NOSSA MISSÃO: “Anunciar o Evangelho do Senhor Jesus à todos, transformando-os em soldados de Cristo, através de Sua Palavra.”

Versículo do Dia

Versículo do Dia Por Gospel+ - Biblia Online

sábado, 11 de novembro de 2017

A Utilidade e Importância dos Credos e Confissões - parte 1

O caráter e situação de alguém que está se preparando para o Ofício Sagrado são interessantes além da capacidade de expressão. Essa pessoa, como o Mestre a quem professa amar e servir, está “destinada tanto para a ruína como para levantamento de muitos em Israel”. Em tudo o que é e em tudo o que faz, o bem-estar temporal e eterno, não apenas de si mesmo, mas de milhares pode estar envolvido. Ele é assaltado por perigos de todos os lados. Quaisquer que sejam seus talentos e conhecimento, se não tiver genuína piedade, provavelmente será não uma bênção, mas uma maldição para a Igreja. Mas esse não é o único perigo ao qual está exposto. Ele pode ter genuína piedade, bem como talentos e conhecimento, e, ainda assim, devido à indiscrição habitual, a algum defeito na sobriedade de mente – que é tão preciosa a todos os homens e especialmente àquele que ocupa uma posição pública –, ao amor pela novidade e inovação, ou ao amor pela distinção, que é tão natural aos homens, enfim, por isso tudo, em vez de edificar o “corpo de Cristo”, pode-se tornar um perturbador de sua paz e um corruptor de sua pureza. De modo que poderíamos quase dizer, qualquer que seja o desfecho com respeito a ele próprio, que “seria melhor para a Igreja se ele jamais tivesse nascido”. 

Por conseguinte, cada parte do caráter daquele que se adianta rumo ao sagrado ministério: suas opiniões, seu temperamento, suas conquistas, suas enfermidades, e, acima de tudo, seu caráter como um cristão prático são de importância inestimável para a comunidade eclesiástica a qual ele está destinado a se tornar ministro. Nada que lhe diga respeito é sem importância. Se lhe fosse possível, estritamente falando, “viver para si mesmo” ou “morrer para si mesmo”, a situação seria outra. Mas isso não é possível. Seus defeitos e suas excelências, seus dons e graças, bem como os pontos fracos em seu caráter devem ter e terão seu efeito apropriado em cada coisa que tocar.

Vocês podem se espantar, então, que, empregados para conduzir a educação de candidatos a este alto e santo ofício, sentimo-nos postos sob uma responsabilidade não apenas solene, mas temível? Podem se espantar que, estando pouco mais que vocês avançados em nossa experiência relativa a este ofício, acalentamos a mais profunda preocupação a cada passo que damos? Podem se espantar que diariamente os exortemos que “tenham cuidado de si mesmos e da doutrina” e que não cessemos de lhes rogar e de orar para que tenham toda diligência em se apresentar a Deus e à Sua Igreja como servos idôneos e fiéis? Independentemente de toda obrigação oficial, se não sentíssemos e agíssemos dessa maneira, manifestaríamos insensibilidade aos interesses da Igreja e ao próprio bem-estar de vocês, coisas igualmente indesculpáveis e deploráveis. 

É em consequência dessa profunda preocupação com o aprimoramento de cada espécie de habilitação ministerial que não apenas nos esforçamos para conduzir o curso regular de sua instrução, da maneira que achamos melhor adaptada a promover o grande propósito de todos os seus estudos, mas que também agarramos a oportunidade que a Preleção Geral, que fazemos como introdução a cada período escolar, nos dá de chamar sua atenção para uma série de assuntos que não são tratados no curso comum de nossa instrução.

Um assunto desses tomará nossa atenção na presente ocasião, isto é, a importância dos credos e confissões para a manutenção da unidade e pureza da Igreja visível.

Esse é um assunto que, embora pertença propriamente ao departamento de Governo da Igreja, sempre foi, por falta de tempo, omitido nas preleções geralmente dadas nessa divisão de nossos estudos. Sou induzido agora a chamar sua atenção para ele porque, como disse, pertence propriamente ao departamento de minha responsabilidade; porque é, em si, um assunto altamente interessante e importante; porque foi, por muitos anos no passado, e ainda é objeto de muita e severa crítica por parte dos latitudinários e hereges; e porque, embora abundantemente justificado pela razão, pela Escritura e pela experiência universal, os sentimentos espontâneos de muitos, especialmente sob o governo livre que felizmente desfrutamos, pegam em armas contra o que consideram e às vezes agradam-se de denominar o “rigor” excessivo e mesmo a “tirania” de se exigir subscrição aos Artigos de Fé.

É meu propósito primeiramente oferecer algumas observações sobre a utilidade e importância de credos escritos e depois afastar algumas das mais comuns e plausíveis objeções que têm sido levantadas contra eles pelos adversários.

I. Por um credo ou uma confissão de fé tenho em mente uma apresentação, em linguagem humana, daquelas grandes doutrinas que seus idealizadores creem que sejam ensinadas nas Sagradas Escrituras e que são apresentadas em ordem regular, com o propósito de verificar até onde aqueles que desejam se unir na comunhão da igreja realmente concordam quanto aos princípios fundamentais do cristianismo. Credos e confissões não reivindicam ser, em si mesmos, leis da casa de Cristo ou decretos legislativos, pelos quais qualquer conjunto de opiniões sejam constituídas verdades e que requeiram, por esse motivo, ser recebidas como verdades entre os membros da família de Cristo. Eles apenas professam ser sumários, extraídos das Escrituras, de algumas daquelas grandes doutrinas evangélicas que são ensinadas pelo próprio Cristo e que aqueles que fazem esse sumário, em cada caso particular, concorrem em considerar importantes e concordam em deles fazer o teste de sua união religiosa. Eles não têm nenhuma pretensão, ao formular esse sumário, de tornar verdade algo que antes não o era, ou de assim contrair uma obrigação de crer naquilo a que não estavam obrigados pela autoridade de Cristo a crer anteriormente. Mas eles simplesmente o consideram como uma lista de verdades principais que a Bíblia ensina e que, evidentemente, todos os homens devem crer, porque a Bíblia assim os ensina. São coisas que uma certa porção da igreja católica visível concorda em considerar como uma fórmula, por meio da qual podem conhecer e entender uns aos outros. 

Dito isso, afirmo que a adoção desses credos é não apenas lícita e oportuna, mas também indispensavelmente necessária para a harmonia e pureza da Igreja visível. Para o estabelecimento dessa posição, peço sua atenção para as seguintes considerações.

1. Sem um Credo explicitamente adotado não é fácil ver como os ministros e membros de qualquer igreja particular, e mais especialmente de uma grande denominação de cristãos, podem manter a unidade entre si.

Se cada cristão fosse um mero indivíduo isolado, que investigasse, sentisse e agisse por si mesmo, sozinho, nenhum credo de formulação humana seria necessário para seu progresso no conhecimento, conforto ou santidade. Com a Bíblia em seu gabinete e com seus olhos abertos para ver as “coisas maravilhosas” que ela contém, ele teria tudo o que é necessário para sua edificação. Mas a situação é muito diferente. A igreja é uma sociedade; uma sociedade que, conquanto extensa, é “um corpo em Cristo”, e todos que a compõem são “membros uns dos outros”. Não se requer que essa sociedade seja meramente uma em nome ou reconheça uma união meramente teórica, mas também que cuidadosamente mantenha “a unidade do Espírito no vínculo da paz”. São exortados a “permanecer firmes em um único espírito, com uma mente”; são ordenados a “falar a mesma coisa” e ser “de um só acordo, de uma mente”. E essa “unidade de espírito” é tão essencial para o conforto e edificação daqueles que estão unidos na comunhão da igreja como o é para que haja conformidade com o mandamento do Mestre: “Como dois podem andar juntos a menos que concordem?” Pode um corpo de adoradores, composto de calvinistas, arminianos, pelagianos, arianos e socinianos, todos orar, pregar e ter comunhão íntima com proveito e conforto, cada um retendo os sentimentos, afeições e linguagem apropriados à sua denominação? Isso faria da casa de Deus uma infeliz Babel. Como podem aqueles que creem que o Senhor Jesus Cristo é Deus, igual ao Pai, adorando-o conformemente à sua crença, e aqueles que consideram esse culto como idolatria abominável; aqueles que cordialmente renunciam a toda dependência de suas próprias palavras ou mérito para justificação diante de Deus, confiando inteiramente em sua rica graça, “através da redenção que há em Cristo Jesus”, e aqueles que declaram que essa confiança é fanática e a justiça-própria humana, a única base de esperança; podem pessoas que cultivam esses sentimentos e afeições irreconciliavelmente opostos sobre os mais importantes de todos os assuntos se unirem com edificação nas mesmas orações, ouvirem de domingo a domingo as mesmas instruções, e se sentarem confortavelmente juntas na mesma mesa sacramental? Se sim, judeus e cristãos também poderiam adoram juntos no mesmo templo. 

Eles ou serão perfeitamente indiferentes aos grandes assuntos sobre os quais estão assim divididos ou todas as suas relações produzirão discórdias e aflições. Essa assembleia discordante poderia falar sobre comunhão eclesiástica, mas que pudesse realmente desfrutar daquela comunhão que a Bíblia descreve como tão preciosa e que os piedosos tanto se deleitam em cultivar é impossível. É tão impossível quanto os justos terem comunhão com os injustos, ou a luz ter comunhão com as trevas, ou Cristo ter acordo com Belial.

Tendo essas coisas como autoevidentes, como, pergunto, alguma igreja pode se guardar dessa sinistra discórdia, dessa perpétua luta de sentimentos - se não de palavras e conduta - que necessariamente sucederá, quando for composta de tão heterogêneos elementos? Ou melhor, como uma igreja evitará a culpa de abrigar em seu seio e de admitir em sua comunhão as piores heresias que já desgraçaram os cristãos?

Não é o suficiente para alcançar esse fim que todos que sejam admitidos professem concordar em receber a Bíblia, pois muitos que se chamam cristãos e professam ter a Bíblia por seu guia têm opiniões e falam uma língua como estrangeiros e até mesmo como opositores das opiniões e línguas de muitos outros, que igualmente reivindicam ser cristãos e igualmente professam receber a Bíblia. Eles distam tanto como o oriente está para o ocidente. 

