do bem-estar de todos, na denúncia de privilégios de poucos e exclusão de muitos.

O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Jesus Ben Sirac, o autor do Eclesiástico, ensinou que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, o grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dia” (Sl 34.13).

Antes de contrair a doença mortal da ambição, quando o homem (humano) se sentia feliz, tranquilo e seguro, sem ganância de poder, sem pensar numa felicidade comercializável, que permite vender a graça como uma mercadoria num balcão, o salmista já dizia: “Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria”. O mais alto ideal cristão está aqui: felicidade, bem-aventurança eterna. E Deus cuida de seus filhos e filhas por meio de nós. Sejamos felizes por isso.

A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina”, um passarinho que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-lo, como nos lembra um ensinamento oriental. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, por meio desses poderosos verbos auxiliares da propriedade, da sabedoria corrompida, da potência, buscamos ser felizes (L.C.Susin). No entanto, dificilmente alcançamos esse fim. A manhã nunca chega por esses meios. Permanece a noite tenebrosa que assustava Lutero. Os corais angelicais já devem começar seu encantamento aqui na terra: “Faz escuro, mas eu canto”.

Concretamente, dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o ser humano na sensação positiva da vida em gozo pleno.

A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, como o da criança que brinca feliz com a areia sem pressentir que já é um esboço do que vai ser: “Homem (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, segurar o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora” (William Blake). Tantos conteúdos para a “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz. Aí está a primeira liberdade e o primeiro amor à vida, a primeira consciência da honestidade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse, em sua ética exigente de sinceridade, de verdade contra a hipocrisia ou a ambiguidade, da colocação do dever acima de tudo: é um prazer ser honesto! É um prazer não compartilhar com a corrupção reinante e não aceitar que um governante nos chame de “imbecis” e que seus aliados políticos sejam inatacáveis quando distribuem esmolas para o povo (Lula e Sarney).

Haverá outras formas de se expandir a felicidade, como, por exemplo, a felicidade de se dedicar a uma causa de justiça, de trabalhar em favor da cooperação e da solidariedade com os que não têm nada, de aprender da gente do povo, que vive feliz em sua sabedoria sem ganância, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela gente amada. Porém são como que degraus sobre a estrutura básica do prazer. A primeira alegria é a de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão, não dispensa, mas exige o prazer. Jesus ensinou, e nós devíamos assinar em baixo.


• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Advento: O Rei virá

“Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel” (Is 7.14).

Iniciamos neste domingo o novo ano litúrgico da igreja cristã, o tempo do advento. O advento é um tempo litúrgico que pode ser divido em duas partes. Nas duas primeiras semanas (dois primeiros domingos), as ênfases bíblicas se concentram nas promessas e nas profecias quanto a vinda do Messias, o desejado das nações. Os textos propostos para a reflexão da igreja se encontram em quase sua totalidade no Antigo Testamento, a partir de Gênesis 3.15. A partir da terceira semana a liturgia nos propõe a expectativa mais iminente da vinda do Messias, aqueles sinais mais claros, como o da visita do anjo na anunciação à Maria e etc. Todavia, o advento também tem um ar escatológico, pois, tendo já ocorrido na história a realização da promessa e das profecias, a plenitude do tempo já chegou (Gl 4.4) – os dias que agora vivemos são aqueles que em sóbria expectação, na alegria da salvação consumada na cruz, aguardamos o retorno glorioso de Jesus Cristo para a consumação do plano da redenção.

O advento é, portanto, para a igreja e cada crente, um tempo muito rico e que deve ser aproveitado como que saboreando a história sagrada nas páginas da Bíblia. O calendário litúrgico não tem outra razão de ser, bem como as suas festas, do que plasmar na alma e na mente dos adoradores as verdades centrais da fé. O tempo litúrgico é uma espécie de credo celebrado, cantado e confessado.

Voltando ao advento, como igreja devemos usufruir da pedagogia proposta para dar os seguintes passos na fé:

1. Aprofundar a nossa certeza e a nossa confiança nos registros bíblicos quanto ao nascimento humano, virginal, sobrenatural e histórico de Jesus Cristo, o Deus humanado, como diria Bernardo de Clairvaux. Os relatos distam de 3.000 a 700 anos antes de Cristo mais ou menos, em se tratando de Antigo Testamento. Essa esperança vem de longe, de tempos imemoriais, e foi exatamente essa esperança que sustentou a fé do povo de Deus em meio as muitas vicissitudes. Quanto mais a nós, que já não vivemos da promessa, mas que temos a realidade, quanta esperança e quanta força não podemos haurir?