Daqueles que concordam com essa profissão geral, a maior parte reconhece como de autoridade divina todo o cânon sagrado, como nós o recebemos, enquanto outros descartariam capítulos inteiros, e outros, um número de livros inteiros do volume da vontade revelada de Deus. Os ortodoxos defendem a inspiração plenária das Escrituras, enquanto alguns, que insistem ser cristãos, negam completamente a inspiração. Resumindo, há multidões que, professando crer na Bíblia e tê-la por seu guia, rejeitam cada doutrina fundamental que ela contém. Assim foi no princípio e assim é agora. Um apóstolo inspirado declara que alguns em sua época, que não apenas professavam crer nas Escrituras, mas mesmo diziam “pregar Cristo”, pregavam, na verdade, “outro evangelho”. Ele ordena que os seus destinatários considerassem esses mestres como “malditos” e lhes assegura que há algumas heresias tão profundas e radicais que devem ser consideradas “condenadas”. Certamente aqueles que defendem o verdadeiro evangelho não podem “andar juntos” na “comunhão da igreja” com aqueles que são “malditos” por pregarem “outro evangelho” e que defendem “heresias condenadas”, cujos defensores os discípulos de Cristo não podem sequer “receber em suas casas” ou “dar as boas-vindas”. Como, então, pergunto novamente, os membros de uma igreja cuidarão para que sejam, de acordo com o mandamento divino, “de uma só mente” e “de um só caminho”? 

Eles poderiam requerer que todos que entram na sua comunhão professem crer na Bíblia. E mais, poderiam requerer que essa profissão fosse repetida diariamente. Ainda assim, essa igreja poderia ser corrompida e dividida por todo tipo de erro grosseiro. Essa profissão, é claro, não determina qualquer concordância; não é uma ligação de qualquer união real; não é um juramento de qualquer comunhão espiritual. Ela deixa tudo dentro do alcance do cristianismo nominal, perfeitamente indefinido, e tão exposto a discórdia total como antes.

Mas talvez seja proposto como um remédio mais eficiente que haja um entendimento privado, vigilantemente cultivado, para que nenhum pastor ou membro seja admitido, senão os que se souber, por conversa privada com eles, que substancialmente concordam com o corpo original, com respeito tanto à doutrina como à ordem. Dessa forma, alguns alegam, a discórdia pode ser banida e uma igreja, mantida pura e pacífica, sem um odioso arranjo de credos e confissões. 

A essa proposta respondo, em primeiro lugar, que ela, para todos os intentos e propósitos, exibe um credo e lhe requer subscrição, ao tempo que insinua e professa o contrário. Ela faz uso de um teste religioso, na maneira mais rigorosa, sem ter a honestidade ou hombridade de admiti-lo. Pois que importa, quanto ao real espírito do procedimento, se o credo for reduzido à forma escrita ou estiver registrado apenas nas mentes dos membros da igreja e aplicado por eles como um corpo, se igualmente exclui os aspirantes que não sejam aprovados?

Mas a essa solução proposta, respondo, em segundo lugar, perguntando: o que é ter uma fé sadia? Conquanto seja explicitamente concordado pelos membros da igreja entre si mesmos, isso não pode ser confiado com segurança ao entendimento e memória de cada indivíduo que pertence ao corpo em questão. Acaso poderia a constituição civil de um Estado, em vez de confiada à escrita, ser abandonada às vagas e sempre inconstantes impressões de cidadãos individuais que vivem sob ela? Nessa constituição, qualquer um percebe que não pode haver nem certeza nem estabilidade. Dificilmente dois divulgadores de seus artigos concordariam perfeitamente, e as mesmas pessoas as exporiam diferentemente em tempos diferentes, à medida que seus interesses ou paixões fossem influenciados. Tão insensato e inseguro, para dizer o mínimo, seria deixar o instrumento da comunhão de uma igreja com uma base similar. Um credo oral, quando mais necessário como meio de aquietar agitações ou de excluir corrupções, seria considerado duvidoso e, é claro, inútil, por ter suas mais importantes provisões reivindicadas por cada parte. Em semelhante situação, se o credo fosse utilizado, seria muito mais provável que fosse pervertido em instrumento de opressão popular que empregado como meio de governo sóbrio e sadio.

A inferência, então, claramente é que nenhuma igreja pode esperar manter um caráter homogêneo; nenhuma igreja pode ser assegurada com a pureza ou paz, sequer por um ano; nenhuma igreja pode eficazmente se guardar contra os mais altos graus de corrupção e contenda sem algum teste da verdade, explicitamente concordado e adotado por ela, em sua condição eclesiástica; algo registrado, publicamente conhecido, capaz de se fazer referência quando necessário, que não apenas este ou aquele membro privado tenha supostamente recebido, mas ao qual a igreja como tal concordou em aderir, como um laço de união. Em outras palavras, uma igreja, a fim de manter a “unidade do Espírito no vínculo da paz e amor”, deve ter um credo – um credo escrito – o qual ela tenha formalmente reconhecido e a cuja conformidade suas ministrações estejam comprometidas. Enquanto esse teste for fielmente aplicado, ela não falhará em ser, em algum bom grau, unida e harmônica, mas quando nada do tipo for empregado, não vejo como ela possa esperar, sem um milagre, escapar de todos os males da discórdia e corrupção.

Continua...
***

Sobre o autor: Rev. Samuel Miller nasceu em Dover, Delaware, em 31 de outubro de 1769. Seu pai foi o Rev. John Miller (1722-1791). Miller frequentou a Universidade da Pennsylvania e se graduou em 1789. Obteve sua licença para pregar em 1791 e a Universidade da Pennsylvania concedeu-lhe o grau de doutor em divindade (D.D.), em 1804. De 1813 a 1849, serviu como professor de História Eclesiástica e Governo da Igreja no Seminário Teológico de Princeton e foi também integrante na fundação da instituição.
Por toda a sua vida, Miller foi um vigoroso participante em muitas das controvérsias que ocorreram no interior da Igreja Presbiteriana, incluindo a que resultou na divisão da Igreja na nova e velha escolas. Também foi considerado uma autoridade em muitos dos assuntos enfrentados pelos cristãos, especialmente os presbiterianos de seu tempo. Miller é, talvez, mais bem conhecido por seus escritos teológicos, polêmicos e biográficos, que publicou em vida, incluindo Um Breve Retrospecto do Século Dezoito (1803, 1805), Memória do Rev. John Rogers (1813), Cartas sobre o Unitarismo (1821), Um ensaio sobre o ofício dos presbíteros regentes (1831) [publicado no Brasil pela Editora Os Puritanos], Uma defesa da ordem primitiva e apostólica da igreja de Cristo (1840), Cartas de um pai para um filho na faculdade (1843) e Reflexões sobre a oração pública (1849). Também foi responsável pela publicação, em 1814, da memória e escritos de seu irmão mais velho, Edward Miller, um médico e professor proeminente em Nova Iorque, que morreu em 1812. 
Miller morreu em Princeton, New Jersey, em 7 de janeiro de 1850, deixando uma esposa e um filho, que escreveu a biografia do pai, em dois volumes (Vida de Samuel Miller, D.D.), publicada em 1869.

Fonte: The Utility And Importance of Creeds And Confessions - Samuel Miller, D.D. - 1824
Tradução: Tiago Cunha (Seminarista do Seminário JMC)
Divulgação: Bereianos