2. O Advento quer demover dos nossos corações os elementos culturais e as muitas outras influências mundanas que nos impedem de dar ao Natal o seu sentido verdadeiro. Pelo Advento, ao cantar os hinos que apelam para que a velha história seja contada, ao visitarmos os textos iminentes da encarnação do Verbo, ao entrarmos no lugar onde Maria estava (pela narrativa bíblica), quando o anjo a visitou, somos despertos para a consciência de que Cristo é a única razão de ser do Natal. Se é verdade que existe um espírito de Natal, ele não pode se esgotar em palavras e sentimentos de paz, solidariedade, altruísmo, compartilhamento e boas obras, geralmente tudo de ocasião e efêmero. O Espírito Natal é o Espírito de Cristo que veio ao mundo para salvar pecadores. Que veio ao mundo para salvar todos quanto nele creem. Sem Cristo, o Natal não faz sentido.

Conheço pessoas que não se sentem bem com as festas de fim de ano, sobretudo o Natal. Sofrem com certa melancolia, são atacadas por uma nostalgia desconfortável, que parece dizer que perderam algo ou não aproveitaram como deveria uma parte da própria vida e etc. Talvez, algumas lembranças doces da infância e de pessoas queridas que não mais se encontram entre nós possam mesmo provocar em nossa alma uma saudade doída. Todavia, quando se tem bem presente de que no Natal o que ganhamos não pode mais ser perdido, que nunca mais irá embora e nem nos deixará partir, quando redescobrimos que o Senhor estará sempre presente, não havendo espaço para saudades, então as nossas carências todas são respondidas e supridas na alegria do Emanuel.

Então, para que serve o Advento? Para preparar o nosso coração tão sobrecarregado e tão distraído pelas muitas preocupações da vida. O Advento é uma espécie de memorando ou lembrete antecipado para nos recordar que o Rei está chegando, que Ele em breve virá.

Parafraseando o grande Agostinho, quem não amou a primeira vida do Rei, não suportará quando Ele regressar. Da primeira vez, Ele veio em fragilidade, pequenez, dependendo da ajuda de suas criaturas para sobreviver à nossa miserável condição. Ele se expôs no presépio, na irresistível beleza de uma criança nos braços da mãe. Cheio de graça, no tempo devido, se expôs voluntariamente no alto da cruz, agora deixando transparecer nele a fealdade do nosso pecado e a punição imputada. Quem não o amou nessa vinda primeira, quando em nossa vulnerabilidade, fez-se próximo, tão próximo que foi chamado de Filho do Homem, não o amará, antes, se encherá de medo, terror e angústia quando Ele vier sobre as nuvens, em glória, para exercer a vingança e levar consigo os que lhe pertencem.

Aproveitemos o Advento para abastecer o nosso coração de pios e santos afetos por Àquele que, vindo, trouxe-nos a salvação, e, quando voltar, nos dará a sua glória para sempre.

• Luiz Fernando é Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira, Coordenador do Departamento de Teologia Pastoral do Seminário Presbiteriano do Sul, Professor de Teologia no mesmo seminário e professor de Teologia no Seminário Teológico Servo de Cristo, SP e Faculdade Teológica Batista de SP.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Há solução para o pecado que as máscaras escondem

Frequentemente julgamos a vida a partir de valores mais externos, contábeis e visíveis do que pelas coisas do coração. Corremos, assim, o risco de nos encantarmos com histórias, livros e pessoas que não encantam a Deus, aprovando aquilo que Ele desaprova e desaprovando o que Ele aprova.

A sociedade nos leva a crer que somos aquilo que aparentamos e, não raras vezes, somos julgados pelos nossos títulos, realizações, influência, aparência e tantas outras credenciais que tentam definir nossa identidade.

A razão para tal postura sociocultural é a natureza pecaminosa humana e sua tendência a esconder-se de Deus e da verdade. Desde Adão, que fugiu ao ser convocado por Deus em Gênesis 3, nos tornamos seres construtores de máscaras, agindo com ar de espiritualidade enquanto os interesses do coração e a satisfação do ego tornam-se o centro da vida.

Qual a sua máscara?

O uso de máscaras é prática comum em diversas culturas, festas e apresentações teatrais ao longo da história. Dentre a diversidade de significado e função, máscaras são frequentemente usadas para esconder a verdadeira face ou projetar uma aparência diferente. De igual modo, somos uma sociedade inclinada ao uso de máscaras, tanto para esconder a verdade como para projetar uma imagem idealizada. Máscaras de pureza em vidas sem compromisso com a santidade; máscaras de amor em relacionamentos marcados pelos interesses pessoais; máscaras de compromisso em casamentos internamente destruídos; máscaras de tolerância, que escondem planos vingativos; máscaras de espiritualidade em decisões puramente políticas e interesseiras; máscaras de exortação em sermões que não correspondem com a própria vida; máscaras de misericórdia, sem coração compassivo ou qualquer interesse em aliviar a dor do aflito.