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Membros uns dos outros

Temos visto, graças a Deus, um crescente número de pessoas interessadas pela fé reformada e um severo combate ao pentecostalismo nos dias atuais. Vejo isso com bons olhos na maior parte do tempo, mas algumas vezes esse movimento me traz um pouco de medo. Primeiro porque muita gente ainda não compreendeu exatamente o que é a fé reformada e o que significa abraça-la; segundo porque vejo que alguns tratam com muita irreverência algo que é muito sério e falham na forma como lidam com os irmãos “mais fracos”.
Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos.” (Rm 15:1)
O número de páginas cristãs nas redes sociais, vídeos, memes e etc. fazendo piada com o pentecostalismo ou o marxismo ou o feminismo me assusta de alguma forma. Não estou dizendo que algumas vezes essas postagens não me arranquem riso, mas me preocupa pensar que estamos tratando de forma leviana aquilo que na verdade é muito sério. Se pensarmos na seriedade com a qual a Bíblia tratava as heresias, perceberemos que Deus não acha a menor graça daquilo que muitas vezes nos faz rolar de rir.
Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras (…) para eles o juízo lavrado há tempo não tarda, e a sua destruição não dorme.” (2 Pe 2:1-3)
Fazemos piada de coisas pelas quais Deus tem enviado pessoas para o inferno. Não, não tem graça alguma ver a verdade de Deus ser pervertida e vendida por preço tão barato. Custou caro ao nosso Salvador trazer a verdade à tona, e deveríamos derramar lágrimas ao ver a Igreja Brasileira moderna, não risos. Parece que as pessoas que creem nessas coisas são necessariamente descrentes, ou alvos em potencial. Acho que nós jovens, principalmente, precisamos de um freio; em nosso ímpeto para ganhar discursos, muitas vezes estamos perdendo as almas.
Lembro-me de uma aula do Pr. Breno em nossa igreja para a mocidade na qual ele nos munia de ferramentas para destruir alguns desses discursos comuns em nossos dias. Mas não me esqueço ao final ele dizer: “o objetivo não é ganhar o debate; se você no fim das contas não mostrar o evangelho para a pessoa, de nada valeu”. Ver a forma como alguns jovens têm lidado com os debates realmente me entristece. Não estamos mostrando o evangelho em ponto algum do nosso discurso, queremos tão somente humilhar o oponente e ver que vencemos pelo nosso grande poder de retórica. Quão tolos somos ao fazer isso.
Vejo que alguns “jovens reformados” têm falhado principalmente em dois aspectos: primeiro não levam as coisas tão a sério quanto deveriam, segundo perdem as pessoas pelo bem dos debates.
Não quero dizer que não devemos combater as heresias, jamais! Dizer isso é ir contra tudo o que a bíblia nos ensina. Estou dizendo que muitas vezes nos falta sabedoria para fazermos isso. Nos falta algumas vezes perceber quem realmente acredita nessas mentiras por “ignorância” e quem deseja através delas perverter as verdades do evangelho (Gl 2:3-6). Em diversas porções das Escrituras encontraremos a advertência em relação aos falsos mestres, devemos tirá-los do nosso meio, eles são lobos vorazes que buscam destruir a Igreja do Senhor e precisamos ser firmes e resistir-lhes. Mas até isso devemos fazer por amor à verdade e não para a nossa própria glória.
Tal testemunho é exato. Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sadios na fé e não se ocupem com fábulas judaicas, nem com mandamentos de homens desviados da verdade.” (Tt 1:13-14)
Acho que algumas vezes nós definimos as pessoas por aquilo que elas pensam e não procuramos descobrir a razão pela qual ela tem aquele pensamento, para assim tentarmos ajuda-la. Se olharmos atentamente para as Escrituras, Cristo era sempre severo com aqueles que pervertiam a verdade de Deus para cumprir seus próprios desígnios, mas era sempre misericordioso com aqueles que eram ignorantes à verdade.
Ai de vós escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia.” (Mt 23:27)
Nisto, veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se davam com os samaritanos)? Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria a água viva.” (Jo 4:7-10)
Acredito que em nossos dias nós temos tido a atitude dura e severa com todos, sem nem passar pela nossa mente a obrigação que temos de revelar a graça, misericórdia e justiça de Cristo em nossas palavras. A nossa mensagem será dura, pois ela vai revelar ao homem que ele pecou contra Deus e por isso Deus o aborrece. Nosso discurso será difícil, pois prova que o Senhor deseja que pensemos de determinada forma e que aquilo que é contrário a essa forma de pensar é algo odiado pelo Senhor. Contudo, não podemos perder de vista que nosso objetivo nisso tudo é ganhar almas para o Senhor.
Muitas vezes destruímos as pessoas quando na verdade deveríamos combater as heresias e demonstrar misericórdia por aquelas que tão cegamente creem nisso. A igreja não é um local de pessoas perfeitas e todas maduras com a mesma compreensão das coisas. Não foi assim que Deus planejou. Ele salvou pessoas imperfeitas e utiliza o convívio que existe no seio da Igreja para que todos possam aprender e se edificar mutuamente. Quando não temos paciência com um irmão que é mais fraco e obrigamos que ele engula a seco as nossas vontades, não estamos agindo como crentes maduros e sim como crianças mimadas.
Paulo adverte aos Coríntios que não abusem da liberdade que eles têm, mas que demonstrem misericórdia com o irmão mais fraco (I Co 8:8-9). É nossa obrigação cuidarmos do próximo, nossos irmãos que estão se achegando agora ao evangelho não devem ser recebidos com chacota, não é nosso direito rir daquilo que os enganou por tanto tempo. Devemos tratar com seriedade.
O movimento pentecostal coloca em cheque coisas inegociáveis, e as igrejas acabaram aceitando em seu meio heresias e toda sorte de loucuras; nós precisamos nos colocar contra isso. Não podemos apoiar a mentira, aceitar que Cristo seja usado como um gênio da lâmpada, permitir que a Palavra de Deus seja moeda de troca, que os púlpitos sejam picadeiros, que os gêneros sejam confusos, que a forma de ver o mundo não seja a bíblica. Não! Precisamos combater cada uma dessas coisas, pois elas “matam” a Igreja, elas destroem aquilo de mais precioso para Deus, o resultado da obra de Cristo.
Apesar disso, não é nosso direito tratá-los como ímpios. A graça de Deus é capaz de alcançar qualquer pecador (afinal de contas ela nos alcançou). Podemos avaliá-los pelos seus frutos, instruí-los, exortá-los e mostrar-lhes onde estão errando, mas, fazer piada e excluí-los como se nós fossemos os únicos a ocupar o céu definitivamente não é algo que encontramos na Bíblia como recomendação aos irmãos mais fracos.
Não podemos quebrar a unidade da Igreja por conta disso, precisamos demonstrar maturidade ensinando nossos irmãos em amor, tendo paciência de mostrar para eles ao longo dessa caminhada como devemos agir e pensar. Devemos dar bom exemplo, demonstrar graça e misericórdia e mostrar para essas pessoas a verdadeira Igreja de Cristo, que acolhe aqueles que nessas coisas acreditam, não para que eles continuem em suas crenças equivocadas, mas para que eles aprendam a verdade e saibam que têm em nós auxilio e alívio nessa mudança de vida e caminhada Cristã.
Porque assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros” (Rm 12:4-5)

Fonte: Inconformados

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

7 dicas para lidar com as críticas

Por John Piper

“Alô, Pastor John! Eu queria saber como o senhor lida com as críticas que outras pessoas lhe fazem. Como o senhor avalia essas críticas, aprende com elas e determina quais são pertinentes e quais não são?”

Tal pergunta, certamente, é muito relevante nesses tempos de redes sociais. Não estamos falando apenas de algumas dezenas de pessoas da sua família e da sua igreja, vizinhança ou colegas de trabalho que possam te criticar, e com as quais você poderia discutir pessoalmente. Estamos nos referindo a milhões de pessoas que podem vir a conhecer sua opinião no Twitter, Facebook, em um blog, ou onde quer que você esteja postando.

Eles podem tomar conhecimento da sua opinião e dizer os maiores impropérios do mundo a seu respeito. De um lado, esse mundo das redes sociais é irreal, porque é simplesmente impossível lidar seriamente com milhares de opiniões sobre nós mesmos. Por outro lado, esse ambiente nos dá um vislumbre da realidade, porque revela claramente o quão dividido o mundo está e quão profundamente seríamos odiados se mais pessoas soubessem em que consiste nossa fé em Jesus.

Eu chamo de “um vislumbre da realidade” porque o próprio Jesus afirmou em Mateus 24:9 que ele seria odiado por todas as nações. Se você só interage com cinco ou dez pessoas, não tem consciência disso. Mas se você estiver na internet, você percebe. Você tem o gostinho do que é ser odiado por todas as nações.

Aqui está a minha estratégia para lidar com as críticas:

1. Busque crescimento

Primeiro, entenda que, de acordo com as Escrituras, é sábio buscar crescer através da repreensão ao invés de se apressar para se defender:

Ouça conselhos e aceite instruções, e acabará sendo sábio. (Provérbios 19:20)
A repreensão faz marca mais profunda no homem de entendimento do que cem açoites no tolo. (Provérbios 17:10)
Repreenda o sábio, e ele o amará. (Provérbios 9:8)
Repreenda o homem de discernimento, e ele obterá conhecimento. (Provérbios 19:25)
Fira-me o justo com amor leal e me repreenda, mas não perfume a minha cabeça o óleo do ímpio, pois a minha oração é contra as práticas dos malfeitores. (Salmos 141:5)

Portanto, é sábio desejar receber correção, repreensão e críticas.

2. Esteja disposto a mudar

Em segundo lugar, eu tento buscar ser humilde e aberto diante das críticas no lugar de me deixar ser controlado pela ira. Estou dizendo que tento.

Tiago afirma "Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva" (Tiago 3:17). Amo essa pequena frase, porque a palavra grega para “compreensivo” é “que se deixa persuadir.” Em outras palavras, se você acabou de dizer alguma coisa e alguém discorda daquilo e começa a argumentar, você considera ser persuadido. Você ouve. E está disposto a mudar caso esteja errado.

Tiago declara ainda “Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus (Tiago 1:19,20). Assim, quando ouvimos com humildade, a ira rapidamente se retira. Vamos nos esforçar para sermos humildes e não precipitados em ira, na defensiva.

3. Apegue-se à Escrituras

Terceiro, quando sinto que estou perdendo o equilíbrio por causa das críticas, o que realmente pode vir a acontecer – algumas vezes as críticas podem ser muito intensas e nos ferir profundamente -, oro a Deus para que permaneça comigo e me oriente, e procuro confiar em suas promessas.

O salmista escreveu: "Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá (Salmo 139:9,10). Realmente preciso sentir que Deus está me sustentando quando estou sendo agredido por alguém ou por centenas de pessoas, e parece que estou perdendo o equilíbrio em minha vida.

O salmo 25:15 diz: “Os meus olhos estão sempre voltados para o Senhor, pois só ele tira os meus pés da armadilha”. Se eu me sentir totalmente aprisionado, sem saída e confuso, volto-me para a promessa de Deus. Ele vai livrar os seus pés da armadilha. O salmo 25:8 diz: “Bom e justo é o Senhor; por isso mostra o caminho aos pecadores”. Ele me instruirá. Ele me ajudará a saber quais críticas devo aceitar e quais devo desconsiderar. “Conduz os humildes na justiça e lhes ensina o seu caminho” (Salmo 25:9).

No salmo 25:14, lemos que "O Senhor confia os seus segredos aos que o temem, e os leva a conhecer a sua aliança”. Por isso quero me aproximar de Deus em temor reverente e acreditar que Ele vai me dar estabilidade. Ele vai me livrar daquela situação. Ele vai me sustentar. Ele vai me instruir e me conduzir em meio à desordem emocional causada pelas críticas.

4. Examine tudo

Quarto, eu examino tudo através da palavra de Deus, não simplesmente conforme minhas preferências ou tradições. Isso inclui analisar não apenas ideias, mas também atitudes e comportamentos. “Ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom.
(1 Tessalonicenses 5:21). Ou salmo 119:24: "Sim, os teus testemunhos são o meu prazer; eles são os meus conselheiros".

E se você for criticado por não agir com amor? 1 João 5:2 pode dar uma grande ajuda para que você retome sua estabilidade. Está escrito “Assim sabemos que amamos os filhos de Deus: amando a Deus e obedecendo aos seus mandamentos".

Em outras palavras, o meu sentimento inconstante não serve como medida nesse momento em que acabei de ser criticado por agir ou não com amor. A questão é: eu estva obedecendo os seus mandamentos, sua Palavra? Eu estava seguindo sua Palavra quando disse o que disse ou fiz o que fiz? Portanto, avalie as críticas à luz da Palavra de Deus.

5. Dê tempo ao tempo

Quinto (isso tem um grande valor em termos de praticidade - para mim, de qualquer forma), dê um tempo a você mesmo para avaliar as críticas antes de respondê-las. A carne, a minha carne, é rápida para rebater defensivamente. Antes de tudo, penso no contexto do casamento. A pessoa que mais me corrige neste mundo é a minha esposa.

Acredito que a maioria dos cônjuges diria o mesmo. Por exemplo, quando vocês estão juntos no carro, e ela acha que você não deveria ter feito aquela conversão, ou algo do tipo. Bem, Eclesiastes 7:8,9 nos diz: “O fim das coisas é melhor do que o seu início, e o paciente é melhor que o orgulhoso. Não permita que a ira domine depressa o seu espírito, pois a ira se aloja no íntimo dos tolos".

Ah, quantas vezes eu fui tão rápido em rebater os comentários de Noël, minha esposa – numa atitude de auto-defesa –, e tive que engolir minhas palavras no espaço de dez minutos, porque ela estava com a razão. Com certeza, uma língua precipitada não merece confiança. Dê um tempo a você mesmo. Não reaja de forma impetuosa e auto-defensiva. Tente refrear esses impulsos. A carne não gosta de ser criticada e rebate com rapidez. Mas o Espítiro Santo é gentil. Dê tempo ao Espírito Santo. Ele vai revelar o seu pecado ou o pecado da outra pessoa, e as coisas vão se resolver da maneira de Deus.

6. Busque aconselhamento


Sexto, cerque-se de pessoas que possam oferecer uma avaliação equilibrada a respeito da crítica que você recebeu. Provérbios 11:14 diz: “Sem diretrizes a nação cai; o que a salva é ter muitos conselheiros”.

Eu diria que existe segurança não apenas dos perigos externos, mas uma segurança contra sua própria aflição, causada pelas várias críticas que você recebeu. Se as pessoas que te conhecem (umas oito pessoas, por exemplo) dizem, “Não, não, não. Você não fez o que eles estão dizendo que você fez”, isso tem um grande poder de nos estabilizar. Principalmente quando estamos lidando com críticas muito duras. Nós precisamos buscar sábios conselheiros e perguntar se eles veem em nós as coisas pelas quais estamos sendo criticados.

7. Julgamento final

Uma última consideração: façamos aquilo que Jesus fez quando foi atacado. Independentemente de estarmos certos ou errados, das críticas terem algum fundamento ou não. Jesus “entregava-se àquele que julga com justiça" (1 Pedro 2:23). Para nós, pecadores, isso significa que o julgamento final sobre nós mesmos não está em nossas mãos. Nem nas mãos de outras pessoas. Deus tem a palavra final em Cristo. Nossa única esperança é que Ele seja gracioso para conosco por causa de Cristo.

Nenhum de nós está livre do pecado. Portanto, deve haver um pouco de verdade em toda crítica. Mas o evangelho nos livra de mergulharmos na desesperança.

> Publicado originalmente em desiringGod.com
> Com tradução e colaboração de Enedina Sacramento


John Piper é fundador e professor do ministério desiringGod.org. É chanceler do Bethlehem College & Seminary, em Mineápolis, Minessota. Serviu por 33 anos como pastor da igreja Bethlehem Baptist Church e é autor de mais de 50 livros, entre eles O racismo, a cruz e o cristão e Alegrem-se os povos.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O cuidado de Deus não é fábula!

Há algumas histórias bíblicas com as quais temos uma relação ambígua: gostamos delas e delas tiramos constantes ensinamentos. Mas a verdade é que achamos meio difícil acreditar nessas histórias, pois caem muito melhor para as crianças...

Ver os olhos dos pequenos se arregalando e a adrenalina subindo, num salivar de interesse e total envolvimento, nos fascina e encanta. “E então veio um grande peixe...”, narramos, e o grito deles deixa transparecer todo o seu cativamento. Nós, os adultos, é que contamos a história; mas acreditar nela do mesmo jeito, soltando os mesmos gritos de empolgação, aí já é diferente e bem mais difícil. Dessa ponta de ceticismo e raiz de dúvida, nem nós, os pregadores da Palavra, estamos livres. Penso na minha própria experiência ministerial e nas vezes em que preguei sem sair muito convencido do que disse. “E, se Nínive se converteu, qualquer das nossas cidades pode se converter!”, declarava com eloqüência. Mas, quando as pessoas iam embora e eu, sozinho, descia as escadarias da igreja e retornava à minha casa, perguntava a mim mesmo se acreditava no que dissera. E aí me deparava com todo o meu ceticismo e minha dificuldade de crer.

Uma das dificuldades que temos com as histórias bíblicas é que elas refletem uma realidade muito diferente da nossa, com a qual temos dificuldade de nos relacionar. Acabam sendo coisa de outro tempo e de outro mundo. Tenho visto que um dos segredos é tentar trazer o relato bíblico para dentro do nosso mundo. Aí vejo que ele cabe muito bem na nossa realidade e vai tomando formas que constroem uma bonita ponte entre aquela realidade e a nossa; e o nosso ceticismo vai sendo vencido pela realidade do amor e do cuidado de Deus. E estes, por sua vez, vão tomando forma e assumindo diferentes sabores, cheiros e expressões, sempre a nos dizer que Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13.8) e cuida de nós ontem, hoje e sempre.

Vamos ver isso mais de perto?

O cuidado de Deus assume muitas formas

Cada vez mais eu me vejo envolto pelo cuidado de Deus e falando desse cuidado que expressa a natureza divina e nos cativa com seu amor. Esse cuidado assume muitas e diferentes formas e se expressa nas pequenas coisas da vida e no nosso cotidiano. Mas às vezes ele assume uma forma radical e dramática.

Quem já não ouviu falar da história de Elias e de como Deus o sustentou à beira de um riacho remoto, à base de pão e carne? Cardápio simples e suficiente, mas servido de um jeito estranho e nada apetitoso: “disk-corvo”! O problema é o corvo que, sob orientação direta de Deus, visita o profeta duas vezes ao dia: “Depois disso a palavra do Senhor veio a Elias: ‘Saia daqui, vá para o leste e esconda-se perto do riacho de Querite, a leste do Jordão. Você beberá do riacho, e dei ordem aos corvos para o alimentarem lá.’ E ele fez o que o Senhor lhe tinha dito. Foi para o riacho de Querite, a leste do Jordão, e ficou lá. Os corvos lhe traziam pão e carne de manhã e de tarde, e ele bebia água do riacho” (1 Rs 17.2-6).

Falemos cá entre adultos: nós celebramos o sustento que Deus dá ao profeta, mas seu jeito de fazê-lo não desce com tanta facilidade na garganta da nossa credibilidade. Seja porque não nos agrada a idéia de um corvo chegar carregando nosso almoço num bico que bicou sei lá onde, seja porque a nossa verve racional começa a fazer perguntas sobre este episódio. Então, preferimos contá-lo a um grupo de crianças crédulas e fascinar-nos com o seu cativamento!

Trazendo o "corvo" para mais perto

Certa vez, visitando os pais da Silêda no Maranhão, eu compartilhei com eles a minha estranheza acerca do corvo levando carne ao profeta. “Que tipo de carne?”, comentei.

Então a mãe dela, mulher de histórias e parábolas, falou: “Pois é... papai sempre nos contava daquela vez em que a família dele foi alimentada por um urubu!”

E contou uma experiência ocorrida lá pelo final do século 19, quando a família do seu pai vivia no interior do Ceará. A vida era difícil e atormentada. Às vezes, eles tinham de abandonar a casa por causa dos bandos de cangaceiros que tomavam conta de tudo. Eles chegavam e se instalavam na propriedade, sem dia marcado para ir embora. Quem não fugia, morria. E os donos acabavam debandando. A necessidade constante de fugir já fizera disso uma empreitada organizada. Suprimentos e utensílios básicos tinham de acompanhar a fuga, pois não se sabia quanto tempo a família inteira precisaria ficar escondida no mato.

Numa dessas fugas, a permanência no esconderijo prolongou-se além do previsto. Os dias passavam e nada de os bandidos irem embora. Os mantimentos estavam acabando, o nervosismo aumentando e todos vivendo a dificuldade de não saber o que fazer. E chegou o dia em que só havia feijão para cozinhar. Era o resto, e era só feijão mesmo. Nem sal havia!

Era costume na região salgar a carne e pendurá-la num varal para secar e virar carne de sol. Volta e meia os varais eram visitados por famintos urubus. Pois não é que naquele dia, enquanto o feijão cozinhava na panela, um bando de urubus sobrevoou o local e um deles, não conseguindo mais carregar o toucinho que havia roubado de algum varal, deixou-o cair justamente ali! Na pressa do roubo e sem muito tempo para fazer escolhas, ele havia agarrado um pedaço maior do que suas garras podiam transportar. Cansadas, elas se renderam e o toucinho despencou exatamente lá onde a família escondida olhava, ansiosa e faminta, para o feijão sem tempero!

Foi pura benção e absoluto cuidado de Deus! O feijão foi salgado e a refeição enriquecida pelo presente do urubu. Assim, não apenas Elias foi alimentado por um corvo. Aqueles rostos ansiosos e tensos, no indesejado esconderijo, nos confins do sertão nordestino, experimentaram o alimento trazido por um “corvo” como um providencial presente, tão inesperado e inusitado quanto necessário.

Dona Lídia me trouxe a história de Elias para perto. Para a sua própria família, ainda que para dias que já vão longe. Mas ela me ajudou a entender que a história de Elias é coisa de Deus e, sendo de Deus, é coisa para os nossos dias. A dificuldade é que muitas vezes não queremos nem conseguimos ver os corvos trazendo o nosso toucinho, expressão do cuidado e do amor de Deus. Mas que tem toucinho no feijão, isso tem.


Valdir Steuernagel é pastor luterano, trabalha com a World Vision International e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba. É autor de, entre outros,

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Espiritualidade: contra ou a favor do corpo?

“Desapareceu a doença, e ele ficou limpo”. (Marcos 1.40-45)

A discussão de hoje refere-se à integridade espiritual do crente. Paulo discutirá com os cristãos coríntios o bom emprego da palavra “espiritualidade”. Quase sempre nos referimos a esta palavra pensando como os filósofos gregos, que imaginavam possível um estado de perfeição do espírito somente quando o corpo não interfere na abstração espiritual, fora do corpo e das realidades humanas. Quer dizer, o melhor estado espiritual é aquele alcançado pela mortificação do corpo.

Os monges gregos, ainda no começo da Idade Média, já diziam: “o espírito é para Deus, o corpo é para o imperador” (espírito é “nous”, e “soma” é corpo, no grego). Mas isto não corresponde ao pensamento bíblico e paulino original, por exemplo1. Nenhuma escola rabínica, no tempo bíblico apostólico, ensinaria tal coisa. Paulo foi instruído na concepção judaica, embora fosse inevitável a influência e pressões culturais do mundo helênico. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu não tem a ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do século 7º a.C., “Religião Órfica da Trácia”. Desde os primeiros séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo, informa Renold Blank. Até para as pessoas mais simples: “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”. A depreciação do corpo prossegue. Equivocadamente!