Na busca por um coração íntegro talvez a oração mais marcante na Palavra tenha sido proferida pelo salmista: “Sonda-me ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139:23, 24).

No Reino de Deus a verdade é o fundamento de toda avaliação. Não por acaso a Palavra nos diz que ela nos libertará. A ausência da verdade, por outro lado, nos mantem cativos às mesmas masmorras psíquicas e comportamentais de sempre. De quando em quando, precisamos ser chocados com a verdade sobre as nossas vidas, que faz depor as máscaras, reconhecer o estado do coração e buscar misericórdia e transformação em Cristo. Estes choques de realidade geralmente acontecem no encontro com a Palavra de Deus.

Deus não se impressiona com seus feitos
O elemento principal com o qual Jesus nos avalia é bem menos visível, menos contábil e certamente menos observado por aqueles que nos cercam, pois Ele nos conhece no íntimo, sem máscaras, manipulações ou enganos. A Palavra usa expressões como “coração puro” (Sl 51:10), “de todo o teu coração” (Mt 22:37), “integridade do coração” (Sl 78:72), e “santidade ao Senhor” (Ex 29:6) para nos fazer entender que Deus nos avalia mais pelas coisas do coração do que pela nossa roupagem.

Sim, Jesus conhece o secreto da sua vida. Ele certamente não se impressiona pelas grandes construções que levantou, realizações aplaudidas por multidões ou teses defendidas debaixo dos holofotes. O Carpinteiro de Nazaré olha direto para o seu coração e vasculha a sua alma. E é justamente neste campo que seremos encontrados, fieis ou não.

A racionalização, a fuga e a hipocrisia: inimigas da santidade

Há vários elementos humanos que nos preterem de buscar um coração puro. São os inimigos da santidade, contra os quais devemos lutar. Três deles são a racionalização, a fuga e a hipocrisia.

O problema central da racionalização é que ela nos distancia da verdade. Leva-nos, tão somente, a construirmos as razões que justificam o nosso pecado, não nos confronta e jamais nos ajuda a termos corações transformados. Se você convive com alguém que sempre racionaliza seus problemas pessoais, há uma alta chance de que ele venha a repeti-los muitas e muitas vezes. A soberba e orgulho são aliados da racionalização, pois ajudam a pensar que o outro é sempre inferior e, consequentemente, participante maior em nosso próprio erro. Tolstoi, no livro Celebração da Disciplina, argumenta que todos pensam em mudar a humanidade, mas poucos pensam em mudar a própria vida. E a racionalização é um sério elemento que nos impede de buscarmos uma vida confrontada e transformada pela verdade.

A fuga, assim chamemos, trata o pecado como um objeto distante e jamais o observa de perto. Tal mecanismo provoca constantes evasivas no pensamento e discurso quando se trata de avaliar o próprio coração. Corações em fuga jamais lidam com seus erros de forma objetiva, pois há sempre outra pessoa, circunstância ou motivo que deve ser o foco de atenção e para onde se transfere a responsabilidade primária do pecado. O problema da fuga, bem como da racionalização, é que nos distanciamos da verdade, andando sempre nas adjacências dos nossos erros, sem jamais vê-los confrontados.

O caminho para um coração santo inicia na Palavra que nos encoraja, ensina, confronta, conduz à retidão e alinha nossos pensamentos, impedindo a racionalização improdutiva ou a fuga irresponsável. Sendo assim, a busca por uma vida cristã autêntica faz-nos olhar para Deus e torna-nos sensíveis ao pecado, “para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus, inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo” (Fp. 2:15).

A hipocrisia, por sua vez, é quase sempre resultado de um coração soberbo e olhar altivo, que impede de perceber que o pecado apontado e combatido no outro corresponde, muitas vezes, à tendência do nosso próprio coração. Um coração hipócrita é aquele que é duro, rápido e assertivo para apontar o pecado alheio, com expressão de surpresa e repúdio, mas se mantem em silêncio com os próprios pecados, tratados com extrema tolerância. Salomão enfatiza que Deus se entristece profundamente com tal conduta, pois o Senhor aborrece olhos altivos (Pv 6:17). Gálatas 5 nos revela que as obras da carne estão todas no mesmo pé de igualdade. Os pecados contra a pessoa de Deus (idolatria, feitiçaria), contra o próprio corpo (prostituição, impureza, lascívia, bebedeiras e glutonarias) e contra o outro (inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções e invejas) igualmente nos distanciam do Senhor.

Devemos lutar não apenas contra a prostituição e a idolatria, como claramente se faz na Igreja de Cristo, mas também contra a arrogância, a murmuração, o orgulho, a malícia, a avareza, a inveja, a altivez, a jactância, o desrespeito e o atrevimento.

É certo, porém, que não podemos purificar nosso próprio coração. Dentre tantas verdades marcantes do Cristianismo, uma das principais é que dependemos de Deus. Que o Senhor nos leve a orar com sinceridade e humildade, a cada dia, como o salmista: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável” (Sl 51:10).

 Ronaldo Lidório é doutor em antropologia e missionário da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais e da Missão AMEM. É organizador de Indígenas do Brasil -- avaliando a missão da igreja e A Questão Indígena -- Uma Luta Desigual.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Na ONU, Brasil vota pela erotização infantil, mas medida não é aprovada

O controle dos pais sobre o modo como as crianças serão expostas à educação sexual na sala de aula foi debatido na semana passada numa comissão das Nações Unidas dedicada ao tema da infância.
A proposta era que, após a leitura do Terceiro Comitê da 72ª Sessão, fosse aprovada uma resolução recomendando que crianças pequenas pudessem ser expostas a aulas sobre sexo sem a necessidade de os pais serem informados. Entre os favoráveis estava o Brasil.
A maneira como votou cada país pode ser visto aqui. Y (sim) é para barrar as resoluções e N (não) é para sua aprovação.
Contudo, após a manifestação contrária dos Estados Unidos, que sob o governo Trump tem impedido o avanço das agendas liberais, os países do continente africano votaram em massa uma emenda contrária. A exceção foi a África do Sul, que ficou ao lado dos países europeus, que sugeriram a mudança.
Sendo assim, a autoridade dos pais sobre a educação sexual dos filhos está, temporariamente, garantida.
O Center for Family and Human Rights, uma ONG pró-vida, explica que o bloco africano e a pequena nação caribenha de Santa Lúcia orquestraram a votação que barrou – com 90 votos a favor da mudança e 78 contrários – as três resoluções abusivas.
Os africanos, liderados pelo Egito, foram inflexíveis, deixando claro que se oporiam a qualquer resolução das Nações Unidas que não levassem em conta a necessidade de “orientação dos pais e dos responsáveis legais”.
Santa Lúcia foi a primeira a propor uma alteração em parágrafos que falavam sobre crianças e adolescentes, que para a ONU são pessoas a partir dos 10 anos de idade.
“Os pais e a família desempenham um papel importante na orientação das crianças”, disse a delegada de Santa Lúcia na Assembleia Geral, insistindo que a linguagem original da resolução não era “adequada”, pois colocava a opinião dos pais em pé de igualdade a das crianças e dos professores.
Ela lembrou a todos do tratado da própria ONU sobre os direitos da criança, que reconhece o papel dos pais no direcionamento da educação de seus filhos.
Visivelmente frustrados, os delegados europeus e latino-americanos pediram uma votação sobre essas emendas. Acabaram vendo prevalecer a vontade dos países mais conservadores.
A União Europeia disse que não “virou a página” sobre educação sexual, indicando que o tema voltará a ser votado. Na mesma linha, os delegados da América Latina chamaram o texto final de “altamente problemático”.
O representante do Canadá disse: “não podemos aceitar isso”. Um delegado australiano afirmou que eles estavam “extremamente decepcionados”.
O delegado da Noruega foi o mais transparente, deixando claro que não podiam aceitar a premissa da emenda porque “as crianças devem decidir de forma livre e autônoma” sobre assuntos que envolvam saúde sexual e reprodutiva.
O representando egípcio, falando em nome dos países africanos, respondeu com igual transparência: “Nossa cultura africana respeita os direitos dos pais” e “rejeita as tentativas de alguns países de impor seu sistema educacional sobre nós”.
Os Estados Unidos e o Vaticano se pronunciaram, enfatizando o papel dos pais na educação sexual e rejeitaram o aborto como um componente da saúde sexual e reprodutiva.
As agências das Nações Unidas continuarão promovendo “educação abrangente sobre sexualidade” através de seus escritórios em todo o mundo. A falta de consenso sobre a questão na comissão frustrou as tentativas de legitimar a erotização precoce como um programa oficial da ONU. Com informações ONU e Center for Family and Human Rights

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Vida feliz?

“Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem" (Jo 13.17)

“Então Jesus lhe disse: "Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram" (Jo 20.29).

A felicidade sempre esteve entre as principais preocupações e reflexões dos homens de todos os tempos. Ela talvez seja a principal ambição dos corações humanos. Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Agostinho, Tomás de Aquino, Bernardo de Claraval, Elredo e de Rievaux e Calvino, isto sem falar e Blaise Pascal, Bacon e etc., meditaram e escreveram muito sobre a natureza, conveniência, busca e o objeto da suprema felicidade. Seria isto possível? Alcançar a suprema felicidade? E você é feliz ou tem momentos de alegria passageira e insustentável?