Sem fugir do foco da discussão, precisamos insistir que o modelo antropológico dualista (espírito e corpo separados) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo bíblico original, conforme refletido no Primeiro Testamento. Uma discussão mais habilitada da teologia nos levará à coragem para refinar conceitos que versam sobre o poder e a vida, e sobre o próprio corpo. A Bíblia, por sua vez, não absorve essas razões culturais e ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes apostólicas.

Não há nada mais universal que o corpo. Ele cria o mundo e tudo quanto existe se organiza a partir dele. Tudo quanto o homem criou, seus instrumentos de trabalho, sua sociedade, seus valores, suas aspirações, suas esperanças, seus mitos, sua linguagem, sua religião, suas ideologias, sua ciência, e qualquer outra coisa que se possa inventariar como surgida do homem – ficou engendrado em meio à luta pela sobrevivência do corpo. É justamente no centro, como fonte e razão de ser e existir, que está o corpo do homem. O corpo é a origem do imperativo categórico de agir. “O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro”2.

Temos uma página bastante comum no evangelho de Marcos (1.40-45): Jesus não somente prega a respeito do corpo, mas também, de fato, o cura. Jesus associa palavras e atos. Suas ações trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal. Seu modo de expressar a religião professa solidariedade, compaixão, misericórdia, cuidado, amor libertador. São valores espirituais elevados muito acima da religiosidade sem sentimentos, catártica, regulamentar, desencarnada. Jesus não pratica essa religião. Ao contrário, combate o legalismo que impede a abertura para o outro, seu corpo ou a comunidade em si mesma. Para ele, amar é libertar.

Essa, pois, é a economia do corpo saudável ou doente em questão, seguramente ligada a uma determinada forma de capital, própria vida comercializada na medicina pública e privada. Sob a sensibilidade de instrumentos especiais, uma espécie de GPS que perscruta as recentes visitas médicas ou farmacológicas ao corpo dos homens, mulheres, crianças, idosos, em meio a uma paisagem social devastada pela desigualdade. Especialmente no tratamento do corpo doente. Remodelando os contornos da medicina, da cidadania da saúde, das raças e de outras formações políticas, não temos mais que decidir entre uma interpretação materialista ou espiritualista desses desenvolvimentos3. Poucas atividades são tão transparentes nas injustiças e desigualdades na sociedade moderna.

A ética somática e o capital têm se unido desde o nascimento. Com efeito, podendo a medicina e a seguridade colocar-se a serviço da saúde e da vida, onde a vida mesma atingiu tal importância ética; onde as tecnologias para manter a vida e incrementá-la, podem representar a si mesmas. Muito mais destacada que a corrupta corrida por lucro e ganho individual. Seria possível ao “biocapital” alcançar nossas economias de esperança, de imaginação e de cuidado com o homem e a sociedade? Nesse sentido, podemos afirmar que a ética pragmática ou positiva, enquanto consente na capitalização da vida, estando intrinsecamente ligada ao “espírito do biocapital”, expressa tanto na medicina pública quanto na medicina privada, distancia-se do evangelho do Reino de Deus.

A concepção bíblica refere-se ao ser total, que é corpo, é alma e é espírito, finalmente. E isso no Segundo Testamento, porque no Primeiro os exegetas do século 19 já haviam descoberto que a palavra “Espírito” (“pneuma”, na Septuaginta) refere-se somente ao Espírito de Deus. O hebreu não conhece outra forma de identificar o ser humano senão através do “corpo que é alma e da alma que é corpo” (“nephesh”). Para ele, corpo e alma são indissociáveis.

O ser humano é o centro da pregação de Jesus, e isto se demonstra na ordem do mundo a partir do ponto de vista daqueles que não têm o poder. Eles são o centro da vida. Por isso, quando descubro que “sou eu o centro”, homem indivisível, ser humano, desautorizo-os, e passo a ser um perigo para os comandantes do mundo. Não existe objetividade no poder. Se houvesse, não haveria problemas em permitir falar da “realidade com realismo”. Somos o que somos porque somos um corpo. Meu corpo é parte de outros corpos, na igreja, na comunidade, na sociedade, ensinou Rubem Alves.

Paulo prossegue nesta linha: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas tradicionais têm a ver com a espiritualidade concreta do corpo, mas o comum do cotidiano de cada um e de todos: “...porque nós, embora muitos, somos um só corpo” (1 Co 10.17; 10.31-11). Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os que envolvem a comunidade, a sociedade e o crente.

Derval Dasilio
É pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância" (2013) e "O Dragão que Habita em Nós” (2010).

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O pecado da era pós-cristã

Num desses dias, alguém me perguntou como se deve proceder quando em pecado. Respondi o óbvio: arrepender-se. A pessoa contestou dizendo que o pecador também é vítima e precisa ser entendido como tal.

Essa me parece ser a discussão dos dias correntes: pecador ou vítima?

A Bíblia reconhece que qualquer pessoa pode ser vítima do pecado de alguém ou mesmo da conjuntura social, ou da estrutura politico-econômico-social, porém, não entende que isso possa justificar qualquer ato pecaminoso. Para a Bíblia todo ser humano é sujeito da e na história, principalmente, de sua história. Todos são pessoalmente responsáveis, ainda que possa haver atenuantes ou agravantes.

Para a Escritura Sagrada o que se pede do pecador é que se arrependa, isto é, que assuma o seu erro e a sua responsabilidade. Arrepender-se é aceitar a punição da lei. Um pecador arrependido é aquele que admite merecer a punição que a Lei de Deus prescreve para ele. Que, em última instância, é a morte: “A alma que pecar, morrerá” (Ez 18.4).

O Novo Testamento, entretanto, nos ensina que todo o pecador que se arrepender, isto é, todo o que admitir e confessar o seu pecado será por Deus perdoado, como ensina o apóstolo João (1 Jo 1.9). E, por ser perdoado por Deus, deve ser perdoado pelo ser humano a quem ofendeu. Entretanto, o pecador não tem como exigir o ser perdoado. O pecador pede perdão, mas, não o exige; pelo simples fato de que perdão não é um direito do pecador, é uma benesse do ofendido. Porque perdão é graça.

É verdade que o cristão não tem como não perdoar (Mt 6.12). Contudo, essa é uma questão entre a vítima e Deus. Além disso, o pecador não tem o direito de reclamar do sofrimento de que foi acometido como consequência de seus atos - no relacionamento ofensor e ofendido (isso não justifica o ofendido, caso sua reação seja pecaminosa). É a lei da semeadura: “Semeia-se vento, colhe-se tempestade” (Os 8.7). E é preciso que se diga que, por pior que seja o sofrimento que o pecado venha a provocar sobre o pecador, ainda é menor do que o Inferno ao qual ele fez jus.

Todo o que confessa o seu pecado será perdoado e restaurado por Deus (1 Jo 1.9). Porém, confessar é assumir a responsabilidade e admitir a justiça da punição pelo que fez. Ainda que a punição não virá pelo fato de já ter sido sofrida por Cristo.

Nesta época tal reflexão está se tornando impensável: porque vivemos numa era de vítimas. Hoje, não importa o erro que a pessoa cometa, ela é sempre vítima: seja da sociedade, seja da história, seja da economia, seja da política, seja das instituições, seja da família. Ninguém é culpado. Logo, como alguém disse: é uma época em que ninguém assume a responsabilidade, nem adia prazeres e nem se presta a sacrifícios.

Essa época é pós-cristã não porque não se fale mais de Deus (pelo contrário, provavelmente, poucas vezes na história se falou tanto de Deus), mas, porque não se fala e nem mais se admite a realidade do pecado. Esta é uma era onde não há mais pecadores, só há enfermos. É o auge do humanismo: o pressuposto de que o ser humano é intrinsecamente bom venceu; e, ora, gente intrinsecamente boa não peca, adoece. E doentes são vítimas.

O que ainda não se percebeu nesta presente época é que doentes não podem ser perdoados. Só pecadores podem ser perdoados. Logo, só pecadores podem ser restaurados; só pecadores podem ser tornados puros de toda a injustiça que cometeram. O que será dos que estão prontos para assumir que estão enfermos, mas, jamais que são pecadores? A probabilidade maior é a de continuar pecando cada vez mais e pior, contraindo, aí sim, uma doença para a qual não há cura: a voracidade de ser aceito de qualquer jeito, por julgar ter o direito de ser de jeito qualquer. Essa enfermidade coloca a pessoa a deriva dos mais grotescos apetites, tornando-a escrava dos instintos, que se tornarão cada vez mais irresistíveis. É a escravidão do pecado (Jo 8.34). E disso só se escapa quando, finalmente, a todos os pulmões o pecador confessa: “Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”.

Texto publicado originalmente no portal Irmãos.com

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Ariovaldo Ramos é pastor na Comunidade Cristã Reformada e na Igreja Batista de Água Branca, ambas em São Paulo

domingo, 5 de novembro de 2017

A mulher dominada e oprimida na igreja

O androcentrismo eclesiástico faz parte da dubiedade e duplicidade de pesos e medidas a que nos acostumamos. Afirmações sobre o homem como ser humano padrão não levam em conta um pensamento libertador “ginocêntrico” (gnecos = mulher, no grego). Pergunta-se, com justiça, por que só os contextos de vida e as experiências masculinas são levados em conta, dando-lhes “validade universal”. Nem é preciso imaginar muito para ver como demora à mulher oprimida a chegada dos direitos humanos universais (o sufrágio universal, entre os direitos mínimos numa democracia androcêntrica, chegou para a mulher brasileira alfabetizada somente em 1930). Nenhuma novidade dentro da igreja, para todos, uma vez que outras questões afins aos direitos humanos, como racismo, homofobia, direitos sociais, direitos cidadãos, socialização da economia e dos bens essenciais, também são ignoradas, no mais das vezes.

Questões que se referem ao “todo” da sociedade humana também não entram na maioria das comunidades cristãs. Direitos dos pobres, dos explorados e marginalizados, relação de justiça com a natureza e o mundo criado, violência estrutural, fazem parte do círculo vicioso onde está inserida a mulher e suas responsabilidades. Aqui, tantas vezes, com a mulher fazendo parte, ou, pervertida, sendo solidária com o explorador e dominador. Mulheres vestindo a pele do predador não constituem novidade, a exemplo daquela pesquisa recente sobre o consentimento do estupro1. Consequência da contaminação cultural da qual não se isenta a igreja. Nem a mulher na sociedade autoritária.