O fato é que se todos queremos ser felizes nem todos possuímos o mesmo padrão para a felicidade e nem mesmo os mesmos planos para alcançá-la. A nossa sociedade confundiu bem-estar e conforto com felicidade. Basta dar uma rápida olhada nos comerciais de televisão, os mais diversos. De serviços bancários às facilidades de um cartão de crédito, passando pelas novas tecnologias e designers dos automóveis às novas cervejas. Tudo parece oferecer um atalho para a felicidade.

Ora, uma primeira reflexão pode levar-nos a uma conclusão simplista. Então todos apostam que precisam de muito pouco para ser, de fato, felizes. Uma casa nova e própria, um carro bacana e uma condição financeira estável seria a base de tal felicidade. Verdade, estas coisas podem diminuir algumas preocupações básicas e legítimas e não constituem de maneira alguma um mal em si. Devem mesmo até ser desejadas. Mas estas coisas nunca poderão ser a suma de nossa felicidade, quem sabe fazer parte dela.

Qual o fundamento da felicidade?

Eis o que as Escrituras asseveram sobre a felicidade pela qual o homem deve anelar:

1. “Como é feliz o povo assim abençoado! Como é feliz o povo cujo Deus é o Senhor!” (Sl 144.15); “Como é feliz a nação que tem o Senhor como Deus, o povo que ele escolheu para lhe pertencer!” (Sl 33.12). É feliz aquele que vive no meio de um povo, de uma nação que teme a Deus e que o reconhece como Soberano. Muitos de nossos irmãos padecem sob regimes ateus ou com cosmovisão secularizada ou ideologias que não toleram e criminalizam a fé. Há felicidade para os homens quando as Escrituras podem ser livremente pregadas para influenciar, modelar, questionar e desafiar a condução de um povo. Não poderá haver felicidade para um povo inteiro onde o Evangelho não incomodar as consciências e inclinar os corações para o bem e a verdade. Aspiremos para que o nosso Brasil seja fermentado, salgado e iluminado pelo Evangelho para que todos tenhamos vida pacífica e próspera (1Tm 2.1,2).

2. “Quem despreza o próximo comete pecado, mas como é feliz quem trata com bondade os necessitados!” (Pv 14.21); “Como é feliz aquele que se interessa pelo pobre! O Senhor o livra em tempos de adversidade” (Sl 41.1). Feliz é aquele que não vive uma vida autocentrada, mas se abre para o encontro do necessitado. Que não é avarento e egoísta, mas se deleita em compartilhar das próprias bênçãos recebidas, lembremo-nos sempre de que a fé sem obras é morta (Tg 2.17).

3. “Como é feliz o homem a quem disciplinas, Senhor, aquele a quem ensinas a tua lei” (Sl 94.12). Há felicidade para o homem que sente a disciplina, a correção e a zelosa pedagogia do Senhor. O homem que vive sem limites e entraves éticos é desde já um desgraçado e infeliz, uma vez que Deus parece não se importar com ele de maneira definitiva quanto a sua felicidade eterna. Feliz é aquele que experimenta a vara da correção do Senhor.

4. “Como é feliz aquele que tem suas transgressões perdoadas e seus pecados apagados!” ( Sl 32.1). Esta é uma felicidade libertadora e altamente medicinal. Como é feliz o homem que tem não só a sensação, mas, sobretudo, a segurança de que suas transgressões, de que seus pecados foram e são perdoados por Deus. Sua alma descansa em paz. Seu sono é terapêutico. Sua consciência não o acusa e agora é livre para fazer o bem onde se encontram as grandes alegrias desta vida.

5. “Aleluia! Como é feliz o homem que teme o Senhor e tem grande prazer em seus mandamentos!” (Sl 112.1); “Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração” (Sl 37.4). Ter prazer nos mandamentos é amar a vontade expressa e manifesta de Deus quanto ao proceder do homem em seu relacionamento com o Altíssimo e seu relacionamento com os seus semelhantes. Deus ama quem ama proceder segundo a sua vontade. A estes nunca faltam compartilharem da felicidade mesma de Deus.

6. “Quem examina cada questão com cuidado, prospera, e feliz é aquele que confia no Senhor” (Pv 16.20). O homem diligente e prudente, o que não se deixa conduzir pela lógica do conveniente, mas que examina cada situação à luz da Palavra de Deus e passa todas as coisas no crivo santo de Deus, prospera, encontra a felicidade porque confia no juízo e na sabedoria de Deus.

7. Todavia, não obstante todas estas garantias e promessas já lidas, a suprema felicidade é conhecer a Jesus Cristo, ser salvo por Ele e viver por Ele, pois só quem “tem o Filho, tem a vida!” (1Jo 5.12), e a tem plenamente (Jo 10.10).

Então, você é feliz?


Luiz Fernando Dos Santos
É ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira (SP) e professor de Teologia Pastoral e Bioética no Seminário Presbiteriano do Sul, de Filosofia na Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITREF) e de História das Missões no Perspectivas Brasil.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Nosso ego sempre vai ter público nas redes sociais

Depois de ler um “textão” nas redes sociais, tenho a terrível mania de dar uma olhada nos comentários. É uma mistura de pesquisa social, auto-tortura e um lembrete forçado da total deturpação do ser humano. Esses comentários contêm muito lixo, bestialidade, ódio; mas também, de forma mais rara, algumas pérolas, bom senso e até voz profética.
Há alguns dias estava lendo um desses textões nonsense, no qual o autor claramente se achava o messias do mundo, destilando veneno e ódio para todo os lados. Como sempre, fui me torturar nos comentários. Percebi que lá encontrava o mesmo que nos meus “textões”: alguns aplausos, o “muito obrigado por esse texto”, o cara que xinga a mãe, a menina do “Não jugueis”, o cara que comenta sem nem ter lido e até a hashtag de algum possível candidato em 2018.
Na hora eu buguei. Travei. Não entendia como um texto tão diferente dos meus podia gerar comentários tão parecidos. Fui olhar outros textões na rede… Vi o de um jornalista a favor da Lava Jato e um contra, os de uns 3 candidatos a presidente em 2018, os de pastores reformados e pentecostais, o de uma adolescente Youtuber e também da trinca de filósofos pops do Brasil. Foi quando percebi que todos aqueles comentários que eu sempre vejo nos meus textos estavam lá também. Não importava o conteúdo do textão, nem a ética ou a moral deles. Não importava se havia erros de português ou palavras em latim. Todos têm seu público garantido com os comentários “padrão” citados acima.
O famoso algoritmo das redes sociais garante a cada textão – escrito por um gênio ou uma pessoa normal – o público para curtir e comentar. Cada ego será alimentado nas redes sociais e, assim, se perpetuarão as plataformas cibernéticas que fizerem esse algoritmo de forma mais precisa e alienada nos nichos.
Não estou dizendo que temos que sair das redes sociais, que não devemos ler mais os tais “textões” ou nos transformar em detetives dos egos. É impossível saber se esse texto que você está lendo agora pode ser puro fruto do meu ego e, ao mesmo tempo, útil a algum leitor. Meu alerta é apenas para estarmos atentos à armadilha de só ler os textões que nos agradam, sempre das mesmas pessoas e fontes. Acredito que tem muita mensagem útil para ser lida na internet. Que sejamos sagazes o suficiente para não nos tornarmos apenas fruto de um algoritmo que nos aliena.. E só “migrarmos” de massa de manobra da TV para as plataformas digitais.

 



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Querer sempre ter mais

Querer sempre mais – hábito entranhado no modo contemporâneo de viver no estilo "black friday". Autorizados pela cultura do consumismo e do individualismo a valorizar nosso querer, facilmente caímos na armadilha da insatisfação constante, restringindo nossos pensamentos a querer o que não temos. "O que falta cega pro que já se tem"*.

Querer ter mais se confunde com ser mais importante, e nos faz incapazes de identificar os motivos de sermos gratos. Imaginamos algo que não temos, ou não somos, como possibilidade futura, perdendo os pés do presente. Não aceitamos o presente tempo, não valorizamos o presente recebido. Amargor e rancor vão sendo semeados em nosso ser. Sermos gratos, porém, areja, ilumina, nos torna graciosos. É ter graça sem ser tolo ou ingênuo, mas sim dotado de sabedoria, dando foco e brilho ao que se vive e se recebe, acolhendo a graça com humildade, sem se dar mais importância do que ao outro. Gratidão anda de mãos dadas com a alegria; sem negar a falta ou a dificuldade, aceitar o que se tem faz a vida leve. Ser grato, contudo, não é estar cego, mas aprender a ver, isto é, a reconhecer o que há de valioso, os presentes presentes. É poder ver o céu espelhado no mar escuro quando este nos dá medo... coisa de quando a alma não é pequena...** O olho que vê poesia pode ver.

Olhar para a própria história e enxergar motivos de gratidão não é tarefa fácil - mágoas e feridas põem-se à frente. Impossível passar a borracha como numa "pseudoamnesia", porém podemos encontrar motivos pelos quais encontramos sentido no viver, o que nos fazem prosseguir. Do contrário, estagnamos. Com gratidão, cultivamos alegria, esperança, movimento... a vida tem graça.

Notas:
*da música “Seja Você”, de Herbert Vianna.
**do poema “Mar Português” de Fernando Pessoa.