É duríssimo para a mulher libertária que o preconceito androcêntrico onipresente a exclua da velocidade necessária, e só lhe conceda o alcance gota a gota dos direitos fundamentais, no trabalho, na transmissão cultural, nas lutas por direitos humanos e sociais, por exemplo. Dentro da Igreja, é preciso tirar as máscaras da objetividade masculina contra a subjetividade feminina, aparentemente harmonizadas no culto e no serviço. Principalmente quando se evidencia a presença do divino sem exclusivismo de gênero. A presença visível perceptível, “teofania”, comunicação de Deus em Jesus Cristo, clama por justiça através de relações recíprocas de justiça entre homens e mulheres. Nada mais forte, nessa teologia, que a medida do humano alcançando o homem e a mulher nas dimensões mais profundas do ser libertário, na luta contra o sofrimento da humanidade. Isso é mais e maior que tudo.

Perigos de guerra, comoções, riscos sociais, violência e opressão, perseguição por causa da busca da liberdade, ocasionam sofrimento a homens e mulheres, de igual modo. Por que os gastos exorbitantes com a Copa do Mundo, a distribuição de renda entre os famintos e miseráveis, as questões que envolvem o trabalho, a urbanização humanizada e mobilidade urbana, não interessariam à mulher? Indistintamente. Não há sentido algum na discriminação da mulher, não há isenção feminina nestas situações, especialmente porque seu sofrimento é ainda maior que o do homem, nestes cenários.

É preciso dizer que o Novo Testamento incorporou a ideologia patriarcal herdada do judaísmo e da cultura greco-romana nos chamados códigos de conduta doméstica (Col 3.18-19; Ef 5.22-24; 1Pe 2.13). Na Primeira Carta aos Coríntios (14.34-35), há o intento de calar as mulheres reduzindo-as ao direito de apenas profetizar. As proibições para as mulheres, relativas a ensinar, batizar, dirigir a Ceia do Senhor, continuaram em documentos posteriores. No período pós-apostólico, ou na segunda geração da igreja inicial, as mulheres, no oficialato eclesiástico, tinham funções consideravelmente diminuídas em importância2. O bispo eliminava até a autorização de profetizar. A igreja se institucionalizara.

Deve-se isso à forte pressão da cultura patriarcal greco-romana. A comunidade local, casa-igreja, é comparável a um aparelho subversivo na igreja patriarcal posterior. Porém, onde estariam as mulheres judias do movimento de Jesus? Inventa-se, depois, uma forma de domínio para submeter a mulher ao que se chamaria “patriarcado amoroso”. Sabiamente, Elza Tamez recusa esse eufemismo sugerindo: “patriarcalismo de amor é uma denominação que não diz nada, porque não deixa de ser patriarcalismo”.

Quando Paulo fala do sofrimento como “synodinei”, “dores de parto” (Rm 8.18-25), refere-se ao “presente” de todos os seres criados, porém, na esperança: “um dia o Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo”. A mulher sabe muito bem o que é “dor de parto”3. Talvez só ela saiba. Maria, mulher exemplar no Evangelho, dá à luz uma criança que vem para simbolizar todas as liberdades. Com dor. Sabe que dessas dores não nasce a morte, mas sim a vida diante de Deus. Vida para toda a Criação, pelo parto do Salvador.

Hoje, o desafio é trazer à teologia “ierusalemita” (centrada no judaísmo “cristão”)4 dos ministérios – uma vez que os 15 primeiros capítulos de Atos se apegam aos acontecimentos iniciais da comunidade espiritual de Jerusalém – o que foi incorporado pela teologia paulina das liberdades e dos direitos na comunidade dos fiéis à concepção de inclusão de gênero: “...não há homem ou mulher... pois todos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.26-29). Isso sem esquecer que o “sacerdócio real de todos os crentes” não exclui a mulher dos ministérios e da vida de serviço da Igreja de Cristo. Pela Graça de Deus.


É pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância" (2013) e "O Dragão que Habita em Nós” (2010).

sábado, 4 de novembro de 2017

Ansiedade à luz de Jesus no Sermão do Monte MT 6: 25-34

Você é ansioso? Você se sente assim por vezes? Eu sim, e cada vez mais tenho aprendido e preciso descansar em Jesus, confiando a ele toda a minha vida.

A ansiedade como outro qualquer mal estar emocional tem sido o que mais dá lucro a indústria farmacêutica, uma pesquisa muito recente mostra que a Industria farmacêutica lucrou 12% a mais este ano.

E o que é ansiedade senão um medo de perder algo ou deixar de ganha-lo? Perdemos o que temos e deixamos de ganhar aquilo que não temos. As pessoas, neuroticamente ficam com pensamentos acelerados antevendo que podem perder o sempre, preocupam-se se vão ou não passar no vestibular, ser acometido por uma doença estar fadado a ficar sempre sozinho sem uma companheira, um companheiro.

Ansiedade no original grego nesse contexto significa "estrangulamento", sufocar, tirar as nossas forças.

De acordo com a OMS 50% das pessoas que passam pelos hospitais são vitimas da ansiedade.

O tempo é um mal estar social que pode conduzir a ansiedade. Hoje ao esperar o metrô, no meu caso no Metrô Butantã, tem um reloginho que conta em forma decrescente 2;00 m, 1:59, 1:58m para o trem vir , um aplicativo diz que hora ônibus encosta no ponto; os semáforos vermelho vão ficando paulatinamente verdes , formas que os homens encontram de lidar com a ansiedade sem saber que isso os fazem ainda mais ansiosos, pois na falta destes artifícios quem sobre é a mente a alma e o corpo..

A proposta de solução de Jesus é "Observai" – (Vs 26) olhar ao redor, ver o que está acontecendo, ver os movimento da vida e o que Deus tem feito ao redor, "Se Deus assim pois veste". Eu gosto muito da analogia do transito. Quem dirige sabe. A gente tá de olho no retrovisor mas não pode descuidar da frente, e na frente a gente olha o carro do lado, do outro, a seta, se é que dão (risos) e mesmo assim somos capazes de cometer erros. A vida é assim a gente olha pra frente, não esquecendo do que passou. Olha pra os planos, pro futuro, mas com o pé aqui e agora TENTANDO não ser tão ANSIOSO.

Deus cuida de nós. Vivi uma época que em casa chegamos a dividir um ovo para três , lembro que colocávamos farinha de mandioca para dar mais sustança e passávamos aquele dia. Hoje eu já diria como Paulo, estou treinado em qualquer circunstancia, sei comer, sei passar necessidade. Mas o que IMPORTA de tudo isso é que DEUS nunca nos deixou.

Hoje Deus quer pacificar o seu coração e a sua alma, então viva um dia de cada vez....lance, como relata I Pedro, toda a ansiedade sobre ele pois ele tem cuidado de nós. Afrouxe o cinto respire fundo e permita-se ser amparado e amparada pelo cuidado de Deus sobre a sua vida.

O suposto "deus" grego CRONOS (cronologia) nos faz correr e adoecer com o tempo e antecedendo as coisas.

Mas um outro ponto é que Jesus diz que Ansiedade é um problema de fé e espiritualidade Vs 32 "Os Pagãos" (ou seja aqueles que não levavam Deus a sério é que se preocupam com essa coisas de alimento e roupas e etc.

Ênfase de Jesus dá nesse texto especificamente, claro que Pedro dá outra abordagem e ainda Paulo outra, mas neste especifico é que ficamos ansioso não por causa de pessoas mas sim de coisas.

O capitalismo, no desdobramento do Consumismo - de 1950 para cá, consumimos 5 vezes mais. – O consumismo pode ser uma chaga mortífera. Lembro-me de um filme, onde A atriz Principal era Demi Moore, não recordo o nome. Ela vivia uma fachada de vida luxuosa e seu vizinho não alcançando aquele padrão foi e se suicidou.

70% dos assuntos que nos deixam ansiosos NUNCA irão acontecer, isso está provado estatisticamente.

Jesus ainda diz que a ansiedade é fruto da incredulidade. "Inquieteis" vs 34. Conta-se que o Papa Joao XXII no concilio vaticano II, disse aos presentes, irmãos precisamos nos CONVERTER. Foi um tal de bispos e cardeais desmaiarem e outros se queixarem dizendo como esse homem vem dizer para que nós que temos 50 anos de fé crista se converter?

Jesus diz que ansiedade é inútil – não e pode acrescentar um côvado. Vs 27. Não dá pra por 15 centímetros de altura, a não ser de salto alto.

É dinheiro que te deixa ansioso? Eu aprendi uma coisa com Ed Rene Kivitz – sempre doar, nem que seja 1 real, mas exercitar assim generosidade, evitando a mesquinharia e solapando o egoísmo e a ANSIEDADE em ter mais.

Deus tem cuidado de VOCE. Você sabia que temos uma bactéria letal em nós que se nosso organismo não responder, somos mortos em menos de 24 horas. O PAI guarda a mim e a você.

Ultima proposta pegar é o vs 33 deste capitulo onde King James Version. Holy Bible. ".Shall be" "Todas a coisas "DEVERÂO" acontecer segundo essa tradução do Século XV.

E irmãos eu acredito claramente que precisamos mudar a nossa mente, nossa trajetória, dar um giro de 180º e voltar para onde era melhor, voltar para CRISTO.

Que o Senhor nos ajude.