• Rute Heckert Viriato é psicóloga e psicoterapeuta, com experiência na área de reabilitação para pessoas com deficiência. Estuda temas como: espiritualidade, luto e morte, dor, deficiências, envelhecimento, relacionamentos e escolha profissional. É editora do blog Contemplação do Ser.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O segredo para vencer as doenças da sociedade contemporânea

Se bem enraizada, a passar do tempo, a semente se transformará em uma árvore que dá frutos. Alimentar-se da Palavra, estar na presença de Deus e escutar a sua voz, representam o enraizamento na caminhada cristã. No devocionário Cuide das Raízes, Espere pelos Frutos, o autor apresenta sete características específicas e necessárias para o cuidado das raízes: seriedade no relacionamento com Deus, piedade autêntica, compromisso permanente, renúncia, ausência de hipocrisia, apego a Jesus Cristo e confiança absoluta em Deus!

Mas sabemos que o cenário contemporâneo é desafiador. Zygmunt Bauman (1925 - 2017) – um dos sociólogos mais respeitado da atualidade, autor de mais de vinte títulos traduzidos no Brasil – inaugurou o termo “modernidade líquida”. Em sua frase mais conhecida, ele afirma que “vivemos em tempos líquidos, nada é para durar”. É uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, incerteza e insegurança. Ou seja, são muitos os desafios que o verdadeiro cristão enfrenta para enraizar-se espiritualmente. São tempos que sugerem o desenraizamento.

>>> O que esperar de 2018? <<<
Bauman e outros autores diagnosticaram algumas das “doenças” que estão matando a nossa humanidade, na sociedade contemporânea:

- A sociedade do espetáculo, que considera a performance e não o caráter das pessoas. Alguns autores a consideram “um pesadelo da sociedade aprisionada”;

- A mentira, que faz com que as pessoas se retirem da relação, se recusem a compreender e a serem compreendidos;

- O individualismo, uma forma de poder egocêntrico que luta por realizar os próprios desejos e sonhos sem importar com os demais;

- As relações líquidas, baseadas na competividade, na desconfiança e no descarte, causando um alto custo psicológico e gerando diversos transtornos emocionais;

- A falta de tempo, que não permite investigar a motivação por trás de cada tarefa cotidiana. Desperdiçamos muito de nosso tempo em atividades que podem ser valorizadas socialmente, mas que intimamente significam muito pouco para nós;

- O hiperconsumismo, através do qual buscamos sempre coisas novas que, no final das contas, não nos trazem satisfação. Cada vez temos mais coisas, o que não significa que estamos mais felizes;

- A ironia, que mina a capacidade do indivíduo vivenciar e expressar socialmente sentimentos verdadeiros e significativos. Se antes a ironia era um instrumento fortalecedor do espírito, agora tornou-se uma força debilitante do próprio espírito humano.

Como podemos lutar para nos enraizarmos biblicamente em uma sociedade que nos leva ao desenraizamento? O que nos motiva a cuidar das raízes? Qual é a atitude básica necessária para alcançarmos o alvo? O que precisamos aceitar? Como entender e raciocinar sobre nosso tempo, conservando a esperança? Como nos mover diante destes desafios e como manter esta prática cotidianamente?

Alguns extratos do capítulo 8 de Romanos respondem estas perguntas:

“O Espírito da vida em Cristo, como um vento forte, limpou totalmente o ar, libertando-nos da tirania brutal do pecado e da morte” (v. 2). Em vez de redobrar nossos esforços, simplesmente aceitemos o que o Espírito está fazendo em nós. Confiando em Deus, nos certificamos que o Espírito está em nós, vivendo e respirando o próprio Deus. Quem foca em Deus é levado para um caminho aberto, a uma vida livre. Mesmo que ainda experimentemos as limitações do pecado, experimentamos a vida de acordo com Deus. Deus fará em nós o mesmo que fez em Jesus!

Com seu Espírito vivendo em nós, nosso corpo será tão cheio de vida quanto o de Cristo! Não temos mais de fazer tudo por nós mesmos. A única iniciativa é engajar na vida com Cristo! O Espírito nos chama, há muito o que fazer, muitos lugares para conhecer. Há uma constante expectativa. “E agora, Pai, o que vamos fazer?” Iremos passar pelo que Cristo passou. Se enfrentamos momentos difíceis com ele, então é certo que com ele passaremos momentos inesquecíveis!

O autor do devocionário conclui a reflexão sobre o enraizamento bíblico com as seguintes palavras: “é o rio, as águas, e não a árvore... o segredo da beleza, da constância dos frutos, é ter raízes próximas ao rio”. Ou seja, o segredo é cultivar a nossa verdadeira identidade, uma vida de apego que se enraíza no amor a Deus!

 Por Lênia Almeida

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Santificando a Família

Um domingo desses foi bem diferente.