Marcio Albuquerque é Psicanalista em São Paulo - cel 11959925030 - mail marcio.albuquerque@usp.br

Um abraço, em Cristo.Marcio Batista De Albuquerque
Osasco - SP 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Espiritualidade anêmica: diagnóstico e cura

A espiritualidade anêmica é aquela que se alimenta de versos isolados, que baseia a fé em correntes e/ou campanhas, que crê que a oração do pastor ou do bispo é “mais forte”, que a adoração e devoção só se dão em determinados locais geograficamente determinados pelos líderes. A espiritualidade anêmica é aquela que enfatiza as riquezas materiais em detrimento da salvação, como a maior riqueza dessa vida. É aquela espiritualidade que enfatiza que as bênçãos de Deus devem ser medidas pela saúde, prosperidade, sucesso e vida luxuosa, desprezando o sofrimento. É aquela espiritualidade que convida pessoas a “pararem de sofrer”, deixando de lado que a figura do Messias Esperado, relatado no Antigo Testamento, é a do Servo Sofredor. É a espiritualidade que se baseia na troca, na barganha e nas expressões deterministas e que não ensina que somos fracos, falhos e pecadores.
É a espiritualidade que nada fala sobre eternidade, só de vitória material, de conquistas efêmeras e de curas milagrosas, valorizando esse corpo que deverá voltar ao pó da terra. É a espiritualidade que valoriza o amor ao dinheiro e aos prazeres que ele pode oferecer, que foi tão combatido por Jesus. É a espiritualidade que coloca o ser humano no trono e Deus como Aquele que recebe ordens de filhos mimados. É a espiritualidade destituída de adoração, devoção e rendição, que são trocadas por rituais religiosos, cobranças litúrgicas, requisição de retorno do tempo e dinheiro investido, de uma fé cega que aliena e neutraliza a razão humana, tão valorizada no contexto do Novo Testamento.
Inicialmente, essa espiritualidade anêmica não apresenta sintomas, mas com o decorrer do tempo, ela fará com que não haja resposta diante das situações cotidianas e nem perante o destino final da vida após a morte. Essa espiritualidade não nutre a lama do pecador, não faz dele um ser humano parecido com Jesus, uma pessoa que reflete a imagem de Deus. Pelo contrário, essa espiritualidade enfatiza a emoção, coloca o homem como centro de tudo, e leva a pessoa a ser mimada, alguém que deseja somente as bênçãos divinas de cunho material.
Essa espiritualidade anêmica um dia começa apresentar seus sinais, pois suas propostas só satisfazem por um tempo e não preenchem o vazio interior, não levam o pecador e buscar a Deus em tudo, pois enfatizam Deus como o meio de se conquistar patamares cada vez mais elevados. Essa espiritualidade um dia cobra o preço de sua rapidez, e deixa a pessoa fragilizada, magoada, decepcionada, e desestruturada.
A cura para a espiritualidade anêmica
O evangelho “é o poder de Deus para salvação”, assim sendo, é o alimento de nossas almas. As pessoas que professam Jesus Cristo como Senhor e Salvador aprendem, ou deveriam aprender, a nutrir suas almas com a Palavra de Deus. Jesus mesmo disse, na famosa oração sacerdotal: “Santifica-os na verdade, a Tua palavra é a verdade” (João 17:17).
A Palavra de Deus é o alimento que irá produzir uma vida santa e desenvolver a salvação. A Palavra de Deus há de ser o alimento de nossas almas. Alimento que nutre e sara. Nutre a alma de esperança, fé e amor, sara das mentiras, vaidades e paixões desse século. A Palavra promove uma desintoxicação no coração e mente dos discípulos de Jesus, que se deliciam na leitura e estudo da Palavra eterna, pois a Palavra, nos lábios de Jesus é a verdade.
Nosso Mestre também disse que ao passo em que “conhecemos a verdade, a verdade nos libertará”, por isso essa Palavra poderosa que transforma, salva e liberta também imuniza o pecador. As porções diárias de leitura da Palavra aliada a períodos devocionais de oração, contrição e louvor irão nutrir a alma e imunizar o pecador diante das paixões desse século. Um coração firmado na Palavra de Jesus é um coração que não sofre de anemia espiritual. E um coração sadio e revigorado. É um coração alimentado pela verdade do Senhor que promove libertação. A ação infecciosa e contagiosa do pecado é expurgada com a Palavra, por isso que os que forem “lavados pelo sangue o cordeiro” terão acesso ao reino de Deus.
Para não sofrer de anemia espiritual, não podemos negligenciar a comunhão com Deus, leitura e estudo bíblico e a pregação da Palavra de Deus, pois a “fé vem de ouvir a Palavra de Deus”. Para combatermos essa espiritualidade anêmica pregada e ensinada por vários cantos do nosso país, precisamos redescobrir o valor nutritivo do evangelho e o poder das Escrituras para nosso fortalecimento espiritual.
Nutra sua vida com o evangelho para não viver uma espiritualidade anêmica. Priorize o Reino e sua espiritualidade promoverá vigor na caminhada cristã. Que o evangelho seja seu alimento para suportar os dias maus e miseráveis.
  • Jeferson Rodolfo Cristianini é pastor da PIB Bauru.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Qual o melhor trabalho para agradar a Deus?

Os reformadores protestantes tinham uma visão do trabalho bem diferente da visão monástica. Consideravam-no como a vocação de todos os cristãos. Assim, rejeitavam a dicotomia entre duas atividades humanas e afirmavam que todas as formas de trabalho têm igual valor diante de Deus. Por exemplo, entre outros motivos que resultaram na acusação de heresia de William Tyndale, estava sua crença de que:
Nenhum trabalho é melhor que outro para agradar a Deus: buscar a água, lavar a louça, ser sapateiro ou apóstolo, tudo é uma só coisa; lavar louça ou pregar o evangelho é uma só coisa, no que se refere ao trabalho, para agradar a Deus.
Martinho Lutero acreditava que Deus, na sua providência, havia colocado cada pessoa na sua função na sociedade para realizar as atividades daquela função. João Calvino enfatizou o trabalho útil. Ele disse que Deus não está “como os sofistas imaginavam, à toa, desocupado e quase dormindo, mas vigilante, eficaz, operante e empenhado em ação contínua”.5 E, em seu comentário sobre a parábola das dez minas (Lc 19.11-27), Calvino relacionou os talentos ao trabalho diário e à vocação e, assim, ditou o significado moderno das palavras talento e talentoso. Atualmente, entendemos o talento como o exercício de uma habilidade, frequentemente associado a uma profissão. […]
Tanto a visão capitalista quanto a marxista creem que o labor contínuo, racional e produtivo transformará o mundo. O trabalho, na sua ótica, é a chave da história, a chave para uma nova sociedade, uma nova natureza e um novo homem. Enfim, é o nosso cerne e a nossa salvação. A diferença é que para o marxismo a transfor­mação deveria ser social e igualitária, ao passo que para o capitalismo deveria ser individual, discriminativa e meritória. Em ambos os sistemas, a sociedade vive incansável e laboriosamente em torno de uma orientação para o futuro. De acordo com essas duas filosofias, o trabalho e especificamente a produção, com o auxílio da ciência e da tecnologia, nos introduzirão em um mundo de consumo, lazer e liberdade.

A PERSPECTIVA BÍBLICA DO TRABALHO
Para examinar a perspectiva bíblica do trabalho, precisamos revisar os nossos comentários sobre Gênesis 1 e o mandato cultural.
Nos primeiros dois capítulos de Gênesis, já vimos que a criação da humanidade recebe um grande destaque. No capítulo 1 ela é o ápice da criação, enquanto no capítulo 2 é o seu centro. Ambos os relatos ressaltam a posição principal da criação do homem. E aqui lemos também sobre o propósito de Deus na criação da humanidade. Gênesis 1.26-28 diz que a humanidade essencialmente teria domínio sobre o resto da criação. Assim, como o próprio Deus, ainda que em menor escala e a Ele subordinado, cabe ao ser humano a função de senhorio. Nisso ele demonstra que é como Deus, pois foi criado parecido com Ele.
Reparamos também a incumbência de multiplicar-se e encher a terra. A reprodução biológica e a ocupação demográfica da terra refletem literalmente a criatividade de Deus. O homem também seria um criador, mas, de novo, debaixo da criatividade do próprio Deus. Finalmente, em Gênesis 2.19, aprendemos que o ser humano recebe uma terceira qualidade como característica de sua herança de parecer-se com Deus. É a incumbência de dar nome às diversas partes da criação, que, de certo modo, trata não só de mera taxonomia, mas eventualmente de todo o empreendimento científico em geral.
Em tudo isso, os seres humanos, diferentes das outras criações de Deus, se apresentam como fazedores da história e da civilização, construindo cidades (Gn 4.17) e desenvolvendo a vida pastoril e nômade (4.20), a música (4.21) e a metalurgia (4.22).
Mesmo a queda não anula o mandato cultural. Adão e Eva continuam com suas funções de guardiões, criadores e senhores da terra. No relato sobre o dilúvio, o mandato é reforçado e renovado para Noé (Gn 9.7, 19-20). A sorte do povo de Deus continua ligada à terra e, para Abraão e seus descendentes, a promessa de bênção de Deus inclui necessariamente a terra (Gn 12.1-3). […]
Tudo isso nos persuade à valorização bíblica do trabalho. As Escrituras estão repletas de louvor pelo labor das mãos, corações e mentes humanas. Habilidades no trabalho são descritas como dons de Deus, que é um trabalhador (Gn 2.4, 7, 8, 19, 23) e um habilitador (Êx 35.30-32; Sl 65.9-13; 104.22-24; Gn 10.8, 9).
Não nos surpreendemos, então, que o Novo Testamento nos apresente Jesus no meio dos problemas diários de gente trabalhadora. Ele mesmo era um carpinteiro e comunicava-se com trabalhadores empregando as figuras do trabalho manual (veja as parábolas narradas em Mt 13.3, 30; 7.24; Lc 15.8, 11; Jo 4.35).
Paulo também valorizava o trabalho. Ele criticava a preguiça (2 Ts 3.6-12) e não fazia nenhuma distinção entre o labor físico e o trabalho espiritual. Usou os mesmos termos para o seu trabalho manual como fazedor de tendas e seu serviço como apóstolo (1 Co 4.12; 15.10; 16.16; Ef 4.28; Rm 10.12; Gl 4.11; Fp 2.16; Cl 1.29; 1 Ts 5.12). Para ele, uma vida de lazer e contemplação religiosa, ou abdicação escatológica, era uma vida deficiente. Todos os membros da igreja deveriam trabalhar (2 Ts 3.10).
Até mesmo os novos céus e a nova terra incluirão o trabalho (Is 65.21, 22; Mq 4.3-5). O labor faz parte do galardão divino, e não do seu castigo!