Ao invés de minha família estar ouvindo a palavra enquanto eu pregava (por ser pastor), eu me assentei com meus filhos e fomos edificados através da pregação de minha esposa em uma igreja onde ela foi convidada a ministrar a palavra em Porto Velho.

Durante a pregação ela contou um testemunho e disse, mais ou menos assim: "Fui alcançada dentro de casa. O Douglass orou por mim durante um ano, mas sempre ia muito além das orações. Ele praticava a palavra dentro de casa e na minha vida, dando bom testemunho de Cristo. Eu ia à igreja, mas não era tocada lá. Em casa fui visitada por Jesus e estou firme até hoje em Sua presença. Portanto pare de achar que o Encontro, a igreja, o pastor, ou qualquer outra coisa/pessoa seja a saída para seu familiar. A saída é você que já está em Cristo, mas isto só ocorrerá quando você viver a palavra dentro de casa. Daí Jesus vai se manifestar lá".

Grato a Deus fiquei a meditar na extrema importância de se praticar a palavra de Cristo dentro de casa (nosso laboratório de prática do Evangelho) como maior instrumento de evangelismo que possa existir, e o quão poderosos são seus resultados.

Não que pessoas não sejam alcançadas nas pregações em igrejas, células, Encontros ou atividades afins. Não, não estou anulando o poder de um sermão.

O que estou é dando ênfase a um tipo de sermão muito mais poderoso que este: A PRÁTICA.

Já diz um jargão popular: "As palavras convencem, mas o exemplo ARRASTA".

E é verdade!

O apóstolo Paulo vai corroborar com esta ideia afirmando que o cônjuge cristão vai santificar seu parceiro. Aleluia.

O apóstolo Pedro também afirma a mesma coisa. Vamos ver?

"Da mesma maneira, esposas, cada uma de vós, seja submissa a vosso próprio marido, com o propósito de que, SE ALGUNS DELES AINDA SÃO CONTRA A PALAVRA, SEJAM CONVERTIDOS SEM ADMOESTAÇÕES, MAS PELO PROCEDIMENTO DE SUA ESPOSA, TESTEMUNHANDO A VOSSA MANEIRA DE SER HONESTA E RESPEITOSA. Portanto, o que vos torna belas e admiráveis não devem ser os enfeites exteriores, como as tranças do cabelo, as finas jóias de ouro ou o luxo dos vestidos. Pelo contrário, esteja em vosso ser interior, que não se desvanece, toda a beleza que se revela mediante um espírito amável e cordato, o que é de grande valor na presença de Deus. Porquanto, na antiguidade, era desse modo, que as santas mulheres que esperavam em Deus costumavam adornar-se. Elas eram dóceis cada qual para com seu próprio marido, como Sara, que obedecia a Abraão e o chamava senhor. Dela sois filhas, se praticardes o bem sem qualquer espécie de receio." I Pedro 3.1-6

É claro que todo o texto é maravilhoso, mas grifei algo digno de reflexão: se a mulher somente VIVER a palavra de Deus em seus comportamentos honrosos, submissos e respeitosos, conquistará seu marido para o Senhor com estes comportamentos. (vale para maridos, filhos, etc)

Pensar o contrário então se torna determinante: Se não aplicar a palavra de Deus em casa, jamais atrairá para Cristo aquele familiar tão amado.

E é a mais pura verdade. Eu mesmo, em conversas de gabinete pastoral já ouvi de maridos e esposas não crentes em Jesus metralharem com frases parecidas com esta: "Se for pra ser crente e me parecer com isso aí (marido ou esposa) eu não quero. Isso é hipocrisia!"

Forte não?

Luciana, minha esposa, lembrava durante sua ministração que, há cerca de 14 anos atrás, ela começava uma briga, me instigava a brigar, mas eu ia orar imediatamente, mesmo estando correto e com a razão. Num primeiro momento ela ficava mais furiosa ainda, mas na madrugada o Espírito Santo a convencia de que ela era quem estava errada (difícil hein? Só ele mesmo pra convencer uma mulher de tal coisa kkkkk).

Brincadeiras a parte, quero chamar sua atenção para o fato de que se você é cristã(o), a responsabilidade da pregação do evangelho para sua família está toda sobre você, através de seus comportamentos, de sua obediência às leis de Cristo. Isto é o aroma dEle sendo exalado em sua residência.

E como a palavra de Deus é FIEL, em tempo oportuno todos de sua família (ou ao menos tua casa) estarão servindo ao Rei dos Reis e Senhor dos Senhores.

Não terceirize uma responsabilidade que é sua. Se havia feito isso, se empodere desta responsabilidade novamente e mãos à obra. O Senhor fará o restante.


Porto Velho - RO

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