IMPLICAÇÕES DO TRABALHO
De certo modo, o trabalho faz parte da manifestação do domínio de Deus no mundo, pelo menos à medida que esse domínio se expressa por seu emissário, o homem, especialmente o homem redimido. Por isso, pode-se pensar apropriadamente do labor humano, mediante o exercício das diversas profissões, como um dos meios mais significativos de derrubar as barreiras que se levantam contra o reino de Deus na terra. E, por isso, o desempenho da vocação profissional de cada um deve refletir os valores desse reino, valores de paz e de justiça. Assim, o trabalho possui definitivamente uma dimensão ética. Envolve, entre outras coisas, a denúncia do preconceito racial7, da opressão aos pobres8, do trabalho escravo e mal remunerado9, da decadência urbana, da corrupção política e da imoralidade. Mas deve refletir também uma vida vivida em comunhão com o Criador, evidenciada no culto e na compaixão. Enfim, toda atividade humana é dádiva de Deus e deve servi-lo e glorificá-lo.
Assim, o trabalho pode e deve ser encarado como uma extensão da nossa espiritualidade. Não fazemos separação essencial, como é comum em boa parte da igreja cristã, entre uma vocação secular e outra religiosa. Exercemos toda nossa atividade — trabalho e lazer — religiosamente, ou melhor, espiritualmente. Ninguém se sinta inferior ou culpado pela sua profissão, mas cada um assuma sua função com a responsabilidade e a dignidade de ser administrador de uma tarefa dada por Deus.
Na prática, isso significa que todo serviço humano, exercido para recompensa ou não, diretamente na igreja ou não, deve ser prestado igualmente para a glória de Deus e para o bem do mundo por Ele criado. O cristão deveria se perguntar: “Como meus talentos e minha profissão podem melhor contribuir para os desígnios de Deus e a manifestação dos valores do seu domínio?” Se todos fizessem assim, o testemunho cristão lá na rua e em todos os lugares onde cristãos exercem suas profissões teria um impacto maior. Não enquadraríamos a igreja como o “verdadeiro” campo onde os cristãos vivem e o “mundo lá fora” como um lugar onde devemos gastar o mínimo de nosso tempo e de onde devemos fugir em toda oportunidade que tivermos. Ao contrário dessa perspectiva de “gueto”, enquadraríamos toda a criação como santuário de Deus, estabelecido para sua honra e glória, e, por isso, o lugar principal da atuação cristã. A igreja, sob esta ótica, seria tanto o lugar onde nos preparamos para tal atuação quanto o lugar onde adoramos ao Senhor e crescemos na fé junto com outros filhos de Deus. Enfim, o trabalho não é a antítese da autorrealização humana e cristã. É um dos seus principais meios.
O trabalho não deve ser visto como apenas mais uma oportunidade para evangelizar os nossos colegas de trabalho. Certamente a evangelização em toda situação é nosso privilégio e dever. Mas o trabalho deve ser compreendido de maneira mais ampla, como um dos nossos principais meios de levar adiante o propósito de Deus ao criar a humanidade. Ele é nosso meio de expandir as divisas daquela parte da criação que está sujeita à vontade de Deus e de derrotar as forças do mal que contrariam esta vontade. É um meio de estabelecer a confiança e a responsabilidade mútuas entre os seres humanos e aliviar o sofrimento do homem.
• Trecho retirado do livro  Trabalho, Descanso e Dinheiro, de Timóteo Carriker (Editora Ultimato).

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Podemos Perder a Salvação em Cristo?

Hebreus 6.4-8

Uma pessoa me perguntou se Hebreus 6.4-6 anularia a possibilidade de algum ex-cristão arrependido voltar a trilhar os caminhos do Senhor? A dúvida era: “A quem este trecho se refere?”. Uma outra questão, que surge com este texto, é a possibilidade de perda da salvação. Certamente já ouvimos muitas pessoas afirmarem que podemos perde-la. Na realidade, alguns chamam a certeza da salvação, “o orgulho dos Crentes”.
Essa noção está presente em algumas denominações de orientação teológica arminiana. Vários valorizam a manutenção de uma insegurança por “necessidade de preservar a vida cristã”.  Em meu entendimento, e assim ensina a teologia da Reforma, isso representa uma falta de compreensão do que a Bíblia ensina sobre a doutrina da salvação. No entanto, alguns reformados se surpreendem quando ouvem que a Confissão de Fé de Westminster apresenta a “certeza da salvação” como sendo algo adicional e não essencial à essência da fé real (CFW, Cap. 18, 3 e Catecismo Maior, Perguntas 81 e 172 do Catecismo Maior da CFW). A questão, então, não é se existe ou não “a certeza subjetiva”, ou pessoal, mas se o verdadeiramente salvo pode perder essa salvação. Afinal, um dos pontos principais da teologia bíblica, e da Reforma, é a Perseverança dos Santos.
Textos como Hb 6.4-6 podem nos deixar um pouco confusos, se forem estudados superficialmente, fora do contexto geral da Palavra de Deus. Precisamos, portanto, procurar entender algumas passagens bíblicas que parecem ir em sentido contrário à doutrina da Perseverança dos Santos.
1.     Duas passagens difíceis: Hebreus 6.4-6 e 2 Pedro 2.20-22 são dois trechos de difícil compreensão, mas analisemos cada um deles.
Alguns “provam o dom celestial” e caem, nos diz Hb 6.4-6: (4) É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, (5) e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro,(6) e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.
Alguns “escapam” do mundo, “conhecem”, mas voltam ao erro, nos diz 2 Pe 2.20-22: (20)  Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro. (21) Pois melhor lhes fora nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, volverem para trás, apartando-se do santo mandamento que lhes fora dado. (22) Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal.
2.     As Exposição de João sobre o assunto – Precisamos estar cientes da exposição sobre a salvação que o apóstolo João faz no capítulo 10.26-28, do seu Evangelho e em suas três cartas universais, antes de abordar estes versos difíceis.
O Espírito Santo moveu João a registrar nesse trecho (João 10.26-28) o fundamento da doutrina da Perseverança dos Santos - “Ninguém as arrebatará”: (26) Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. (27) As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. (28) Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Somos seguros nas mãos de Cristo não por nosso próprio poder, mas pelo poder de Deus. Salvação não é apenas um ato de vontade nossa, mas a vontade é um reflexo e resposta à obra de Cristo na Cruz; de sua vitória sobre a morte, na ressurreição; e ao chamado eficaz do Espírito Santo em nossos corações.
Na sua primeira carta, João deixa claro que existem pessoas agregadas ao povo de Deus, mas que nunca fizeram parte dos verdadeiramente salvos pelo poder de Cristo. “Saíram de nós, mas não eram dos nossos”, diz ele. Em 1 João 2.18-20, temos: (18) Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora. (19) Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. (20) E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento.
Em sua segunda carta João fala daqueles que não se prendem à doutrina de Cristo. Ele se referia à pessoa que “ultrapassa a doutrina” e diz que esse não tem Deus. Em 2 Jo 9, ele escreve: Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. Entendemos que esse “ultrapassar” é o mesmo curso abordado por Paulo em Gálatas 1.8. Significa “ir além”, pregar um “outro evangelho”. A esses Paulo reserva palavras duras. Mesmo estando no meio do Povo de Deus, Paulo alerta seus leitores contra eles, e conclui que qualquer um que “...vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema”. Ou seja, seja amaldiçoado aquele que ultrapassa a doutrina.
Na terceira carta, João chama atenção para o fato de que uma vida realmente transformada, realmente salva, não permanece no pecado. Aqueles que dizem ser salvos, mas não demonstram transformação de vida (e, infelizmente, sempre existem esses no meio do Povo de Deus), nunca viram a Deus. Em 3 João 11, ele fala dessa permanência na prática do mal:  Amado, não imites o que é mau, senão o que é bom. Aquele que pratica o bem procede de Deus; aquele que pratica o mal jamais viu a Deus.
3.     O contexto das passagens difíceis. Mas voltemos às nossas passagens difíceis, agora examinando o contexto imediato no qual elas são encontradas.
Hebreus 6.4-6, não pode ser lido isolado dos versos 7 e 8. Estes versos dizem: (7) Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus;(8) mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.
Vemos nesses dois versos a harmonia do texto em Hebreus, com a parábola do semeador, encontrada em Mateus 13.18-23. O v. 22 é de especial importância. O trecho, em Hebreus, não está falando dos verdadeiramente salvos, mas dos semeados em espinhos. Eles recebem a chuva, igual à que cai na terra fértil, ou seja, “provam o dom”, no sentido de que são participantes das bênçãos, mas são sufocados pelos cuidados do mundo. Muitos aparentam seguir o evangelho; fazem parte dos ajuntamentos e atividades das igrejas; mas o coração não está regenerado. O texto em Hebreus não fala em “perda da salvação”, nem em impossibilidade de um crente cair em pecado e não ter condição de se arrepender, mas daqueles que demonstram, ao longo do tempo, que nunca foram convertidos.
Semelhantemente, 2 Pe 2.20-22, deve ser lido a partir do verso 9. Os que “escapam” do mundo conhecem, mas voltam ao erro, são contrastados com os “piedosos”. O texto de Pedro diz: (9)Porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar sob castigo os injustos, para o dia do juízo; (10) especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, (11) ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. (12) Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição também hão de ser destruídos, (13) recebendo injustiça por salário da injustiça que praticam. Considerando como prazer a sua luxúria carnal em pleno dia, quais nódoas e deformidades, eles se regalam nas suas próprias mistificações, enquanto banqueteiam junto convosco; (14) tendo os olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes, tendo coração exercitado na avareza, filhos malditos; (15) abandonando o reto caminho, se extraviaram, seguindo pelo caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça (16) (recebeu, porém, castigo da sua transgressão, a saber, um mudo animal de carga, falando com voz humana, refreou a insensatez do profeta). (17) Esses tais são como fonte sem água, como névoas impelidas por temporal. Para eles está reservada a negridão das trevas;(18) porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade, engodam com paixões carnais, por suas libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que andam no erro, (19) prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor.
O trecho claramente fala de ímpios. Eles conheceram o caminho da justiça, porque aderiram fisicamente à igreja, relacionaram-se com o Povo de Deus, ouviram incontáveis exposições da Palavra. No entanto, em seu espírito e em suas obras, nunca experimentaram conversão. Por isso, nos versos 20 a 22, eles são comparados a porcos que voltam ao vômito. Viviam em um clima limpo, eivado de ensinamentos proveitosos à vida. Levam sobre si a condenação de rejeitarem a tudo isso e ao Senhor da Glória.
Conclusão:
A Palavra de Deus deixa claro, em muitas passagens, que somos salvos para sempre. Por isso Paulo ensina em Romanos que Aquele que iniciou a obra em nós é poderoso para completá-la (Filipenses 1.6). Obviamente, isso não é encorajamento para o pecado, mas motivo de ações de graças – somos salvos pelo poder de Deus e preservados por este  mesmo poder, não por nossas frágeis forças.
Os dois trechos que examinamos ainda que difíceis, são entendidos pelas explicações de João e pelo contexto imediato das passagens. Devemos confiar no preservador da nossa salvação e nunca devemos nos abalar ou permitir que dúvidas sejam colocadas em nossa cabeça.

Solano Portela

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